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A terceira via |
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João Mellão Neto - Texto de 1999
Jornalista
O milenarismo, com todo o seu apelo místico, mexe com a cabeça das pessoas. Ao menos com a terça parte da Humanidade que adota o calendário cristão. Não são apenas os quiliastas, adventistas e apocalípticos. Na verdade, todos nós somos tomados por uma certa ansiedade existencial, prenunciando, se não o fim do mundo, ao menos uma reformulação radical de todos os conceitos, crenças e valores que marcaram o milênio que se finda.
Liberalismo, socialismo, social-democracia, liberalismo social, etc.: todos os dias os leitores são brindados com uma ampla gama de fórmulas ideológicas, cada qual se arvorando em superior e mais adequada do que as demais. Não têm mais o fascínio de outrora. Todas, presumivelmente, já foram testadas e nenhuma foi capaz de construir o "paraíso terrestre". Nem o "deus Estado" atendeu às nossas súplicas, nem o "deus Mercado" parece capaz de fazê-lo.
Talvez o problema esteja justamente aí... Na sacralização de entidades criadas e alimentadas exclusivamente pelos seres humanos. A elevação de concepções políticas ao status de dogmas foi, provavelmente, o grande mal que afligiu o nosso século.
Agora, quando ele se finda, é possível, ao menos, delinear o que de fato significaram. Deixemos de lado as formulações pseudocientíficas, as palavras de ordem, as nuances semânticas e os slogans políticos. Despojados desses confeitos, quais são as premissas e "verdades" implícitas em cada uma das duas vertentes fundamentais: o socialismo e o liberalismo?
Liberdade, igualdade e fraternidade são valores presentes em ambos. Pode-se dizer que são anseios universais.
O socialista entende que a igualdade é o princípio básico, o pré-requisito para se alcançar a "verdadeira" liberdade e, por conseqüência, a fraternidade.
Já o liberal defende como fundamento primeiro a liberdade, sem a qual a sociedade não possuiria os instrumentos básicos para fomentar os outros dois.
Para o socialista, o liberal se excede ao defender direitos e liberdades individuais. Entende que, ao fazê-lo, prejudica o bem coletivo, por despertar no homem o que ele tem de mais egoísta e mesquinho.
Para o liberal, o socialista, ao impor, a qualquer preço, a igualdade entre desiguais, acaba, inevitavelmente, por criar um regime coercitivo, uma vez que não permite a cada um recolher os justos frutos de seu engenho e empenho.
A democracia liberal, para os socialistas, é a "democracia dos lobos". A democracia socialista, para os liberais, nem sequer democracia é...
O socialista acredita na "engenharia social". Para ele, é possível, cientificamente, criar homens perfeitos a partir da existência de um regime perfeito.
O liberal entende que a natureza humana tem características próprias, passíveis de aperfeiçoamento, mas jamais de "reengenharia". O regime perfeito, para o liberal, é o regime possível - aquele que consiga, de forma mais harmoniosa e pacífica, resolver e dar um rumo construtivo aos inevitáveis choques de interesses individuais existentes.
O socialista, embora, no limite, acredite que o Estado acabará se tornando desnecessário, aposta no seu agigantamento inicial como instrumento para a construção de uma sociedade igualitária.
Já para o liberal, o Estado não é uma entidade abstrata, mas sim uma organização formada por homens. Se os homens não são perfeitos, o Estado também não poderá ser. O liberal defende a existência do Estado restrito, cuidando apenas daquilo que as iniciativas individuais não podem prover, tal como segurança, justiça, educação básica, saúde preventiva, etc. O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente...
Entre as duas vertentes, encontram-se todas as doutrinas e ideologias existentes. E muito sangue, suor e lágrimas já foram vertidos na defesa de cada uma delas.
A liberdade como instrumento para a igualdade.
A igualdade como instrumento para a liberdade.
Qual dos caminhos é o correto? Um, outro, ambos, nenhum?
Será que não estamos sendo racionalistas demais?
O fim do milênio nos convida a refletir. E - por que não? - ele nos permite, também, sonhar.
Vinte séculos se passaram desde o nascimento de um homem.
Alguém, sem dúvida, muito especial para dar origem ao nosso calendário. E o que
pregava Ele? Muito simples: a fraternidade como condição para tudo...
Extraído do Jornal "O Estado de São Paulo
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