Capítulo 4 do livro
Educação, um tesouro a descobrir:
Jacques Delor. São Paulo,
Unesco/MEC/Cortez, 1998
Dado que oferecerá meios, nunca antes disponíveis,
para a circulação e armazenamento de informações e para a
comunicação, o próximo século submeterá a educação a uma dura
obrigação que pode parecer, à primeira vista, quase contraditória. A
educação deve transmitir, de fato, de forma maciça e eficaz, cada
vez mais saberes e saber-fazer evolutivos, adaptados à civilização
cognitiva, pois são as bases das competências do futuro.
Simultaneamente, compete-lhe encontrar e assinalar as referências
que impeçam as pessoas de ficar submergidas nas ondas de
informações, mais ou menos efêmeras, que invadem os espaços públicos
e privados e as levem a orientar-se para projetos de desenvolvimento
individuais e coletivos. À educação cabe fornecer, de algum modo, os
mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo
tempo, a bússola que permita navegar através dele.
Nesta visão prospectiva, uma resposta puramente
quantitativa à necessidade insaciável de educação - uma bagagem
escolar cada vez mais pesada - já não é possível nem mesmo adequada.
Não basta, de fato, que cada um acumule no começo da vida uma
determinada quantidade de conhecimentos de que possa abastecer-se
indefinidamente. É, antes, necessário estar à altura de aproveitar e
explorar, do começo ao fim da vida, todas as ocasiões de atualizar,
aprofundar e enriquecer estes primeiros conhecimentos, e de se
adaptar a um mundo em mudança.
Para poder dar resposta ao conjunto das suas
missões, a educação deve organizar-se em torno de quatro
aprendizagens fundamentais que, ao longo de toda a vida, serão
de algum modo para cada indivíduo, os pilares do conhecimento:
aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da compreensão;
aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender
a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em
todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via
essencial que integra as três precedentes. É claro que estas quatro
vias do saber constituem apenas uma, dado que existem entre elas
múltiplos pontos de contato, de relacionamento e de permuta.
Mas, em regra geral, o ensino formal orienta-se,
essencialmente, se não exclusivamente, para o aprender a conhecer e,
em menor escala, para o aprender a fazer. As duas outras
aprendizagens dependem, a maior parte das vezes, de circunstâncias
aleatórias quando não são tidas, de algum modo, como prolongamento
natural das duas primeiras. Ora, a Comissão pensa que cada um dos "
quatro pilares do conhecimento" deve ser objeto de atenção igual por
parte do ensino estruturado, a fim de que a educação apareça como
uma experiência global a levar a cabo ao longo de toda a vida, no
plano cognitivo como no prático, para o indivíduo enquanto pessoa e
membro da sociedade.
Desde o início dos seus trabalhos que os membros da
Comissão compreenderam que seria indispensável, para enfrentar os
desafios do próximo século, assinalar novos objetivos à educação e,
portanto, mudar a idéia que se tem da sua utilidade. Uma nova
concepção ampliada de educação devia fazer com que todos pudessem
descobrir, reanimar e fortalecer o seu potencial criativo - revelar
o tesouro escondido em cada um de nós. Isto supõe que se ultrapasse
a visão puramente instrumental da educação, considerada como a via
obrigatória para obter certos resultados (saber-fazer, aquisição de
capacidades diversas, fins de ordem econômica), e se passe a
considerá-la em toda a sua plenitude: realização da pessoa que, na
sua totalidade, aprende a ser.
Aprender a conhecer
Este tipo de aprendizagem que visa não tanto a
aquisição de um repertório de saberes codificados, mas antes o
domínio dos próprios instrumentos do conhecimento pode ser
considerado, simultaneamente, como um meio e como uma finalidade da
vida humana. Meio, porque se pretende que cada um aprenda a
compreender o mundo que o rodeia, pelo menos na medida em que isso
lhe é necessário para viver dignamente, para desenvolver as suas
capacidades profissionais, para comunicar. Finalidade, porque seu
fundamento é o prazer de compreender, de conhecer, de descobrir.
Apesar dos estudos sem utilidade imediata estarem
desaparecendo, tal a importância dada atualmente aos saberes
utilitários, a tendência para prolongar a escolaridade e o tempo
livre deveria levar os adultos a apreciar, cada vez mais, as
alegrias do conhecimento e da pesquisa individual. O aumento dos
saberes, que permite compreender melhor o ambiente sob os seus
diversos aspectos, favorece o despertar da curiosidade intelectual,
estimula o sentido crítico e permite compreender o real, mediante a
aquisição de autonomia na capacidade de discernir. Deste ponto de
vista, há que repeti-lo, é essencial que cada criança, esteja onde
estiver, possa ter acesso, de forma adequada, às metodologias
científicas de modo a tornar-se para toda a vida " amiga da
ciência". Em nível do ensino secundário e superior, a formação
inicial deve fornecer a todos os alunos instrumentos, conceitos e
referências resultantes dos avanços das ciências e dos paradigmas do
nosso tempo.
Contudo, como o conhecimento é múltiplo e evolui
infinitamente, torna-se cada vez mais inútil tentar conhecer tudo e,
depois do ensino básico, a omnidisciplinaridade é um engodo. A
especialização, porém, mesmo para futuros pesquisadores, não deve
excluir a cultura geral. " Um espírito verdadeiramente formado, hoje
em dia, tem necessidade de uma cultura geral vasta e da
possibilidade de trabalhar em profundidade determinado número de
assuntos. Deve-se, do princípio ao fim do ensino, cultivar,
simultaneamente, estas duas tendências".
A cultura geral, enquanto abertura a outras
linguagens e outros conhecimentos permite, antes de tudo,
comunicar-se. Fechado na sua própria ciência, o especialista corre o
risco de se desinteressar pelo que fazem os outros. Sentirá
dificuldade em cooperar, quaisquer que sejam as circunstâncias. Por
outro lado, a formação cultural, cimento das sociedades no tempo e
no espaço, implica a abertura a outros campos do conhecimento e,
deste modo, podem operar-se fecundas sinergias entre as disciplinas.
Especialmente em matéria de pesquisa, determinados avanços do
conhecimento dão-se nos pontos de interseção das diversas áreas
disciplinares.
Aprender para conhecer supõe, antes tudo, aprender
a aprender, exercitando a atenção, a memória e o pensamento. Desde a
infância, sobretudo nas sociedades dominadas pela imagem televisiva,
o jovem deve aprender a prestar atenção às coisas e às pessoas. A
sucessão muito rápida de informações mediatizadas, o " zapping" tão
freqüente, prejudicam de fato o processo de descoberta, que implica
duração e aprofundamento da apreensão. Esta aprendizagem da atenção
pode revestir formas diversas e tirar partido de várias ocasiões da
vida (jogos, estágios em empresas, viagens, trabalhos práticos de
ciências...).
Por outro lado, o exercício da memória é um
antídoto necessário contra a submersão pelas informações
instantâneas difundidas pelos meios de comunicação social. Seria
perigoso imaginar que a memória pode vir a tornar-se inútil, devido
à enorme capacidade de armazenamento e difusão das informações de
que dispomos daqui em diante. É preciso ser, sem dúvida, seletivo na
escolha dos dados a aprender " de cor" mas, propriamente, a
faculdade humana de memorização associativa, que não é redutível a
um automatismo, deve ser cultivada cuidadosamente. Todos os
especialistas concordam em que a memória deve ser treinada desde a
infância, e que é errado suprimir da prática escolar certos
exercícios tradicionais, considerados como fastidiosos.
Finalmente, o exercício do pensamento ao qual a
criança é iniciada, em primeiro lugar, pelos pais e depois pelos
professores, deve comportar avanços e recuos entre o concreto e o
abstrato. Também se devem combinar, tanto no ensino como na
pesquisa, dois métodos apresentados, muitas vezes, como antagônicos:
o método dedutivo por um lado e o indutivo por outro. De acordo com
as disciplinas ensinadas, um pode ser mais pertinente do que outro,
mas na maior parte das vezes o encadeamento do pensamento necessita
da combinação dos dois.
O processo de aprendizagem do conhecimento nunca
está acabado, e pode enriquecer-se com qualquer experiência. Neste
sentido, liga-se cada vez mais à experiência do trabalho, à medida
que este se torna menos rotineiro. A educação primária pode ser
considerada bem-sucedida se conseguir transmitir às pessoas o
impulso e as bases que façam com que continuem a aprender ao longo
de toda a vida, no trabalho, mas também fora dele.
Aprender a fazer
Aprender a conhecer e aprender a fazer são, em
larga medida, indissociáveis. Mas a segunda aprendizagem está mais
estreitamente ligada à questão da formação profissional: como
ensinar o aluno a pôr em prática os seus conhecimentos e, também,
como adaptar a educação ao trabalho futuro quando não se pode prever
qual será a sua evolução? É a esta última questão que a Comissão
tentará dar resposta mais particularmente.
Convém distinguir, a este propósito, o caso das
economias industriais onde domina o trabalho assalariado do das
outras economias onde domina, ainda em grande escala, o trabalho
independente ou informal. De fato, nas sociedades assalariadas que
se desenvolveram ao longo do século XX, a partir do modelo
industrial, a substituição do trabalho humano pelas máquinas
tornou-o cada vez mais imaterial e acentuou o caráter cognitivo das
tarefas, mesmo na indústria, assim como a importância dos serviços
na atividade econômica.
O futuro destas economias depende, aliás, da sua
capacidade de transformar o progresso dos conhecimentos em inovações
geradoras de novas empresas e de novos empregos. Aprender a fazer
não pode, pois, continuar a ter o significado simples de preparar
alguém para uma tarefa material bem determinada, para fazê-lo
participar no fabrico de alguma coisa. Como conseqüência, as
aprendizagens devem evoluir e não podem mais ser consideradas como
simples transmissão de práticas mais ou menos rotineiras, embora
estas continuem a ter um valor formativo que não é de desprezar.
Da noção de qualificação à noção de
competência
Na indústria especialmente para os operadores e os
técnicos, o domínio do cognitivo e do informativo nos sistemas de
produção, torna um pouco obsoleta a noção de qualificação
profissional e leva a que se dê muita importância à competência
pessoal. O progresso técnico modifica, inevitavelmente, as
qualificações exigidas pelos novos processos de produção. As tarefas
puramente físicas são substituídas por tarefas de produção mais
intelectuais, mais mentais, como o comando de máquinas, a sua
manutenção e vigilância, ou por tarefas de concepção, de estudo, de
organização à medida que as máquinas se tornam, também, mais "
inteligentes" e que o trabalho se " desmaterializa".
Este aumento de exigências em matéria de
qualificação, em todos os níveis, tem várias origens. No que diz
respeito ao pessoal de execução a justa posição de trabalhos
prescritos e parcelados deu lugar à organização em " coletivos de
trabalho" ou " grupos de projeto", a exemplo do que se faz nas
empresas japonesas: uma espécie de taylorismo ao contrário. Por
outro lado, à indiferenciação entre trabalhadores sucede a
personalização das tarefas. Os empregadores substituem, cada vez
mais, a exigência de uma qualificação ainda muito ligada, a seu ver,
à idéia de competência material, pela exigência de uma competência
que se apresenta como uma espécie de coquetel individual, combinando
a qualificação, em sentido estrito, adquirida pela formação técnica
e profissional, o comportamento social, a aptidão para o trabalho em
equipe, a capacidade de iniciativa, o gosto pelo risco.
Se juntarmos a estas novas exigências a busca de um
compromisso pessoal do trabalhador, considerado como agente de
mudança, torna-se evidente que as qualidades muito subjetivas,
inatas ou adquiridas, muitas vezes denominadas " saber-ser" pelos
dirigentes empresariais, se juntam ao saber e ao saber-fazer para
compor a competência exigida - o que mostra bem a ligação que a
educação deve manter, como aliás sublinhou a Comissão, entre os
diversos aspectos da aprendizagem. Qualidades como a capacidade de
comunicar, de trabalhar com os outros, de gerir e de resolver
conflitos, tornam-se cada vez mais importantes. E esta tendência
torna-se ainda mais forte, devido ao desenvolvimento do setor de
serviços.
A "desmaterialização" do trabalho e
a importância dos serviços entre as atividades assalariadas.
As conseqüências sobre a aprendizagem da "
desmaterialização" das economias avançadas são particularmente
impressionantes se se observar a evolução quantitativa e qualitativa
dos serviços. Este setor, muito diversificado, define-se sobretudo
pela negativa, não são nem industriais nem agrícolas e que, apesar
da sua diversidade, têm em comum o fato de não produzirem um bem
material.
Muitos serviços definem-se, sobretudo, em função da
relação interpessoal a que dão origem. Podem encontrar-se exemplos
disso tanto no setor mercantil que prolifera, alimentando-se da
complexidade crescente das economias (especialidades muito variadas,
serviços de acompanhamento e de aconselhamento tecnológico, serviços
financeiros, contabilísticos ou de gestão), como no setor não
comercial mais tradicional (serviços sociais, ensino, saúde etc.).
Em ambos os casos, as atividades de informação e
comunicação são primordiais; dá-se prioridade à coleta e tratamento
personalizado de informações específicas para determinado projeto.
Neste tipo de serviços, a qualidade da relação entre prestador e
usuário depende, também muito, deste último. Compreende-se, pois,
que o trabalho em questão já não possa ser feito da mesma maneira
que quando se trata de trabalhar a terra ou de fabricar um tecido. A
relação com a matéria e a técnica deve ser completada com a aptidão
para as relações interpessoais. O desenvolvimento dos serviços
exige, pois, cultivar qualidades humanas que as formações
tradicionais não transmitem, necessariamente e que correspondem à
capacidade de estabelecer relações estáveis e eficazes entre as
pessoas.
Finalmente, é provável que nas organizações
ultratecnicistas do futuro os déficits relacionais possam criar
graves disfunções exigindo qualificações de novo tipo, com base mais
comportamental do que intelectual. O que pode ser uma oportunidade
para os não diplomados, ou com deficiente preparação em nível
superior. A intuição, o jeito, a capacidade de julgar, a capacidade
de manter unida uma equipe não são de fato qualidades,
necessariamente, reservadas a pessoas com altos estudos. Como e onde
ensinar estas qualidades mais ou menos inatas? Não se podem deduzir
simplesmente os conteúdos de formação, das capacidades ou aptidões
requeridas. O mesmo problema põe-se, também, quanto à formação
profissional, nos países em desenvolvimento.
O trabalho na economia informal
Nas economias em desenvolvimento, onde a atividade
assalariada não é dominante, a natureza do trabalho é muito
diferente. Em muitos países da África subsaariana e em alguns países
da América Latina e da Ásia, efetivamente, só uma pequena parte da
população tem emprego e recebe salário, pois a grande maioria
participa na economia tradicional de subsistência. Não existe,
rigorosamente falando, referencial de emprego; as competências são,
muitas vezes, de tipo tradicional. Por outro lado, a aprendizagem
não se destina, apenas, a um só trabalho mas tem como objetivo mais
amplo preparar para uma participação formal ou informal no
desenvolvimento. Trata-se, freqüentemente, mais de uma qualificação
social do que de uma qualificação profissional.
Noutros países em desenvolvimento existe, ao lado
da agricultura e de um reduzido setor formal, um setor de economia
ao mesmo tempo moderno e informal, por vezes bastante dinâmico, à
base de artesanato, de comércio e de finanças que revela a
existência de uma capacidade empreendedora bem adaptada às condições
locais.
Em ambos os casos, após numerosas pesquisas levadas
a cabo em países em desenvolvimento, apercebemo-nos que encaram o
futuro como estando estreitamente ligado à aquisição da cultura
científica que lhes dará acesso à tecnologia moderna, sem
negligenciar com isso as capacidades específicas de inovação e
criação ligadas ao contexto local.
Existe uma questão comum aos países desenvolvidos e
em desenvolvimento: como aprender a comportar-se, eficazmente, numa
situação de incerteza, como participar na criação do futuro?
Aprender a viver juntos, aprender a
viver com os outros
Sem dúvida, esta aprendizagem representa, hoje em
dia, um dos maiores desafios da educação. O mundo atual é, muitas
vezes, um mundo de violência que se opõe à esperança posta por
alguns no progresso da humanidade. A história humana sempre foi
conflituosa, mas há elementos novos que acentuam o perigo e,
especialmente, o extraordinário potencial de autodestruição criado
pela humanidade no decorrer do século XX. A opinião pública, através
dos meios de comunicação social, torna-se observadora impotente e
até refém dos que criam ou mantêm os conflitos. Até agora, a
educação não pôde fazer grande coisa para modificar esta situação
real. Poderemos conceber uma educação capaz de evitar os conflitos,
ou de os resolver de maneira pacífica, desenvolvendo o conhecimento
dos outros, das suas culturas, da sua espiritualidade?
E de louvar a idéia de ensinar a não-violência na
escola, mesmo que apenas constitua um instrumento, entre outros,
para lutar contra os preconceitos geradores de conflitos. A tarefa é
árdua porque, muito naturalmente, os seres humanos têm tendência a
supervalorizar as suas qualidades e as do grupo a que pertencem, e a
alimentar preconceitos desfavoráveis em relação aos outros. Por
outro lado, o clima geral de concorrência que caracteriza,
atualmente, a atividade econômica no interior de cada país, e
sobretudo em nível internacional, tem tendência de dar prioridade ao
espírito de competição e ao sucesso individual. De fato, esta
competição resulta, atualmente, numa guerra econômica implacável e
numa tensão entre os mais favorecidos e os pobres, que divide as
nações do mundo e exacerba as rivalidades históricas. É de lamentar
que a educação contribua, por vezes, para alimentar este clima,
devido a uma má interpretação da idéia de emulação.
Que fazer para melhorar a situação? A experiência
prova que, para reduzir o risco, não basta pôr em contato e em
comunicação membros de grupos diferentes (através de escolas comuns
a várias etnias ou religiões, por exemplo). Se, no seu espaço comum,
estes diferentes grupos já entram em competição ou se o seu estatuto
é desigual, um contato deste gênero pode, pelo contrário, agravar
ainda mais as tensões latentes e degenerar em conflitos. Pelo
contrário, se este contato se fizer num contexto igualitário, e se
existirem objetivos e projetos comuns, os preconceitos e a
hostilidade latente podem desaparecer e dar lugar a uma cooperação
mais serena e até à amizade.
Parece, pois, que a educação deve utilizar duas
vias complementares. Num primeiro nível, a descoberta progressiva do
outro. Num segundo nível, e ao longo de toda a vida, a participação
em projetos comuns, que parece ser um método eficaz para evitar ou
resolver conflitos latentes.
A descoberta do outro
A educação tem por missão, por um lado, transmitir
conhecimentos sobre a diversidade da espécie humana e, por outro,
levar as pessoas a tomar consciência das semelhanças e da
interdependência entre todos os seres humanos do planeta. Desde
tenra idade a escola deve, pois, aproveitar todas as ocasiões para
esta dupla aprendizagem. Algumas disciplinas estão mais adaptadas a
este fim, em particular a geografia humana a partir do ensino básico
e as línguas e literaturas estrangeiras mais tarde.
Passando à descoberta do outro, necessariamente,
pela descoberta de si mesmo, e por dar à criança e ao adolescente
uma visão ajustada do mundo, a educação, seja ela dada pela família,
pela comunidade ou pela escola, deve antes de mais ajudá-los a
descobrir-se a si mesmos. Só então poderão, verdadeiramente, pôr-se
no lugar dos outros e compreender as suas reações. Desenvolver esta
atitude de empatia, na escola, é muito útil para os comportamentos
sociais ao longo de toda a vida. Ensinando, por exemplo, aos jovens
a adotar a perspectiva de outros grupos étnicos ou religiosos
podem-se evitar incompreensões geradoras de ódio e violência entre
os adultos. Assim, o ensino da história das religiões ou dos
costumes pode servir de referência útil para futuros comportamentos.
Por fim, os métodos de ensino não devem ir contra
este reconhecimento do outro. Os professores que, por dogmatismo,
matam a curiosidade ou o espírito crítico dos seus alunos, em vez de
os desenvolver, podem ser mais prejudiciais do que úteis. Esquecendo
que funcionam como modelos, com esta sua atitude arriscam-se a
enfraquecer por toda a vida nos alunos a capacidade de abertura à
alteridade e de enfrentar as inevitáveis tensões entre pessoas,
grupos e nações. O confronto através do diálogo e da troca de
argumentos é um dos instrumentos indispensáveis à educação do século
XXI.
Tender para objetivos comuns
Quando se trabalha em conjunto sobre projetos
motivadores e fora do habitual, as diferenças e até os conflitos
interindividuais tendem a reduzir-se, chegando a desaparecer em
alguns casos. Uma nova forma de identificação nasce destes projetos
que fazem com que se ultrapassem as rotinas individuais, que
valorizam aquilo que é comum e não as diferenças. Graças à prática
do desporto, por exemplo, quantas tensões entre classes sociais ou
nacionalidades se transformaram, afinal, em solidariedade através da
experiência e do prazer do esforço comum! E no setor laboral quantas
realizações teriam chegado a bom termo se os conflitos habituais em
organizações hierarquizadas tivessem sido transcendidos por um
projeto comum!
A educação formal deve, pois, reservar tempo e
ocasiões suficientes em seus programas para iniciar os jovens em
projetos de cooperação, logo desde a infância, no campo das
atividades desportivas e culturais, evidentemente, mas também
estimulando a sua participação em atividades sociais: renovação de
bairros, ajuda aos mais desfavorecidos, ações humanitárias, serviços
de solidariedade entre gerações... As outras organizações educativas
e associações devem, neste campo, continuar o trabalho iniciado pela
escola. Por outro lado, na prática letiva diária, a participação de
professores e alunos em projetos comuns pode dar origem à
aprendizagem de métodos de resolução de conflitos e constituir uma
referência para a vida futura dos alunos, enriquecendo a relação
professor/aluno.
Aprender a ser
Desde a sua primeira reunião, a Comissão reafirmou,
energicamente, um princípio fundamental: a educação deve contribuir
para o desenvolvimento total da pessoa - espírito e corpo,
inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade
pessoal, espiritualidade. Todo o ser humano deve ser preparado,
especialmente graças à educação que recebe na juventude, para
elaborar pensamentos autônomos e críticos e para formular os seus
próprios juízos de valor, de modo a poder decidir, por si mesmo,
como agir nas diferentes circunstâncias da vida.
O relatório Aprender a ser (1972) exprimia, no
preâmbulo, o temor da desumanização do mundo relacionada com a
evolução técnica4. A evolução das sociedades desde então e,
sobretudo, o enorme desenvolvimento do poder mediático veio acentuar
este temor e tornar mais legítima ainda a injunção que lhe serve de
fundamento. É possível que no século XXI estes fenômenos adquiram
ainda mais amplitude. Mais do que preparar as crianças para uma dada
sociedade, o problema será, então, fornecer-lhes constante-mente
forças e referências intelectuais que lhes permitam compreender o
mundo que as rodeia e comportar-se nele como atores responsáveis e
justos. Mais do que nunca a educação parece ter, como papel
essencial, conferir a todos os seres humanos a liberdade de
pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação de que
necessitam para desenvolver os seus talentos e permanecerem, tanto
quanto possível, donos do seu próprio destino.
Este imperativo não é apenas de natureza
individualista: a experiência recente mostra que o que poderia
aparecer, somente, como uma forma de defesa do indivíduo perante um
sistema alienante ou tido como hostil, é também, por vezes, a melhor
oportunidade de progresso para as sociedades. A diversidade das
personalidades, a autonomia e o espírito de iniciativa, até mesmo o
gosto pela provocação, são os suportes da criatividade e da
inovação. Para reduzir a violência ou lutar contra os diferentes
flagelos que afetam a sociedade os métodos inéditos retirados de
experiências no terreno já deram prova da sua eficácia.
Num mundo em mudança, de que um dos principais
motores parece ser a inovação tanto social como econômica, deve ser
dada importância especial à imaginação e à criatividade; claras
manifestações da liberdade humana elas podem vir a ser ameaçadas por
uma certa estandardização dos comportamentos individuais. O século
XXI necessita desta diversidade de talentos e de personalidades,
mais ainda de pessoas excepcionais, igualmente essenciais em
qualquer civilização.
Convém, pois, oferecer às crianças e aos jovens
todas as ocasiões possíveis de descoberta e de experimentação
estética, artística, desportiva, científica, cultural e social - ,
que venham completar a apresentação atraente daquilo que, nestes
domínios, foram capazes de criar as gerações que os precederam ou
suas contemporâneas. Na escola, a arte e a poesia deveriam ocupar um
lugar mais importante do que aquele que lhes é concedido, em muitos
países, por um ensino tornado mais utilitarista do que cultural. A
preocupação em desenvolver a imaginação e a criatividade deveria,
também, revalorizar a cultura oral e os conhecimentos retirados da
experiência da criança ou do adulto.
Assim a Comissão adere plenamente ao postulado do
relatório Aprender a ser: " O desenvolvimento tem por objeto a
realização completa do homem, em toda a sua riqueza e na
complexidade das suas expressões e dos seus compromissos: indivíduo,
membro de uma família e de uma coletividade, cidadão e produtor,
inventor de técnicas e criador de sonhos".
Este desenvolvimento do ser humano, que se
desenrola desde o nascimento até à morte, é um processo dialético
que começa pelo conhecimento de si mesmo para se abrir, em seguida,
à relação com o outro. Neste sentido, a educação é antes de mais
nada uma viagem interior, cujas etapas correspondem às da maturação
contínua da personalidade. Na hipótese de uma experiência
profissional de sucesso, a educação como meio para uma tal
realização é, ao mesmo tempo, um processo individualizado e uma
construção social interativa.
E escusado dizer que os quatro pilares da educação,
acabados de descrever, não se apóiam, exclusivamente, numa fase da
vida ou num único lugar. Como se verá no capítulo seguinte, os
tempos e as áreas da educação devem ser repensados, completar-se e
interpenetrar-se de maneira a que cada pessoa, ao longo de toda a
sua vida, possa tirar o melhor partido de um ambiente educativo em
constante ampliação.
Pistas e recomendações
• A educação ao longo de toda a vida baseia-se em
quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a
viver juntos, aprender a ser.
• Aprender a conhecer, combinando uma cultura
geral, suficientemente vasta, com a possibilidade de trabalhar em
profundidade um pequeno número de matérias. O que também significa:
aprender a aprender, para beneficiar-se das oportunidades oferecidas
pela educação ao longo de toda a vida.
• Aprender a fazer, a fim de adquirir, não somente
uma qualificação profissional mas, de uma maneira mais ampla,
com-petências que tornem a pessoa apta a enfrentar numerosas
situações e a trabalhar em equipe. Mas também aprender a fazer, no
âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho que se
oferecem aos jovens e adolescentes, quer espontaneamente, fruto do
contexto local ou nacional, quer formalmente, graças ao
desenvolvimento do ensino alternado com o trabalho.
• Aprender a viver juntos desenvolvendo a
compreensão do outro e a percepção das interdependências - realizar
projetos comuns e preparar-se para gerir conflitos - no respeito
pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz.
• Aprender a ser, para melhor desenvolver a sua
personalidade e estar à altura de agir com cada vez maior capacidade
de autonomia, de discernimento e de responsabilidade pessoal. Para
isso, não negligenciar na educação nenhuma das potencialidades de
cada indivíduo: memória, raciocínio, sentido estético, capacidades
físicas, aptidão para comunicar-se.
• Numa altura em que os sistemas educativos formais
tendem a privilegiar o acesso ao conhecimento, em detrimento de
outras formas de aprendizagem, importa conceber a educação como um
todo. Esta perspectiva deve, no futuro, inspirar e orientar as
reformas educativas, tanto em nível da elaboração de programas como
da definição de novas políticas pedagógicas.
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