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Poemas Pessimistas |
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Estes poemas foram escritos entre 1996 e 2000. Época na qual eu era graduando de Física Computacional na USP de São Carlos. Nesta época eu vivia uma fase de amores, paixão e pessimismo intenso.
Há uma voz.
Há uma voz que clama no deserto.
Há um clamor que chega a ti.
Não escondas de mim o teu rosto
no dia da minha angústia.
Inclina para mim os teus ouvidos.
Ouve-me depressa.
Porque os meus dias se consomem
como o fumo no cigarro,
e os meus sentimentos ardem como
a lenha na fogueira.
O meu coração está ferido e seco
como a relva após a geada.
Tornei-me semelhante a um pelicano
no deserto,
um pardal solitário no telhado,
um urso nas solidões geladas
e não canso de te esperar.
Ouça-me depressa pois os meus dias
são como a sombra que declina,
e como a erva me vou secando.
Ouça essa voz que clama pelo teu amor,
que implora por migalhas de ti.
Caminho solitário
Vago desatinado pela vida,
vivendo entre contínuos suspiros
e entre os furores de uma paixão exaltada.
Caminho seduzido e fascinado por teus encantos.
Sinto-me a cada instante enlouquecer aos poucos
e com mais intensidade te amo a cada momento.
Corre-me pelas veias o fogo do desejo
e em chamas está o meu coração.
Busco-te com toques suaves
e no escuro da noite sinto o teu beijo.
Mas, então, o próprio fogo que me
consome desfaz o encanto,
e torno ao meu juízo.
Deleito-me em minhas esperanças
e num fio de voz te juro amor eterno.
Percebo, então, que nem
sei sentir o que sinto;
que a única verdade que
possuo é o que desconheço.
Renuncio a razão e passo a acreditar
que vivo apenas para te adorar.
Poema
sem título
Fiz-me de sonhos tolos,
por migalhas caídas sofri.
Chorei pelos pingos de chuva.
Por folhas ao vento lutei.
Criei musas que não resplandeceram.
Amei-as na total solidão.
Apaixonei-me por estátuas de pedra,
por mulheres sem nenhuma percepção.
Mulheres que pareciam perfeitas.
Mas perfeitas não eram, jamais o serão.
Perdi-me por sonhos tolos,
Desfaleci-me por nada.
Desejei mulheres sem ideais,
que não viam um horizonte,
que não adoravam a um deus.
Amei-as intensamente
e por amá-las tornei-me
estrangeiro em minha terra
e palhaço em minha casa.
Quase me perdi por completo,
por tão pouco, por nada.
Renuncio a esses amores.
Sobreviver
O que pode o homem, senão sobreviver?
Num mundo individualista.
Onde todos olham em muitas direções.
O que pode o ser, senão sobreviver?
Num país de contraste.
Poucos tem tudo.
Muitos tem nada.
Não há democracia na distribuição.
Só há democracia na arrecadação.
O que pode o ser, senão sobreviver?
Num Estado caótico.
Caótico na habitação,
no cuidado às crianças,
no controle da prole da população.
Mais bocas para comer,
mais livros para estuda.
Mais gente, mais desempregados,
mais favelas, mais violências,
mais fim.
O que pode o homem num Estado assim?
Sobreviver cada vez mais difícil.
Sobreviver para garantir a subvida.
Entendeu errado
E foi concebido no dia errado.
E nasceu e cresceu
e viveu de maneira errada.
Errado era o fardo que levava.
E andou por caminhos errados.
E amou a mulheres erradas.
Errado tornou-se a sua vida,
a noite, o dia, as pedras, as flores.
Não via graça ao viver.
E acreditou que o mundo era errado.
Mas errados todos a seu lado estavam
e se convenceu de que deus era contra ele.
Entendeu o assunto de maneira errada,
conclui que ele era o mal,
que os homens eram bons.
E caminhou para o suicídio.
Amarrou a corda de maneira errada,
fechou os olhos e pulou.
Ele era o mal, o cão em pessoa,
nem deus era por ele,
não amava a ninguém.
A corda o matou.
A
fuga
Então fugirás para as montanhas
em busca de paz.
Lá a vida é mais fácil,
não existe amor, não existe dor.
Lá a lua é maior, o céu é mais límpido,
o horizonte é mais distante.
Lá serás feliz.
Covarde que foge da vida,
na luta fracassa e perde.
Mais fácil é fugir a enfrentar,
dissimular a mostrar,
parecer a ser.
A ti, covarde que foge,
há as montanhas para refúgio.
Há o inferno para descanso.
Então fugirás para o mar
em busca de paz.
Lá a vida é mais dócil,
não há amor, não há dor.
Lá não existe a lua,
o céu é mais turvo,
o horizonte é mais perto.
Lá serás feliz.
A ti, covarde que foge.
A luta não vence porque
não ousa lutar.
É vencido antes da guerra.
É morto antes da vida.
A ti há o oceano para sepultura,
há o abismo para descanso.
Queria escrever um poema
Queria escrever um poema de vida.
Não da vida como ela é,
mas um que gerasse vida.
Uma vida real,
um momento real.
Queria escrever um poema
que não fosse lido como algo qualquer.
Um que passasse ternura, amor emoção.
Queria, por um único momento,
escrever um poema que dissesse tudo,
tudo o que tenho para dizer,
que não hesitasse perante nada.
Um poema livre.
Para ser lido sem mácula,
sem profanação.
Um poema que inspirasse outros poemas.
Queria um poema que me fizesse amar.
Um poema que não acabasse jamais.
Que fosse um sonho, uma utopia.
Um poema.
Amada
dissimulada
Minha doce amada,
foste a amante mais fiel por
ser intocável ao mesmo
tempo em que te entregava
de corpo e alma,
por ser pura e verdadeira
diante de todos,
a qualquer hora, em todos os lugares.
Por ser a primeira, a do meio,
a última.
Por ter em ti todas as mulheres.
Por ser excessivamente bela
e exuberante.
Por ser ingênua como uma santa
e astuta como uma serpente.
Por ser meiga e suave como uma flor.
Tudo te fez a melhor,
a única, a mais amada de todas.
Amor
eterno
Poderias entregar-te a outro, mas nenhum
conseguiria amar-te mais pura ou
completamente do que eu amei.
E por isso te deixarei na incógnita da vida
para que encoste a tua face em outra.
Para que enlaces os teus dedos em outros;
mas tu não saberás que quem te colheu primeiro fui eu.
Para nenhum outro poderia a tua felicidade ser
mais sagrada do que foi para mim e sempre será.
Porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na da noite
e ouvi a tua voz amorosa.
Porque os meus dedos enlaçaram os da névoa
suspensos no espaço.
Porque eu chorei com as estrelas,
e fiz companhia à lua nas noites claras.
Porque eu te dedico toda a minha experiência,
tudo o que vive dentro de mim,
tudo aquilo que tenho de mais precioso.
Mesmo sabendo que ficarei só como os veleiros
no porto deserto,
que a minha sina é estar sempre na solidão,
eu ouso dizer
que te possuirei mais que ninguém,
pois poderei partir.
E todas as vozes que emanam da natureza
serão a tua voz.
Tu estarás a meu lado sempre.
Serás sempre minha.
Eternamente minha.
Ame
Ame com grande amor,
tão grandioso quanto o céu.
E faça-o transcender o teu corpo,
e se expandir além,
com resplendor, com vida.
Faça-o ter asas misteriosas
que te levarão alto, muito alto.
Não retenhas as asas do amor.
Imagine-o infinitamente grande.
Não receies amar, não hesites,
não diminuas a ti mesmo.
Usando as asas do amor
ultrapassas os limites da razão,
ainda que tão pequeno quanto o pó,
ele te tornará grande.
Não desista de um grande amor,
mesmo que fores vencido,
ergue-te de novo.
Ainda que seja desfeito,
tens o direito de amar novamente.
Imagine que em ti ainda resta
um pouco de esperança.
E tudo se torna novo para quem ama.
Não, não fique triste e sombrio,
não chores pelas flores que fenecem.
Pelo amor que não te ouve.
A primavera retorna e com ela
novas flores, novos perfumes,
novas cores.
E o amor, apesar de toda a sua aridez
e desencanto, ele renasce
sempre de novo como a grama.
Não descreia do amor.
A eterna beleza do diamante.
O supremo preço do diamante.
Tão eterno, tão supremo,
por ser tão raro.
Uma jóia inestimável.
Um entre trilhões de pedras.
Uma musa possui a beleza do diamante.
Tão bela, tão eterna.
Uma jóia rara, uma jóia cara.
Um diamante entre infinitas mulheres.
Rara até o momento em que se faz rara.
Rara enquanto consegue ser rara.
Ah! Jóia eterna, jóia suprema.
Não conseguiste mais ser rara.
Tornaste igual a infinitas mulheres.
Converteste-te em pedra.
Um diamante que virou grafite.
Uma mulher comum.
Perdeste o trono de musa,
perdeste o trono de princesa,
estais condenada ao triste fim
de toda mulher.
A velhice e o esquecimento.
A
quadrilha mudou
João amava Raimundo
que amava Teresa
que amava Maria que amava a Lili
que amava Joaquim
que não amava ninguém.
João sumiu do mapa, depressão
Raimundo enlouqueceu, estresse
Teresa morreu de desgosto, inflação
Maria mudou de sexo, democracia,
Lili se entregou às drogas, covardia,
e Joaquim se casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Veja Drummond, como os tempos mudaram.
Negros cabelos
Negros cabelos,
tu és dona de esplêndida
formosura.
Uma fera mui bela
que podes ter a teus pés
quaisquer homem que quiser.
teus cabelos, tão negros
quanto o ébano ao sol,
lhes dá um ar irresistível,
único e inesquecível.
Teus olhos tão fortes quanto o sol
derrubam quaisquer contradição.
Olhar dentro deles
é não esquecê-los jamais.
É querer ser seu dono eternamente.
Teu sorriso é algo inigualável,
ele é assim, meio de lado,
indefinido, sorriso de mulher.
Tua pele cor de jambo,
faz de ti única entre todas.
Seu ar de menina levada
assusta a primeira vista.
Mas conhecer-te é divagar.
É divagar em milhares de sonhos.
Um
dia no futuro
Um dia te encontrarei
e olharei para ti
e te verei velha,
gasta pelo tempo.
Verei teu rosto enrugado,
teus cabelos brancos,
teus passos lentos,
tua coluna curvada
e teus olhos fundos.
Verei os teus sonhos da juventude,
alguns realizados,
outros tantos frustrados.
E me dirás que este mundo
é um mundo de fingimentos,
de dureza, de escravidão.
E lembrarás de todo aquele amor,
toda aquela paixão e desejo
de outrora.
E verás que tudo se desfez no ar.
Então eu rirei de você.
Rirei da transformação que sofreste.
Mas me lembrarei do espelho
e terei medo de olhar para ele.
De olhar e ver meu rosto enrugado,
meus cabelos brancos,
meus passos lentos.
Terei medo de ver todos os meus sonhos,
toda a paixão, todo o amor da juventude
ressuscitarem.
Terei medo de haver lutado pouco,
ou de ter me excedido.
Terei medo de não ter te esquecido.
Mesmo que o tempo te gastou.
Mesmo que o tempo me gastou.
Mas o amor prevaleceu.
Um dia eu olharei para ti
e me verei te amando loucamente,
como neste momento.
Ousar
Ousar. Ousar sempre.
Em cada verso, em cada poema.
Ir sempre além do imaginado,
além do convencional,
além das verdades,
além do que é certo.
O poeta deve ousar sempre.
Ousar dizer o que ninguém diz.
Ousar fazer o que ninguém faz.
É a ousadia o toque final.
O que surpreende, o que eleva
o que impressiona, o que resplandece.
Chega de flores suaves,
chega de toques frágeis.
É hora de ousar.
De criar flores rugosas,
de tocar com toques intensos.
Ousadia é tocar sem medo.
É sentir sem timidez,
é beijar voluptuosamente.
Ousar.
Ousar sempre.
Quando olhar
Quando olhar para você
não fique assustada.
Finja que o meu olhar é água.
A água que escorre pelo teu corpo.
É o ar.
O ar que é o ar que te envolve.
Quando olhar para você
não vire o teu rosto.
Sinta que és tocada,
és admirada,
és a mais desejada.
Quando olhar para você
não tenhas medo do ímpeto
do meu olhar,
não te envergonhes quando
eu te despir,
mas deleite-se no meu olhar.
Quando olhar para você
não olho como um qualquer,
não te vejo com olhos humanos.
Mas sim como amante,
como apaixonado,
como poeta.
Eu quero te amar sempre
mesmo que seja somente em sonhos,
mesmo que tenha que te amar sozinho,
mesmo que exista um preço para isso,
eu juro te amar sempre.
Levaste a minha alma
no dia em que roubaste o meu coração.
Hoje ela esta em prantos
e em prantos ela te oferece fidelidade.
Fidelidade em te amar no silêncio.
Fidelidade em esperar pelo teu amor.
Meu coração se encontra estraçalhado,
quebrado em mil pedaços.
Mesmo assim ele te implora:
“Perdão, se o meu amor te faz infeliz,
por te amar assim tão loucamente,
por te amar num silêncio tumular.
Por não ter coragem de fitar teus olhos,
por não conseguir sentir a tua voz.
Perdão por te expor a público,
por todo o mal que te causei.”
Metamorfose social
Há um homem na esquina.
Um homem sem nome, sem teto,
sem terra, sem nada.
Um homem que é muitos homens.
Vejo o homem da ponte,
das favelas, dos barracos.
“Uma esmola seu moço,
meu fio tá cum fome,
minha mãe tá duenti.”
Um com as mãos estendidas.
Viro meu rosto para o homem.
Fujo da realidade que existe.
Fujo dos problemas do país.
O próximo sinal.
Há um homem na esquina.
Um homem com a mão estendida.
Um homem armado.
Um homem que mata.
Um homem violento.
Um bandido brutal.
“Passa a grana seu moço,
senão estóro seus miolo.”
Pego todo o dinheiro, toma.
Olho com raiva para seu rosto.
Meu Deus, é o mesmo homem.
O homem sem terra, sem teto,
sem nome, sem nada.
Mas agora ele mata, ele rouba.
Quem o fez virar isto?
Foi eu, foi a sociedade.
Foi a democracia não democrática.
A justiça injusta.
Não o ajudamos em sua luta,
em nossa luta.
A luta que era de todos.
O problema que era de todos.
Ele assumiu sozinho.
Homens, sois responsáveis pela
metamorfose social
de vosso irmão.
Quem
mata?
Os menores
que vivem nas ruas;
os sem-terras
que lutam no campo;
os favelados
das grandes cidades;
os líderes
que buscam a paz;
os justo
que buscam justiça.
São
mortos:
pela incompreensão
porque querem compreensão,
pela ganância
porque querem um pouco,
pela desigualdade
porque querem igualdade,
pela imposição
porque querem democracia,
pela saúde
porque querem ser saudáveis,
pela guerra
porque querem a paz,
pelas injustiças
porque querem justiça,
pelo ódio
porque querem amor,
pela prisão
porque querem liberdade,
pelo silêncio
porque querem falar,
pelas mentiras
porque querem a verdade,
pelo medo
porque tiveram coragem,
pela vida
porque insistiram em viver,
pela derrota
porque ousaram vencer.
Em cada rosto há um silencioso desespero.
Há sofrimento dissimulado,
há milhares de sonhos indefinidos,
outros tantos frustrados.
Estampado no rosto há desejos.
Há inquietação no brilho do olhar.
Existem palpitações e felicidades,
no sorriso que ousa transbordar.
No rubor do rosto transparece a vergonha,
no estremecimento da voz, o medo de lutar.
O rosto trai todos os sentimentos que se
busca ocultar.
Em cada rosto há uma personalidade falsa.
Há um rosto e uma máscara.
O rosto não reflete no espelho.
Não o vemos, mas o sentimos.
Apegado ao rosto vem a máscara.
Vem a mentira, a pessoa.
A máscara no espelho reflete tudo
o que não existe.