Poemas irracionais

Estes poemas foram escritos entre 1996 e 2000. Época na qual eu era graduando de Física Computacional na USP de São Carlos. Nesta época eu vivia uma fase de amores, paixão e pessimismo intenso.

Poderia correr, fugir, esconder
Poderia acovardar culpando o impossível.
Mas preferi ficar.
Ficar em companhia das estrelas,
conversar com a lua nas noites claras,
tocar a noite sem medo da escuridão.

Poderia desistir, ignorar, esquecer.
Poderia dissimular e me convencer
de que não vivi.
Mas preferi enfrentar.
Enfrentar e ser derrotado,
exceder-se em muito lutar,
vencido até a morte,
vencido, mas como herói.

Tudo poderia ser diferente,
se houvesse vestido a
carapuça da covardia.
Se houvesse acreditado
na imutabilidade das coisas.

Mas certos homens não nascem
para a resignação.
Mesmo que o mundo insista em dizer:
“Pobre diabo, enlouqueceu.”

Veja este poema
 

Perceba como ele parece cansado,
exausto da própria existência.
Perdeu todas as sua forças.
Perdeu a sua ingenuidade, a sua inocência.
Perdeu a pureza dos primeiros anos.
Da vivacidade que tinha nada ficou.
E dizer do poema que nasceu,
estais preste a morrer.
Assim triste, melancólico.
Chegaste ao seu fim decretado.
Pobre poema que amou,
que pagou o preço por muito amar.
Morre sozinho, sem compaixão,
sem piedade.
Descansa a paz pobre cafajeste.
Pobre poema escrito na lápide
da suprema verdade.

Pátria amada

Tu és vil, tu me maltratas.
És mesquinha e me derrubas.
Não perdoas e me humilha.
Não é misericordiosa e me destrói.

Tu me subestima a cada instante.
Frustras todos os meus sonhos
e me rebaixas.
Mas mesmo assim me acolhe
em teus seios.
Tu me ofereces o que possui
de melhor.

Muitos foram os que venderam
tuas riquezas.
Trocaram suas maravilhas por
bugigangas.
Doaram o teu sangue a outros povos.
Os teus cérebros venderam ao mundo.

Desencontros

Quantos rostos desesperados que
imploram por um beijo.
Quantos lábios molhados que
buscam um rosto para saudar.
Quantos olhares intensos
que buscam outros olhos.
Quantos olhos tristes que
chamam por um olhar.
Quantas mãos almejam por
tocarem suavemente.
Quantos corpos sonham serem
tocados levemente.
Quantos corações que buscam
um amor profundo e real.
Quantos outros corações transbordam
de amor e de paixão.
Mas os rostos desesperados jamais
encontram os lábios molhados.
Os olhares intensos não veêm
os olhos tristes.
As mãos que querem tocar não
Encontram os corpos que
esperam por um toque.
Os corações que clamam por
migalhas de amor não
alcançam os que tem amor
em excesso.
Porque a vida é uma derrota
e o homem é um ser desgraçado
por definição.

Veja a verdade

Veja a verdade das coisas:
a felicidade dura pouco;
a vida é trágica e infeliz.
De cada momento só
prevalece o sofrer.
Só existe a desgraça de
um instante.

Olhe para as belas crianças.
Estão condenadas a
serem velhas e a morrer.
Viveram alguns momentos
felizes.
E o resto da vida a sofrer.
Foram condenadas a
decadência ao nascer.

Não inveje os jovens que amam.
Mas ao olhar para eles
derrube prantos.
Não acredite em final feliz.
Ele não existe.
A vida é trágica.
Mais trágico ainda é o amor.
Lembre-se sempre:
“O filme da vida não termina
onde Hollywood acaba os deles.”
Veja a desgraça que vem depois.

Todo amor termina em solidão.
Toda a vida acaba na morte.
O homem nasceu para se afundar
em desgraça, em solidão,
em esquecimento.
Mais desgraçado ainda é
quem tenta fugir da maldição.

Veja a verdade das coisas.
A vida é trágica.
A felicidade dura pouco
E o homem é um ser desgraçado
por definição;
um ser maldito,
condenado a vida.

Aos intelectuais

Aos intelectuais: saudações.
Saudamos aos que pensaram,
aos que agiram, aos que mudaram.
Mudaram não a si mesmo,
mas ao mundo.
Homens ditos loucos a seu tempo.
Incompreendidos e ameaçados.
Homens que tinham um ideal.

Um ideal que era apenas de um.
Surgido na mente de um único.
Um ideal de verdade.
A verdade se universalizou.
E com levou o homem.
Mas antes da vitória
houve excesso de pranto.
Por ele o intelectual sofreu,
sorriu, amou, viveu, morreu.

Saudamos aos grandes
que tinham uma ideologia,
que tinham concepções exclusivas.
Homens que fizeram a revolução.
Saudamos aos intelectuais que vieram.
Saudamos aos outros que virão.
Aos que fizeram e aconteceram.

Paga-se

Paga-se cada sorriso do rosto com lágrimas.
Pingos de lágrimas que caem ao chão,
sem dó, sem passado, sem sentido.
Caem apenas como preço.
O preço de haver dado o sorriso.

Paga-se cada momento feliz com tristeza.
Pujantes tristezas que emanam da alma,
sem causa, sem provocação, sem um porquê.
É apenas o preço das coisas.
O preço de um momento feliz.

Paga-se o amor com a eterna solidão.
Perpétua solidão de um coração amante.
Sem retorno, sem motivo de separação,
sem o querer dos amantes.
Solidão é o preço do amor.
Se não separados em vida,
a morte os tornará só.

Paga-se a vida com a morte.
Perspicaz fim de quem muito viveu.
Sem pavor, sem pensar, sem ser passivo.
É apenas o preço das coisas.
A paga para quem ousou viver.

Paga-se o preço o seu próprio preço.
Peleja acirrada travada a risca,
sem piedade, sem hesitação, sem injustiças.
É apenas o preço do preço.
A paga por existir.
 

E agora rainha

E agora rainha o que você faz?
Tiraram tuas servas e escravos,
teus vestidos de pérolas e seda,
tua coroa de ouro e diamante.
A beleza fingida do olho de vidro
se desfaz.

E agora rainha como vai?
Derrubaram a tua liteira,
ousaram tocar tua carne,
não mais te obedeceram,
perdeste a proteção do teu pai.

E agora rainha o que sobrou?
Agora que viste que deusa não era,
quem te subiu também derrubou.
Agora que sabes que pode morrer,
que pode sofrer, como qualquer cão.
Vai ter que pegar no batente e
atrofiar estas belas mãos.

E agora rainha que a festa acabou?
Ficaste sozinha a dançar no salão.
Não tem mais amigos.
Não tem mais família.
Só tem a mim seu amante fiel,
seu guardião.

Construí um sonho


Construí um sonho de
liberdade aprisionada,
de ser feliz sem a felicidade,
de buscar a razão sem conhecer nada.

Construí um sonho de
compreender o incompreensível.
De ser famoso sem ser conhecido,
de ter tudo e não possuir nada.

Construí um sonho de
democracia sem democratas.
De buscar a justiça sem a lei.
De alcançar a igualdade sem fazer nada.

Construí um sonho de
união sem lideranças.
De fraternidade sem falsidade.
De paz duradoura ,
de revolução ideológica.

Construí um sonho de
utopia generalizada.
De loucura dissimulada
pelas letras de um poema.
 

Uma mulher especial


Foste a mulher especial,
a amada mais doce dos sonhos
de um poeta.
Foste amada sem nenhum medo,
perante o mundo,
diante de todos.
Mas a tudo houve indiferença.
O poeta que queria apenas amar
chamaram-no inimigo,
louco, antiquado e perigoso.
Indivíduo com o qual não se deve assentar a mesa,
nem cruzar na rua,
nem apertar as mãos,
nem trocar olhares.
Foste a criação que se voltou contra o criador.
Voltaste contra a mão que te alimentaste.
Voltaste contra a mão que sofre uma dor
de paixão dilacerante,
de amor que transborda,
de desejo que queima;de ingratidão.
Da indiferença ao desprezo um pequeno passo.
e trilhaste-o bem.
E de todas as nulidades do teu olhar,
faz me sentir enfado de tudo,
querer por fim a essa dor.
Não te alimentarei mais.
Buscarei nova deusa, nova musa.
Que não corresponda mas também
não despreze.

Versos na areia

Cada verso que escrevo
retiro da rocha da praia
do meu coração.
Nesta rocha tu escreveste,
minha musa,
a moldaste com tuas mãos.

Para o papel transcrevo os versos
da minha rocha.
Almejo passá-los do papel para
a rocha do teu coração.
Mas na tua rocha alguém
já escreveu.
resta-me apenas a areia,
as areias do teu coração.

Escrevo nelas meus versos.
Com capricho, unicidade,
devoção.
mas ao entardecer o mar ciumento,
sem piedade, invade a praia.
A rocha permanece inabalável.
Mas da areia, meus poemas vencidos
e angustiados desaparecem
nas ondas do teu coração.

Mal recuou a maré,
com novos versos piso as areias,
rumando para a rocha.
Solitário, com os pés descalços,
escrevo nas areias do teu coração.

Estou a porta

Eis que estou a porta do teu coração.
Estou a porta do teu coração e bato.
Incessantemente estou a bater na
porta do teu coração.
Ouça as batidas na porta.
Ouça a voz que brada pelo teu nome.
Não retenhas fora de ti
este que insistentemente te chama.
Não o deixe ao frio da noite.
Não o abandones na solidão silenciosa.
Não o condenes a vida sem vida.

Eis que me retiro da porta do teu coração.
Devagar, cabisbaixo, mais uma vez vencido
me afasto da porta do teu coração.
Num último átimo de esperança olho para trás,
como se de repente você abrisse e chamasse.
Mas é apenas a esperança que me faz sonhar.
Eis que deixei a porta do teu coração.
Sem nenhuma esperança.

Uma ode ao ódio


Cuidado, o diabo se esconde nos detalhes,
nas coisas mais angelicais, no amor.

A alma humana tem duas faces,
uma de amor e outra de ódio.
O homem só é feliz quando não ama.
A única verdade que há nas coisas
é o desprezo que se tem por elas.
No ódio não há dor, não há sofrimento.
Não depende de dois, mas de apenas um.
O homem se deleita no sofrimento do próximo.
O homem despreza seu semelhante.
Não há amor.
Não há paixão e nem desejo.
Tudo tem um preço.
Tudo é efêmero, é desgraça, é mentira.
De graça só vem o ódio.
A alma humana esta cheia de si.
Do inicio não sobrou nem o amor,
nem felicidade, nem paixão.
A ingratidão, o desprezo e
o fingimento me convenceram.
Salve o ódio de todas as nações.
Que o homem cultive apenas
a realidade de odiar;
saiba que nas formas mais belas,
moram os conteúdos mais terríveis.
Todo homem é um demônio camuflado.
E o diabo alcançou sua grande vitória
quando convenceu o mundo de que
ele, o diabo, não existia.
Mas mais sábio fui eu que o
percebi nos detalhes deste poema.

No futuro


E eu estarei no camarote
para assistir a tua derrocada.
E quando você cair,
eu rirei e direi a todos que se ajuntam:
“Vejam aquela,
eu a amei por toda a vida,
dediquei-a ela cem poemas de amor,
noites inteiras de sonhos.
O que tinha de melhor a ofereci.
E ela soube apenas cuspir no meu rosto,
arrancar meu coração e lançar aos cães,
desprezar tudo o que fiz.
Ousou dizer que os meus deuses não existiam,
que os meus ideais eram tolos,
que as minhas verdades eram mentiras,
que o meu viver era em vão.
E desde então a segui nas sombras.
Segui-a para ver este dia.
Para vê-la pendurada a cruz e
para que eu, e somente eu,
lhe desse fel para beber;
para dar lhe minha mão,
levantá-la do chão, olhar nos seus olhos
e gritar nos seus ouvidos:
“Eu te amei,”
e empurrá-la de volta ao chão
de onde não deveria ter saído;
para amedrontá-la com meus rituais;
para apavorá-la com minhas concepções;
para humilhá-la com os meus dogmas.
E não será o seu silêncio
que fechará a minha boca.”
A vida humana não é nada mais
que um divertimento da loucura.
Tudo esta cheio de insânia.
O homem se transforma naquilo
que vive.

 

Decepção

Progredir no amor é progredir na dor.
Onde existe muito sentimento,
aí há muita decepção.

Em cada olhar só existe o desprezo.
Em cada sorriso só há falsidade.
Em cada rosto só há mentira.
Em todas as mãos existem pedras.
Em todas as vozes, maledicências.
Em todos os corpos existem ódio.

O mais precioso movimento
é o mais frio.
O beijo mais quente
é o mais forjado.
A frescura de uma face
esconde o veneno dos dentes.
A suavidade de uma voz
dissimula a traição.
A maciez de uma carne
oculta a morte.

Apenas percebo
que manifesto um profundo desprezo,
não sei se pela ingratidão
ou pelo fingimento dos mortais.
Sei apenas que desprezo.
 

Fugiste de mim


Quis apenas te amar.
Mas escondeste de mim o teu rosto
e fugiste na minha angústia.
me abandonaste ao frio da noite.
Deixaste-me na floresta sem proteção.
Roubaste a minha mente, o meu ser.
Condenaste-me ao degredo do seu amor,
a perdição no inferno.
Viste-me pendurado pela garganta,
com as mãos atadas,
com os olhos vendados.
Viste-me numa forca,
sem nenhum auxílio, sem nenhum sustento,
sem nenhum remédio, a girar no vazio...
E não fizeste nada.
Assististe-me cair,
cair pelo teu amor numa imensa ruína.
E não ousou levantar a tua voz.
Mas como o último arder submisso
de um fogo que tarda em se extinguir,
eu me levantei.
Quando só havia cinzas,
quando a chama já estava morta,
eu ressurgi.
Mas ainda tenho a ferida aberta
pela espada do teu amor.
Nada em minha vida foi mais doce
e mais terrível.
Mesmo assim eu sobrevivi.

Um dia

E um dia serás seqüestrada
pela desgraça, pelo sofrimento,
pela traição, pelo desprezo, pela dor.
E ficarás sozinha na solidão do cativeiro,
acorrentada pelo silêncio,
encoberta pelo esquecimento.
E ninguém mais saberá de ti.
Teu marido fugirá com outra,
teu filhos estarão em festa.
E a desgraça ligará a mim
exigindo um centavo pelo teu resgate.
E eu hesitarei.
Lembrarei do brilho do teu olhar,
do sorriso doce da tua face,
do teu rosto angelical,
do teu corpo tentador.
E uma voz dirá a meu ouvido:
“O brilho daqueles olhos te desprezou,
aquele sorriso doce ocultava a falsidade,
aquele rosto angelical nunca aceitou o teu beijo,
aquele corpo tentador se deitou com todos,
menos contigo.”
E então eu chorarei desesperado e de raiva.
Amaldiçoarei o destino,
culparei os deuses e o mundo.
E acharei um centavo caro demais.
E pedirei a desgraça que a leve consigo
para as profundezas.
Pedirei a dor para que jamais te abandone.
Pedirei a traição para que te acompanhe todos
os dias de tua vida.
E gritarei aos quatro ventos o teu nome.
E tomarei uma corda e
me enforcarei de remorso.
Porque apesar de tudo eu sempre te amei
e o amor nunca morre.


Quixote


E ecoou nos ouvidos aquele nome.
Um nome em grito.
Um toque para acordar.
Tirou o entrave dos olhos.
Limpou a mente para pensar.
Mostrou que o teu sorriso não era
um sim para te amar.
Que o teu olhar brilhante não era
um sim para uma paixão.
Que os teus gestos graciosos não era
um sim para te desejar.
Mostrou que havia amor
por quem era incapaz de amar.
Que havia muita paixão
por quem nunca quis se apaixonar.
Que havia excesso de desejos
por quem não sabe o que é desejar.
E houve sensibilidade
em quem não queria sentir.
Muitos olhares intensos
por quem nunca quis enxergar.
Um voz que clamava demente
por quem nunca quis ouvir.
Um sofrer quase eterno
de quem nunca ousou fingir.
Deixou claro que no rio onde
alimentava os peixes
não havia peixes.
E não soube perdoar
a quem só soube ofender.
Não ousou perguntar
a quem não iria responder.
Mas dissimulou
para quem não quis enfrentar.
Escreveu
para quem nunca quis ler.
No caminho ouviu um grito:
“Quixooooteee. Onde vais Quixote.”
Um grito que fez acordar.