Redes de Guerra

Henrique Antoun -- Artigo completo em PDF

A Multidão e o Futuro da Democracia na Cibercultura

A rede da vida e da sociedade está se confundindo com a rede da guerra nas comunidades virtuais do ciberespaço.

As redes podem ser definidas como um grupo de indivíduo interligados por meio de tecnologias informacionais de comunicação (TIC) que constituem a Internet e os sistemas hipermídia através da comunicação mediada por computador (CMC).

Howard Rheingold cunhou o conceito de comunidades virtuais, para caracterizar as comunidades em rede construídas através do ciberespaço.

As redes foram desenvolvidas, em seu projeto, para permitir tanto a condução e a articulação de forças aliadas num ambiente caógeno de confronto termonuclear, exprimindo os interesses do Departamento de Defesa norte-americano; quanto a colaboração no desenvolvimento acentrado de projetos de grande porte por parceiros dispersos geograficamente, exprimindo os interesses da comunidade científica.

Tanto a comunidade científica, quanto a comunidade de defesa, que participaram da construção das tecnologias da informação e da Internet, convergem ao considerar como questão fundamental a análise das redes como forma de organização.

As redes parecem ser as próximas formas dominantes de organização — muito tempo depois do surgimento das tribos, hierarquias e mercados — a chegar ao seu próprio modo de redefinir as sociedades e assim refazendo a natureza do conflito e da cooperação.

Algumas redes vão sustentar a promessa de reformar setores específicos da sociedade gerando os enunciados de "democracia eletrônica", "corporações em rede" e "sociedade civil global". Outras vão acreditar em efeitos mais amplos envolvendo a reconfiguração da sociedade como um todo de onde vão surgir os enunciados de "sociedade em rede", "era da rede" e até mesmo a redefinição de "nações como redes".
 

O Advento da Rede de Guerra
 

Para Arquilla e Ronfeldt a luta pelo futuro que faz o cotidiano de nossas manchetes não está sendo travada por exércitos liderados por Estados ou sendo conduzida por imensas e milionárias armas feitas para os tanques, aviões ou esquadras. Elas se desenvolvem através de grupos que operam em unidades pequenas e dispersas, podendo se desdobrar repentinamente em qualquer lugar ou tempo como uma incontrolável infecção por afluência popular (swarming).

Eles sabem como enxamear e dispersar, penetrar e romper ou iludir e fugir. Os combatentes podem pertencer a redes de terroristas como a Al Qaeda, redes de traficantes como Cali, redes de militantes anarquistas como o Black Bloc, redes de luta política como o Zapatismo ou redes de ativistas da sociedade civil global como o DAN (Direct Action Network).

Para compreender este modo emergente de luta e conflito, surgido na sociedade contemporânea a partir da revolução tecnológica que construiu a infra-estrutura do ciberespaço, Arquilla e Ronfeldt criaram em 1993 — mesmo ano do surgimento do conceito de comunidade virtual — o conceito de guerra em rede (netwar), como o oposto correlato do conceito de ciberguerra (cyberwar), também por eles gerado na mesma ocasião, ambos constituindo a maior parte do campo da infoguerra (infowar) no mundo atual.

Enquanto a ciberguerra compreenderia a luta de alta intensidade conduzida através de alta tecnologia militar travada por dois Estados (como, por exemplo, a Guerra do Golfo), a guerra em rede seria a luta de baixa intensidade travada de modo assimétrico por um Estado e grupos organizados em rede através do uso de táticas e estratégias que envolvem o intenso uso das novas tecnologias informacionais de comunicação, da CMC e da Internet.

A guerra em rede é a contraparte de baixa intensidade no nível social de nosso conceito de ciberguerra, mais antigo e muito mais militarizado. A guerra em rede tem uma dupla natureza, como o deus romano de duas faces Janus, a qual é composta, por um lado, de conflitos travados por terroristas, criminosos e etnonacionalistas extremistas; e, por outro lado, por ativistas da sociedade civil.

O que distingue a guerra em rede como uma forma de conflito é a estrutura organizacional em forma de rede de seus adeptos — com vários grupos estando atualmente estruturados no modo sem líder (leaderless) — e a sua ultra flexível habilidade de chegar rapidamente juntos em ataques de infecção por afluência popular (swarming attacks). Os conceitos de ciberguerra e de guerra em rede abrangem um novo espectro de conflito que emergiu na esteira da revolução da informação.

No que diz respeito à conduta, para Arquilla e Ronfeldt a guerra em rede se refere a conflitos onde um combatente está organizado em forma de rede ou as emprega para as comunicações e o controle operacional.

Conforme o método desenvolvido para a análise de rede social, a rede é um grupo (rede) formado por atores (nós) e seus vínculos (ligações) cujo relacionamento tem uma estrutura padronizada. Embora o modo organizacional que o ator da rede de guerra adote possa ter a forma topológica de estrela ou eixo (hub) - topologia de rede em que os membros são vinculados a um nó central e devem passar por ele para se comunicar uns com os outros - com alguns elementos centralizados; ou a de cadeia que é linear - topologia de rede em que os membros são vinculados em uma fila e a comunicação deve fluir através de um ator adjacente antes de chegar ao próximo -; o principal design adotado será o de rede completamente conectada, também conhecida como rede "todos os canais" (all-channel) ou matriz completa (full-matrix), uma arquitetura que permite a comunicação e a interação de cada nó da rede diretamente com qualquer outro nó.

De fato os atores da rede de guerra vão desenvolver estruturas híbridas, incorporando as diversas formas de rede dos modos mais variados, tendo por base a estrutura "todos os canais". Mas, segundo Arquilla e Ronfeldt, o principal instrumento que deve ser usado para compreender uma rede é o de sua análise organizacional, pois enquanto para o analista social de redes basta determinar os grupos de atores com vínculos para sua compreensão, a análise organizacional ainda irá se perguntar se os atores se reconhecem como participantes da rede e se eles se comprometem com as suas operações.

Embora os atores de uma rede de guerra possam fazer um intenso uso do ciberespaço, esta não é sua principal característica e eles podem subsistir e operar em áreas para além dele. Sendo um conflito de tipo não linear, a guerra em rede requer um novo paradigma analítico para ser entendida. O jogo oriental Go provê o novo modelo desta luta que não tem frentes de batalha, onde a defesa e o ataque se misturam, a formação de fortificações e acumulação de peças são um sedutor convite para ataques implosivos e a vitória é conquistada através do ganho de controle na maior quantidade do espaço de combate.
 

O Império se Investiga
 

Arquilla e Ronfeldt, consideram essencial efetuar uma análise organizacional para compreender efetivamente a rede de guerra.

Segundo um método próprio desenvolvido por eles — tendo por base a análise utilizada na literatura empresarial sobre os negócios e a da sociologia organizacional e econômica — devemos considerar, junto com o nível de seu design organizacional, os demais níveis que a compõem, como o narrativo da história que está sendo contada, o doutrinário dos métodos e estratégias de colaboração, o tecnológico dos sistemas de informação em uso e o social dos vínculos pessoais que asseguram a lealdade e a confiança.

De todos estes níveis chama a atenção a recente inclusão do nível narrativo como sendo determinante na compreensão da realidade da rede. Embora eles o apresentem abaixo do nível organizacional, acreditamos que sua importância pode vir a crescer sobrepujando a do design organizacional na constituição da rede.

Vamos examinar estes diversos níveis em uma ordem diferente da apresentada pelos autores. Começaremos pelos níveis social e tecnológico por acreditarmos que eles dizem respeito à base material, humana ou técnica, da rede. Em seguida examinaremos o doutrinário que responde por seu modo de ação e o nível organizacional, que fala da forma da ordem da rede. Por último veremos o narrativo, que nos parece o mais importante, pois diz respeito à constituição e sustentação da existência da rede.

O nível tecnológico da análise se pergunta pelo padrão e capacidade dos fluxos de informação e comunicação da rede e pelas tecnologias de suporte deles. Pergunta o quão integrados eles estão com os níveis organizacionais, narrativos e doutrinários. Telefones celulares, máquinas de fax, correio eletrônico e toda parafernália high-tech das tecnologias de informação coexistem aqui com as diversas mídias e os velhos mensageiros e encontros face-a-face.

Já o nível social se pergunta o quão bem, e de que modos, os membros são pessoalmente conhecidos e conectados uns com os outros. É necessário saber o quanto a rede necessita de fortes vínculos pessoais familiares, de amizade ou de experiências unificadoras (escola, clubes, jogos, etc) para assegurar confiança e lealdade entre os membros. Para tanto, deve-se traçar os tipos de comunidades (de práticas, de ofícios, epistêmicas, clãs, etc) que integram a rede e seu sentido de identidade e lealdade pessoal para com ela.
 

Que doutrina existe para possibilitar a melhor forma de organização da rede?
 

O que capacita aos seus membros agirem estrategicamente e taticamente sem precisar necessariamente se reportar a um comando central ou a um líder. A partilha de princípios e práticas condutores aceitos profundamente pelos membros pode fazer deles "uma única mente", mesmo que estejam dispersos e dedicados a diferentes tarefas. Isto provê coerência central ideacional, estratégica e operativa que permite a descentralização tática.

Duas práticas doutrinárias são particularmente importantes em uma rede de guerra. A primeira é dar a ela um modo de funcionamento o mais "sem líder" possível, seja pela ausência de lideranças ou pela multiplicação das lideranças, construindo um processo de tomada de decisões através do uso de mecanismos de consulta e formação de consenso. A outra é o uso da infecção por afluência popular (swarming) de um alvo como modo de combate.

A infecção por afluência popular (swarming) é um modo estratégico — de aparência amorfa mas deliberadamente estruturado e coordenado — de golpear, vindo de todas as direções, um ponto particular ou vários pontos por meio de uma pulsação sustentável de força ou de fogo mantida a partir de uma posição de resistência próxima. Esta pulsação sustentável de força ou de fogo será literal no caso de ação policial ou militar, mas metafórica no caso da ação de ativistas ligados às ONGs.

Um exemplo do primeiro princípio é a doutrina da "resistência sem líder" elaborada pelo extremista de direita Louis Beam. Usando o conceito de Resistência Sem Líder a rede se organiza através de células fantasmas e da ação individual de seus membros como "homens do momento" (minutemen).

O "homem do momento" (minutemen) é uma figura que tem suas raízes na experiência da Sedição Americana e no uso das milícias como forma de luta contra a dominação imperialista inglesa. Ele é um indivíduo permanentemente pronto para entrar em ação quando o momento exigir, mas age cotidianamente como um homem normal desvinculado da luta política -, de modo que os grupos e indivíduos operam independentes uns dos outros sem nunca se remeter a um quartel central ou líder único.

A organização subterrânea da rede distingue quatro tipos diferentes de células codificadas e descentralizadas — células de comando, combate, apoio e comunicação — compostas por oito "homens do momento" e um líder cada uma.

Desde 1990 foram incluídos na doutrina a existência de "lobos solitários", que instigam atos violentos, como explodir alvos, fazendo parecer que são de sua própria iniciativa. Mas nas ONGs de ativistas da sociedade civil globalizada ambos os princípios serão manejados de modo mais flexível e bem elaborado.

Hoje, uma das mais sofisticadas doutrinas para a rede de guerra social vem da Rede de Ação Direta (Direct Action Network — DAN), que emergiu de uma coalizão de ativistas dedicados a usar ação direta não violenta e desobediência civil para paralisar o encontro da OMC (WTO) em Seattle. Sua abordagem da rede de guerra aproveita o essencial das idéias de infecção por afluência popular (swarming). Os participantes são convidados a se organizarem, a partir de sua própria escolha, em pequenos (5 a 20 pessoas) "grupos de afinidades" — "equipes auto-suficientes, pequenas e autônomas, de pessoas que partilham certos princípios, objetivos, interesses, planos ou outras similaridades que as tornem capazes de trabalhar junto bem".

Cada grupo decide por si quais ações seus membros vão responsabilizar-se, abrangendo do teatro de rua ao risco de ser preso. Onde os grupos operam em proximidade uns para com os outros, eles são além disso organizados em "células" — mas podem também existir "grupos flutuantes" que se movem de acordo com o lugar onde são necessários.

Diferentes pessoas em cada grupo assumem diferentes funções (por exemplo, ligação com a polícia), mas todo o esforço é feito para acentuar o fato de que nenhum grupo tem um líder único. Tudo isto é coordenado em um encontro de um conselho de porta-vozes para onde cada grupo envia um representante e as decisões são alcançadas através da consulta democrática e do consenso (em um outro tipo de abordagem que transforma o modo de organização em completamente "sem líder").
 

Em que extensão um ator ou grupo de atores está organizado como uma rede? O que faz a rede ter sua disposição?
 

Estas são as principais questões a serem respondidas na análise do nível organizacional. Como o design organizacional em uma rede de guerra diz respeito a formas híbridas o mais das vezes, os aspectos mais importantes a serem analisados são a variedade de "buracos estruturais" (Uma rede constitui um "buraco estrutural" ao conectar um ator involuntário em suas operações.

Um policial corrompido é uma "ponte" que constitui um "buraco estrutural" entre uma rede criminosa e a instituição policial) e "pontes" existentes (As "pontes" conectam uma rede a outra rede dando-lhes um funcionamento integrado ou mesmo fundindo-as em uma nova rede..), e se os "atalhos" ("Atalhos" possibilitam atores distantes se conectarem em apenas alguns saltos através de intermediários e são a base de uma "rede de mundo pequeno".) são utilizados de modo fácil e freqüente.

Nas organizações de negócios a constituição de grupos de disciplinas entrecruzadas tornou-se fundamental para ajustar a empresa ao meio, rompendo com distinções de hierarquia, equipe, linhagem e um sem número de outras.

As redes de guerra social desenvolvidas por ativistas de ONGs podem incluir instituições oficiais de governo em sua atuação, embora sua campanha não tenha nem escritórios centrais, nem burocracia, funcionando através da livre coordenação e da comunicação aberta entre seus diversos grupos a partir do objetivo comum. Esta flexibilidade e abertura serão impossíveis para as redes de guerra violentas, como as formadas por terroristas ou criminosos, que dependem da ocultação e do segredo em seu funcionamento. Elas precisarão misturar grupos de superfície difusos com grupos subterrâneos coesos para manter a integridade da cadeia de comandos, através da coordenação horizontal entre grupos semi-autônomos com a liderança disseminada entre eles.
 

Por que os membros assumiram e permanecem na rede?
 

Esta é a questão que orienta o nível narrativo. Narrativas ou histórias sempre foram muito importantes para manter as pessoas unidas em uma organização pois elas podem exprimir o sentido de identidade e pertencimento — elas são capazes de dizer quem somos, porque estamos juntos e o que nos faz diferentes dos outros. Elas podem igualmente comunicar um sentido de causa, propósito e missão, exprimindo objetivos, métodos e disposições culturais — o que acreditamos, o que queremos fazer e como.

A história certa pode manter as pessoas conectadas à rede que por sua flutuação não consegue antecipar a defecção. Pode, também, gerar pontes entre diferentes redes e a percepção de que o movimento tem um momento vitorioso. "A rede mais forte será aquela na qual o design organizacional é sustentado por uma história vitoriosa e uma doutrina bem definida, e na qual tudo isto está de antemão reproduzindo-se como brotos em uma superfície."

Das diferentes formas híbridas de rede que se pode compor — as de topologia em grade ou reticulado, as de centro/periferia, as de turminha, as de "mundo pequeno", as esparramadas ou de teia de aranha, as policêntricas segmentadas (SPIN) — Arquilla e Ronfeldt vão sublinhar duas que prevalecem em dois tipos diferentes de redes de guerra. A primeira é a rede policêntrica segmentada que o sociólogo Luther Gerlach identificou ao estudar os movimentos sociais dos anos 60 nos Estados Unidos, batizando-a com a sigla SPIN — que significa retorcer ou revolver.

Por segmentada quero dizer que ela é celular, composta de muitos grupos diferentes... . Por policêntrica quero dizer que ela tem muitos diferentes líderes ou centros de direção... . Por tendo forma de rede quero dizer que os segmentos e os líderes são integrados em um reticulado de sistemas ou redes através de vários vínculos estruturais, pessoais e ideológicos. Redes normalmente são ilimitadas e expansivas... . Este acrônimo [SPIN] nos ajuda a figurar esta organização como sendo uma fluida, dinâmica, expansiva espiral giratória dentro da sociedade corrente.

Arquilla e Ronfeldt consideram esta forma topológica de rede paradigmática para o design das redes de guerra, tendo uma grande relevância para o entendimento de sua teoria e prática. Além de caracterizar as redes de vários movimentos ambientalistas e sociais desde os anos 60, caracterizaria também atualmente as redes terroristas, criminosas, etnonacionalistas e fundamentalistas em todo mundo.

A outra deriva de um dos padrões ordenados descobertos por teóricos da complexidade na área das ciências exatas e sociais interessados em discernir os princípios comuns que explicam "a arquitetura da complexidade" através dos sistemas naturais e humanos; padrões presentes na estrutura e na dinâmica dos sistemas biológicos, ecológicos e sociais onde as redes são o princípio de organização.

Este padrão se assemelha a uma rede teia de aranha com multi-eixos bem estruturados; ou um grupo de redes centro/periferia interconectados. Sua topologia se caracteriza por um pequeno número de nós fortemente interconectados que agem como eixos (hubs), aos quais se conectam um grande número de nós de fraca conexão, mesmo que partilhando uma ligação "todos os canais".

Socialmente este tipo de padrão se caracteriza por um ou mais atores operando como eixos chaves, em torno dos quais estão ordenados um grande número de atores ligados aos eixos, mas menos ligados uns com os outros, mesmo que as informações estejam disponíveis e partilhadas no modo "todos os canais" para todos os atores. Este padrão é muito resistente aos choques sistêmicos, a menos que algum eixo chave seja rompido ou destruído. Ele caracterizaria a rede de guerra do Movimento Zapatista ou da Batalha de Seattle.

Em uma rede de guerra arquetípica, as unidades provavelmente se parecem com um arranjo disperso de nós interconectados, agrupados para agir como uma rede "todos-canais". Casos recentes de rede de guerra social de ONGs ativistas contra o Estado e atores das corporações — por exemplo, a série de campanhas ativistas contra o globalismo conhecidas como J18, N30, A16, etc. — mostra os ativistas formados em um design multi-eixo, aberto e "todos- canais", cuja força depende do livre fluxo de discussão e da partilha de informação.

No exame dos dois tipos de modelo dominante das redes de guerra o nível narrativo reaparece em sua faceta constituinte, por influenciar diretamente o problema da liderança tanto no que diz respeito à organização, quanto o que diz respeito à doutrina nas redes em geral e nas redes de guerra.

Na rede de guerra a liderança permanece importante mesmo que os protagonistas façam todo o esforço para terem um design "sem líder". Um modo de conseguir isso é ter muitos líderes disseminados através da rede que procura funcionar por coordenação, sem controle central ou uma hierarquia.

Isto pode criar problemas de coordenação — uma típica fraqueza do design das redes — mas, como foi freqüentemente notado, isso pode, também, evitar a eleição de um alvo pela contra-liderança. Talvez o ponto mais significante e menos notado seja que o tipo de líder que pode ser mais importante para o desenvolvimento e conduta de uma rede de guerra não é o "grande homem" ou o líder administrativo que as pessoas estão acostumadas a ver, mas de preferência o líder doutrinário — o indivíduo ou grupos de indivíduos que, longe de agir como um comandante, está encarregado de dispor o fluxo de comunicações, a "história" exprimindo a rede de guerra, e a doutrina guiando sua estratégia e táticas.

Embora nesta conceituação da relação entre narrativa e liderança Arquilla e Ronfeldt já apontem o aspecto mais relevante — o lugar central que a narrativa ocupa na organização e doutrina da rede — parecem ainda presos ao velho problema da autoria na narrativa. Se esta descrição se encaixa perfeitamente em redes de guerra fundamentalistas, etnonacionalistas ou criminosas, o mesmo não se pode dizer dela quando se trata da rede de guerra do Movimento Zapatista ou a da Batalha de Seattle.

Nestas redes a narrativa é indissociável, como veremos, das conversações recorrentes que geram a montagem e o desenvolvimento da rede, e dos testemunhos que acompanham o desenrolar de seus acontecimentos.

Dito de outra maneira, se a forma da narrativa mítica parece ainda apropriada para caracterizar a coesão de uma rede como, por exemplo, a de Bin Laden, ela é completamente inapropriada para, por exemplo, a rede Zapatista e inconcebível para a rede de guerra social de ONGs ativistas, grupos anarquistas, grupos hackers, movimento estudantil e movimento ciberpunk contra o Estado e atores das corporações que emergiu na Batalha de Seattle.

Nas duas últimas redes a narrativa mais se assemelha ao roteiro de um filme experimental, que vai sendo escrito, não só pelo diretor mas pelos atores e equipe, conforme a filmagem se desenrola.
 

Micropolítica da Multidão
 

Examinemos, para uma diferenciação mais acurada, as análises convergentes do Departamento de Defesa norte-americano, através de Arquilla e Ronfeldt (2001, 2001 editores,1997, 1996), e do economista, e ativista do movimento Zapatista, Harry Cleaver (1999, 1998, 1995,1994) sobre o zapatismo.

Eles mostram de modo inequívoco como diferentes movimentos — o do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), o das comunidades indígenas de Chiapas e o de diversas Organizações Não-Governamentais (ONGs) mexicanas e internacionais — reuniram-se para montar a rede de guerra Zapatista.

O movimento EZLN, quando emergiu com seu manifesto contra o NAFTA, era um grupo formado por pessoas oriundas da classe média educada mexicana, com pouca ou nenhuma ascendência indígena. Seu objetivo era criar um exército de guerrilha, infiltrando-se na região de Chiapas — rica em urânio, madeira e petróleo — onde viviam diversas comunidades indígenas. Eles pretendiam sustentar uma estratégia bem tradicional de luta armada, conhecida no meio militar como "guerra da pulga", consistindo em manter a iniciativa através de ataques surpresa em pequenas unidades.

Em meio a desastrosos resultados militares, surgidos de problemas organizacionais e táticos durante as primeiras semanas de luta (que quase levaram o EZLN à extinção), eles buscavam o apoio das ONGs e outros membros da sociedade civil global e o apoio das comunidades indígenas. Os ativistas das ONGs, por seu lado, estavam interessadas em estimular uma forma de democracia no México na qual os atores da sociedade civil fossem fortes o bastante para contrabalançar o poder dos atores do estado e do mercado, ganhando um lugar de destaque nas tomadas de decisão da política pública que afetassem a sociedade civil. Seus ativistas, porém, não estavam nem um pouco interessados em conquistar o governo e tampouco queriam ajudar que algum grupo viesse a conquistá-lo.

Como resultado destas conversações o EZLN abandonou a conquista do governo mexicano como o principal objetivo de sua luta, retirando-o de seu discurso. Nele, a partir de então, os direitos das populações indígenas, o reconhecimento da participação da mulher e dos seus direitos na sociedade, a proteção ambiental, a luta pelos direitos humanos e pelos direitos dos trabalhadores subiram para o primeiro plano.

Encorajados a vir para o México por Marcos e outros membros do EZLN, as ONGs já contatadas convidaram outras ONGs a se juntar a sua mobilização gerando um efeito em cadeia de grandes proporções. Um dinâmico movimento de afluência da multidão cresceu pondo o governo mexicano e seu exército na defensiva paralisando sua investida militar.

Uma coalizão de ONGs — misturando ONGs temáticas (direitos humanos, direitos indígenas, proteção do meio ambiente, etc) locais e globais com a APC (uma ONG que provê infra estrutura e meios técnicos para a construção de redes comunicacionais eletrônicas) — formou-se e 4 congressos foram realizados em Chiapas, reunindo-as com o EZLN e as comunidades indígenas, fazendo emergir uma agenda comum de reivindicações e ações. O que havia começado como uma tradicional insurgência guerrilheira havia se transformado em uma rede de guerra social pertencente a era da informação.

O processo de construção da aliança criou uma nova forma de organização — uma multiplicidade de grupos autônomos rizomaticamente conectados —, conectando várias espécies de lutas, através da América do Norte, que estavam anteriormente desconectadas e separadas.

Tanto Arquilla e Ronfeldt, quanto Cleaver, querem ver no EZLN o principal ator da coalizão e apontam Marcos como um excelente porta-voz do Movimento Zapatista mais do que um líder. Para o pensamento do Departamento de Defesa norte-americano, Marcos faria parte de uma sofisticada tentativa do EZLN de quebrar seu isolamento político, permitindo-lhe combinar as suas pequenas unidades de ataque com as mobilizações nacionais e os apelos internacionais. Entretanto o EZLN não tem seus próprios laptops, conexão com a Internet, máquinas de fax e telefones celulares que estão com as ONGs mexicanas e internacionais.

Mas Cleaver mostra como o apoio e a divulgação do Movimento Zapatista se estruturou em torno de uma rede de trabalho voluntário ativista coordenada através da Internet de forma descentralizada composta por digitadores, tradutores, webdesigners, escritores, organizadores de listas de discussão e administradores de sítio.

Stefan Wray, por sua vez, expõe como os hackers, depois do massacre de índios em Chiapas em fins de 1997, conceberam um modo de fazer da Internet um lugar para a ação direta não-violenta e a desobediência civil inventando o bloqueio virtual e o sit in virtual.

Em 1998 o grupo Teatro Eletrônico de Distúrbios (Electronic Disturbance Theatre - EDT) cria o inundanet (floodnet) — uma aplicação em Java para os navegadores (browsers) que repetidamente envia pedidos de recarregar para um sítio da Internet — concebido como um modo de convocar uma manifestação virtual onde uma multidão podia tentar paralisar ou derrubar um alvo usando esta aplicação (o projeto chamava-se significativamente SWARM, que significa enxame).

O software foi chamado de Zapatista inundanet (floodnet) e inaugurou o casamento dos hackers com o ativismo político, mais tarde chamado de hacktivismo.
 

A Multidão Armada
 

Tudo isto reforça a constatação da profunda mudança introduzida nas relações sociais e na base organizacional das comunidades através do acesso do indivíduo comum às tecnologias informacionais da comunicação (TIC) e comunicações mediadas por computador (CMC). Mostra, também, que o EZLN é diferente do movimento Zapatista, além de mostrar o desenvolvimento do movimento como uma poderosa convergência de diferentes redes (ONGs, indígenas, guerrilheiros, hackers, estudantes, intelectuais, etc) construindo uma comunidade que partilha uma agenda comum de reivindicações e ação e experimenta em sua própria construção modos democráticos de produção e tomada de decisão.

Se olharmos para este movimento na perspectiva da luta política, ele se revela muito mais forte e adequado para conduzir uma guerra assimétrica contra o estado e as empresas porque estes últimos ainda estão embaraçados com o modo de organizar e institucionalizar suas relações através das hierarquias e mercados.

Analisada na perspectiva da construção social, a comunidade virtual do movimento Zapatista é uma comunidade real montada na esfera pública global do ciberespaço, capaz de construir a participação atual em ações comuns na vida de seus participantes e na vida cívica da sociedade civil mundial — o que afasta as objeções de Fernback e Thompson quanto a realidade das comunidades virtuais.

Na perspectiva do capital social e do engajamento cívico — objeções de Putnam — ela nada deixa a desejar enquanto comunidade através das manifestações que promove pelo mundo, os congressos e encontros realizados em Chiapas e a marcha para a capital do México integrando grande parte de seus membros em uma caminhada cívica ao longo da região de Chiapas.

Mas o mais importante dado é o fato da dicotomia Jihad/Macmundo desaparecer no interior da organização e prática da comunidade virtual do Movimento Zapatista. A experiência desta comunidade não é a de um mundo destroçado, ameaçado de dissolução pelo totalitarismo homogeneizante ou tribalismo desagregador.

A globalização transformou a informação em uma arma e o estado, global ou local, está sempre envolto, pós-modernamente, nas guerras de informação.

A ciberguerra, teorizada pela RAND logo após a Guerra do Golfo, revela a emergência de uma guerra imanente e absoluta, coextensiva à existência do Império com suas armas espaciais e tecnologias de destruição em massa. A guerra tornou-se algo tão ordinário na esfera imperial que as forças armadas dos EUA reduziram as tropas do exército, de 790 mil para 480 mil homens nos últimos dez anos, ao mesmo tempo em que empresas privadas passaram a vender operações de guerra — ciberguerra, guerra em rede, infoguerra — para os estados e as corporações.

O vasto material, produzido nos últimos 10 anos pelas pesquisas da RAND e demais intelectuais ligados ao Departamento de Defesa norte-americano, não deixam margem para dúvidas: vivemos em guerra permanente — mesmo os negócios tornaram-se operações especializadas de guerra — e as armas usadas a maior parte do tempo são as notícias que os jornais, rádios, televisões e revistas despejam sobre as populações em seu bombardeio incessante e a capacidade de comunicação, controle e comando do ciberespaço.

O movimento Zapatista percebeu com clareza a atual condição quando anunciou aos quatro ventos que a quarta guerra mundial havia começado. A suprema ironia é que parte dos inimigos atuais do império — fundamentalistas, traficantes e etnonacionalistas — são os antigos aliados da guerra-fria, armados e enriquecidos pela luta anti-comunista através das operações encobertas do Departamento de Defesa norte-americano.

Mas através das comunidades virtuais do ciberespaço a multidão está armada e as redes, que sempre construiu para lutar contra o poder político burguês, tornaram-se poderosas redes de guerra, paralisando o uso das armas de aniquilação do poder global e rompendo com sua cadeia de medo orquestrada pela mídia oficial usando da contra-informação.

A comunidade virtual é uma rede de guerra lutando contra os Estados global e locais, mas seu combate se desenvolve através de sua própria construção como um modo surpreendente de inventar valores e práticas democráticas no seu interior, utilizando as tecnologias informacionais de comunicação (TIC) e a comunicação mediada por computador (CMC).

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Resistência sem líder

 

 Observações de Noam Chomsky

 

É possível que todas as pessoas que cometeram os crimes do dia 11 tenham se matado. Ninguém sabe disso melhor do que a CIA.

Essas redes são descentralizadas, não-hierárquicas. Seguem um princípio chamado “resistência sem líderes”. É o mesmo princípio elaborado pelos terroristas da direita cristã nos Estados Unidos. Resistência sem líderes. Montam-se pequenos grupos para agir. Esses grupos não se comunicam nem entre si nem com ninguém. Têm em comum apenas um conjunto geral de pressupostos e então simplesmente par tem para a ação. Na verdade, pessoas envolvidas com movimentos pacifistas conhecem bem o esquema. Nós o chamávamos “grupos de afinidade”. Parte-se do princípio de que um grupo oficial a que se pertença será sempre infiltrado pelo FBI se algo sério acontecer. Por isso, nada será feito ou decidido em reuniões.

Reúnem-se algumas pessoas conhecidas e confiáveis, e monta-se um grupo de afinidade, que é impossível de ser infiltrado. Este é um dos motivos pelos quais o FBI nunca conseguiu descobrir o que acontece nos movimentos populares. Com os outros órgãos de inteligência acontece a mesma coisa: eles não conseguem penetrar os grupos de afinidade, os grupos de resistência sem líderes.

É praticamente impossível penetrar uma rede descentralizada. Portanto, é bem possível que eles simplesmente não saibam. Quando Osama bin Laden afirma que não esteve envolvido, é perfeitamente possível.

Na verdade, o difícil é imaginar como alguém morando numa caverna do Afeganistão, sem dispor sequer de um rádio ou telefone, poderia ter planejado uma operação tão sofisticada. Tudo indica que ela nasceu desse conjunto geral de pressupostos em comum com outros grupos terroristas de resistência sem líderes. E isso significa que será extremamente difícil achar alguma prova.