Drogas: um problema de repressão, cidadania ou saúde pública ?

Cláudio Camargo, editor de Internacional

http://www.terra.com.br/istoe/artigos/ar070700.htm

A Assembléia Nacional (Parlamento) de Portugal acaba de aprovar uma ousada legislação que descriminaliza o uso de drogas no país. Buscando substituir a punição pelo tratamento, a lei prevê que os usuários flagrados com drogas não serão mais presos pela polícia, mas encaminhados para tratamento médico. Já os consumidores que não forem dependentes terão de pagar multas entre US$ 30 e US$ 140. O autor do projeto, o deputado socialista Vitalino Canas, afirma que a nova lei cumpre uma "função social, ao mesmo tempo que deixa claro que o uso de drogas faz mal e continua proibido".

Apesar de ser ainda discutível em termos de direitos civis - em última instância, é o cidadão quem deveria decidir o que é ruim ou bom para si próprio -, a iniciativa representa um notável avanço, principalmente num país que há apenas uma geração estava mergulhado no obscurantismo salazarista. Com isso, Portugal une-se à Espanha e à Itália no rol dos países que descriminalizaram oficialmente o uso de drogas. Ironicamente, os três são países latinos com forte tradição católica - o que supostamente os faria mais conservadores. Mas o fato de eles terem legislação mais avançada sobre o consumo de drogas deveria fazer pensar aqueles que crêem que a modernidade é um apanágio da mentalidade capitalista e protestante de Tio Sam. Pelo menos em termos de comportamento, o Grande Irmão do Norte ainda está na Idade das Trevas.

Veja-se, por exemplo, o pacote de ajuda econômica à Colômbia de US$ 1,3 bilhão aprovado recentemente pelo Congresso dos EUA. Trata-se de assistência basicamente militar para o combate ao narcotráfico naquele país, responsável por cerca de 80% das drogas consumidas pelo rico "mercado" do Norte. A mentalidade de Washington sobre o problema beira à infantilidade: já que não conseguem convencer seus cidadãos a deixar de consumir drogas, as autoridades americanas acreditam que o negócio é eliminar o narcotráfico nos países "produtores". Quem mais sofre com essa política são os camponeses da Colômbia, da Bolívia e do Peru, que, empobrecidos, não têm outra alternativa a não ser cultivar a folha de coca, muito mais rentável do que qualquer outra cultura.

Forma-se o círculo vicioso: os EUA armam Exércitos, que montam milícias paramilitares de extrema-direita, que passam a servir aos barões da droga. Os camponeses morrem no fogo cruzado ou são obrigados a abandonar suas terras. E os lucros do narcotráfico continuam tão promissores - afinal, a demanda sobe em progressão geométrica - que vale a pena correr todos os riscos. Nos últimos dez anos, por exemplo, Tio Sam entupiu a Colômbia de dólares, assessores e equipamento militar, mas a produção de drogas não parou de crescer, assim como a espiral de violência e da violação de direitos humanos. Os cartéis de Medellín e de Cali foram desmantelados apenas para dar lugar, como cogumelos depois da chuva, a uma miríade de micro-cartéis cada vez mais poderosos.

Poucos duvidam que o crescente consumo de drogas no mundo seja hoje um problema dramático. Basta lembrar daquele triste espetáculo representado por jovens drogados perambulando por parques de algumas cidades européias. Isso sem falar das nossas infames "cracolândias" - mas essa já é outra história. Por isso mesmo, querer separar as duas pontas da questão - a produção do consumo - tratando tudo como se fosse um item de "segurança nacional", como fazem os EUA, atacando os países produtores, só faz aumentar o poder da máfia globalizada. Parece que Tio Sam se esqueceu da catástrofe que foi o período da famigerada "Lei Seca" (1919-1933).

Dizem que nunca se bebeu tanto nos EUA - e mal, já que muitas bebidas eram falsificadas - quanto naqueles tempos sombrios da proibição. Mas o pior é que aquela estúpida legislação puritana só conseguiu fazer com que um problema de saúde pública, o alcoolismo, virasse uma questão de polícia - ou de bandidagem, já que a criminalidade deixou de ser um empreendimento amador para se tornar empresarial. Nascia o crime organizado. Incapazes de aprender com a própria história, as autoridades americanas, feito avestruzes, reproduzem agora o erro em escala ampliada - ou globalizada.

A iniciativa de Portugal de descriminalizar o consumo de drogas representa um pequeno mas importante passo adiante na discussão do problema. Trata-se de saber se queremos tirar as drogas do âmbito da criminalidade para inscrevê-las na dupla ótica do direito dos cidadãos e da saúde pública. Como hoje são o cigarro e o álcool. Até setores conservadores como a revista britânica The Economist e o pensador ultraliberal Milton Friedman defendem, há anos, a legalização das drogas como um mal menor à hipocrisia representada pela atual situação, que não impede o crescimento do consumo, da criminalidade e da repressão inócua.

É possível que, se um dia a descriminalização se generalizar, enfrentaremos sérios problemas com o aumento do número de dependentes. Mas talvez o custo econômico e social da prevenção e do tratamento seja muito menor do que manter a proibição ao consumo, tendo de militarizar a periferia do mundo desenvolvido para combater, sem sucesso, a única beneficiária da proibição: uma máfia cada vez mais poderosa, perigosa e globalizada.

 

O NARCOTRÁFICO JÁ É O MAIOR NEGÓCIO IMPERIALISTA DO MUNDO

 

Fonte: Liga Internacional dos Trabalhadores

Jonas Potiguar

Artigo obtido no endereço

http://www.antieua.hpg.ig.com.br/Tex13.htm

 

 

O total da produção mundial de bens hoje em todo o mundo alcança a cifra astronômica de 25 trilhões de dólares (por volta de 300 vezes a produção anual do Brasil). Uma parte importante dessa produção é realizada pelos trabalhadores das grandes empresas transnacionais, que empregam 40 milhões de trabalhadores. A produção das 500 maiores empresas do mundo, produzindo em todos os continentes, em 1998, chegou a US$ 11 trilhões de dólares. Seus lucros chegaram 440 bilhões de dólares. Os setores de ponta desta produção é a indústria automobilística (em torno de 1 trilhão de dólares), petrolífera (900 bilhões) e eletro-eletrônicos (750 bilhões) em dados da revista Fortune de 1994.

A indústria do narcotráfico movimenta entre 750 bilhões de dólares a US$ 1 trilhão, portanto se equiparando a estes setores de ponta. Porém, seus lucros são muito superiores aos granjeados no conjunto destes três setores acima mencionados. Isto é permitido pela grande diferença de preço da matéria prima (folha de coca) que é vendida a US$ 2,5 o kg. na Bolívia ou na Colômbia, depois é transformada em cocaína passa a valer US$ 3.000 na Colômbia, chegando em São Paulo a US$ 10.000 e alcançando o preço estratosférico de US$ 40.000 dólares no mercado norte-americano e US$100.000 no Japão. O mesmo se pode dizer da heroína e da maconha. É o negócio mais rentável do mundo: alcança lucros de mais de 3.000% e o custo de produção alcança somente 0,5% e o de distribuição 3% do valor do produto. Em 1992, os lucros com tráfico de drogas estavam em torno de 300 bilhões de dólares, quase 6 vezes o lucro alcançado pelas indústrias petrolífera, automobilística e de equipamentos eletro-eletrônicos juntas.

A globalização do narcotráfico
 

As máfias, a partir do final dos anos 80, se globalizam, buscando uma associação estreita entre as grandes gangues em nível mundial. Os cartéis colombianos, que alimentam todos os outros cartéis desse ramo e faturam por volta de US$ 200 bilhões anuais, as máfias orientais, que dominavam a produção de papoula (matéria prima da heroína e do ópio, no Triângulo Dourado formado por Birmânia, Tailândia e Laos), as máfias italianas com suas irmãs americanas, a Yakuza japonesa, as máfias chinesas, assim como as máfias africanas e as novas, porém fortes, máfias russas, todas se relacionam.

É um império subterrâneo, com ramificações em mais de trinta países e penetra em todas as esferas de poder estatal, empresariais e sociais. Emprega centenas de milhares de membros organizados e alguns milhões de trabalhadores na produção da matéria prima (folha de coca ou papoula).

O negocio inclui tráfico de drogas, vendas de armas, lavagem de dinheiro do narcotráfico, prostituição adulta e infantil, tráfico de órgãos humanos, suborno, extorsão, controle de área inteiras utilizando métodos violentos de terror com uma estrutura paramilitar.

Segundo dados da revista Newsweek o capital acumulado a cada ano por todas as máfias do mundo é estimado em US$ 3 trilhões, ou seja, mais de 10% de toda produção mundial.

Se prossegue este ritmo vertiginoso de crescimento deste negócio, os cartéis e grupos econômicos que dominem este setor serão a principal fonte de poder econômico do planeta. Por isso, discutir o narcotráfico significa, necessariamente, discutir quem controla regiões inteiras do planeta onde é cultivada a matéria-prima e onde são instalados os laboratórios para produzir drogas.

A "guerra ao narcotráfico" é uma disputa por territórios, entre governos e máfias narcotraficantes. É um negócio como outro qualquer, com a diferença que sua proibição faz oscilar os preços de forma espetacular.

Neoliberalismo e narcotráfico
 

Ainda que exista há décadas, só agora, nos anos 90, com o neoliberalismo, o narcotráfico se desenvolveu e adquiriu peso e importância mundiais. É uma das atividades econômicas mais dinâmicas e rentáveis. O neoliberalismo foi a esteira que permitiu o verdadeiro salto de um negócio marginal para o maior de todos os negócios. A queda dos preços das matérias primas nos países pobres criou as condições para que partes importantes do campesinato da Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Brasil, etc. se dedicassem a produção da matéria prima para a fabricação da cocaína, da heroína e da maconha. Ao mesmo tempo, abriu espaço para que setores burgueses desses países se reorientassem para este negócio, em franca ascensão, enquanto os negócios "legais" encontram-se em recessão.

A abertura indiscriminada dos mercados, a desregulamentação financeira internacional, abriu as comportas do sistema financeiro mundial para uma enxurrada de narco-dólares que são lavados em paraísos financeiros (Caribe) ou no Uruguai, Argentina, Brasil, Suíça, EUA, etc. Grandes bancos aceitam de bom grado o que se estima em US$ 1 trilhão de narco-dólares que são lavados anualmente no sistema financeiro mundial. Este dinheiro cumpre um papel importante na especulação mundial, no crescimento artificial das bolsas de valores, assim como é recebido com "fogos de artifício" pelos governos neoliberais capachos.

Lucros escalonados
 

Como qualquer negócio imperialista, há diversas fases desta indústria. A parte do leão fica com os países imperialistas que recolhem a maior parte dos lucros deste negócio, enquanto que para os países "produtores de matérias primas", do "terceiro mundo", ficam as menores fatias do bolo e mesmo assim nas mãos dos grandes traficantes.

O "negócio" começa nos países semi-coloniais que entram com a produção (Colômbia, Peru e Bolívia no caso da cocaína ou Afeganistão no caso da heroína, por exemplo) feita por milhões de camponeses que vendem a matéria prima por poucos dólares o quilo. Daí a folha de coca passa para as mãos dos narcotraficantes "tupiniquins" que processam a matéria prima, produzindo a cocaína ou a heroína, vendendo-as já por alguns milhares de dólares. Estas gangues agarram a primeira parte dos grandes lucros do negócio, seu enriquecimento é exorbitante e está demonstrada sua relação com os partidos políticos tradicionais, com as cúpulas dominantes destes países, estendendo seu poder de corrupção a todas as atividades econômicas, políticas, sociais.

A terceira etapa do processo está nas mãos dos distribuidores nos grandes centros de consumo (principalmente EUA, que consome 240 toneladas de cocaína por ano, e Europa), em geral controlado pelas máfias dos países imperialistas (nunca denunciadas, nem perseguidas) e ficam com a maior parte dos lucros do negócio, dividido depois com os grandes bancos internacionais que fazem a lavagem dos narco-dólares, transformando-o em capital financeiro, principalmente especulativo, que vai voar pelo mundo afora em prol da "globalização". Estima-se que os EUA reciclam US$ 500 bilhões por ano do narcotráfico.

O grosso dos lucros em todos os níveis, são embolsados pelos setores da burguesia (traficante e não traficante) dos EUA. A economia norte-americana vende parte importante dos compostos químicos, recebe US$ 240 bilhões anuais por isso, uma parte dos quais se destina a repor capital no mesmo ramo da produção de drogas e outra parte é investida em outros setores da economia ou vai para os bancos. Isto transforma os EUA no país onde a
narco-economia tem uma importância vital, ocupa aproximadamente 5% do PIB, se convertendo no setor mais importante da economia norte-americana.

As veias do negócio na América Latina
 

A América Latina é o principal fornecedor de cocaína e maconha do mundo. Os cartéis latino-americanos enviam ao mundo 270 toneladas de cocaína por ano e já detêm 15% da produção de heroína, produto tradicionalmente elaborado no sudeste asiático. Hoje, o Afeganistão controla a maior parte da produção mundial. A coca ocupa uma área de 200 mil hectares espalhados em milhares de propriedades na Colômbia, Peru e Bolívia e emprega 5 milhões de pessoas. Calcula-se que na Bolívia entram por ano US$ 600 milhões relativos ao comércio da coca, no Peru US$ 650 milhões e na Colômbia US$ 1,7 bilhão, ainda que seja impossível conseguir cifras exatas.

Na Colômbia, 70% das terras cultiváveis estão agora nas mãos dos narcotraficantes. Segundo dados da DEA (Agência de Repressão às Drogas do governo norte-americano) para 1995, as entradas, produto das exportações de cocaína da Colômbia, alcançava os 10% do PIB, três vezes mais que as vendas da Ecopetrol, de longe a maior empresa do país. O narcotráfico e seus capitais penetraram em todas as atividades econômicas básicas e fundamentais do país, como bancos, agricultura, construção civil e indústria e faturam uns US$ 200 bilhões, segundo dados do FMI.

Na Bolívia, igualmente, o valor das exportações relacionadas com a cocaína supera todos os demais ramos econômicos. No Peru, a produção de coca chegou a alcançar 8% do PIB do país, empregando 7% da população economicamente ativa. Houve uma queda importante nestes índices, devido à queda dos preços da coca, saturação do mercado mundial, forte superprodução. Depois de ser o primeiro produtor mundial de folhas de coca, o Peru - tudo indica que - vai tornar-se um forte exportador de heroína, pois já estão se produzindo papoulas em terras muito propícias para este cultivo.

No Paraguai, o tráfico de drogas, carros e armas é o setor mais dinâmico da economia e já penetrou em todas as instituições estatais, policiais, políticas, etc. O México é um grande produtor de maconha, cujo monopólio é assegurado pelo próprio exército do país, que foi direcionado para reprimir o narcotráfico e terminou sendo comprado. Argentina e Uruguai, principalmente este último, têm se convertido em importantes bases para "lavar" narco-dólares.

Em todos estes países pode-se encontrar altas esferas do poder metidos até o pescoço no narcotráfico, desde altos oficiais, incluindo as agências nacionais "antidroga" na Colômbia, Paraguai, Peru, México, Bolívia. Até políticos de altas esferas, como Oviedo no Paraguai, Menem, o irmão do ex-presidente Salinas, no México, foram flagrados em escândalos. No Brasil, agora está vindo à luz informações que comprometem políticos burgueses, setores inteiros das polícias, juizes, empresários e banqueiros, corrompidos pelos cartéis do narcotráfico.

O imperialismo norte-americano quer controlar todo o negócio e...
 

A "guerra contra o narcotráfico" promovida pelos EUA tem um aspecto econômico, político e militar. O aspecto econômico busca impedir que surja uma forte burguesia nos países semi-coloniais apoiada neste grande negócio, já que isto permitiria o controle de um negócio mundial que alcança cifras em torno de trilhões de dólares. Daí sua política de repressão seletiva, que ataca os pequenos produtores, com a destruição das plantações de coca na Bolívia, Peru e Colômbia e com os consumidores, sem atacar os grandes atravessadores que são os que detém o maiores no processo, principalmente as máfias americanas e os grandes bancos que recolhem o grosso dos lucros do narcotráfico.

É uma repressão seletiva porque busca destruir os grandes cartéis somente quando estes assumem proporções gigantescas, como os cartéis de Cali e Medellín que estavam constituindo grandes oligopólios mundiais por fora do controle americano. Por isso, foram desbaratados e em seu lugar surgiram dezenas de cartéis que continuam o trabalho inclusive produzindo e distribuindo mais cocaína que os dois cartéis juntos. A burguesia destes países produtores (Colômbia, Peru e Bolívia) se dividem alinhado-se ou não com o imperialismo americano pelo controle e pela apropriação da maior quantidade de lucro que gera para incluir no circuito "legal" do capitalismo.

Desta forma, o imperialismo, acossado pela crise econômica, busca controlar todos os ramos econômicos dos países semi-coloniais (vide privatizações e abertura dos mercados) e a "guerra contra o narcotráfico" é somente a cobertura para uma luta sem quartel para controlar e garantir que os volumosos lucros desta grande indústria seja açambarcado por suas empresas, bancos, e por setores aliados nos países atrasados e não potencialize o surgimento de uma forte burguesia lúmpen que rivalize com o imperialismo ou mesmo possa enfrentá-los ainda que circunstancialmente.

Ademais, desbaratando os grandes cartéis, utiliza o dito "dividir para reinar", já que pode infiltrar agentes da DEA e da CIA, informantes e pilantras da pior espécie dentro das organizações mantendo, perfeitamente, um controle sobre todo o negócio "explodindo" os setores que não estão totalmente "sob controle". Para isso contam com a ajuda da subserviente burguesia latino-americana mais realista que o rei e totalmente subordinada aos interesses do Império do Norte.

É do conhecimento de todos os escândalos que relacionam os americanos em tráfico de drogas. Por exemplo, a esposa do coronel Hiett, o chefe dos militares destacados para seguir na Colômbia o combate às drogas foi detida por traficar cocaína usando os canais diplomáticos. O comércio é tão gigantesco que uma rede dentro da American Airlines, usava as facilidades de acesso a aeroportos para oferecer cocaína nas maiores capitais do Tio Sam.

Porém, estes dois exemplos são só a expressão de uma vasta rede clandestina montada pela CIA, DEA e outros órgãos de inteligência americana. Em janeiro de 1980 apareceu morto um banqueiro australiano, F. Nugan, co-proprietário de uma instituição (NUGAN HAND INC) com sucursais nos 5 continentes. As atividades da Nugan: negócios com pessoas com conexões provadas com drogas; intensa atividade bancária na Florida ligada a narcóticos, tráfico de armas. Existem provas da conexão desta "empresa" com o FBI e a CIA. O quadro de acionistas e pessoas que tiveram relação com o banco vão desde Abe Saffron, personagem fundamental do crime organizado na Austrália, Terry Clarck, chefe do sindicato exportador de opiáceos chamado Mr. Ásia.

Capos da Cosa Nostra americana que se conectavam com o Banco Nugan via Sir Peter Abeles, igualmente sir Peter Strasser, equivalente de Abeles ao nível de petróleos, Rupert Murdoch, Theodore Shackley, ex-diretor de operações clandestinas da CIA, Richard Secord, chefe de vendas de equipamento militar no Pentágono desde 1978 a 1984, demitido depois de fraudar o exército americano em 8 milhões de dólares. Através de Oliver North - em nome do Conselho de Segurança Nacional, Secord foi encarregado de organizar a conexão Irã-Contras. Os administradores e conselheiros do banco eram na sua maioria militares de alta patente, ligados ao Conselho de Segurança Nacional dos EUA, chefes na guerra do Vietnã, ex-diretores da CIA.

Esta grande rede controlava o tráfico de heroína e venda de armas em acordos com os grandes cartéis, "sócios na luta contra o comunismo". Quando este banco vai à falência, surge imediatamente um substituto, o BCCI, que passa a ser parte desta rede clandestina e foi via ele que se processou a negociata do escândalo Irã-Contras onde o governo financiou os contras nicaragüenses com a venda ilegal de armas ao Irã e com o tráfico de entorpecentes. O BCCI tinha uma rede secreta composta por 1.500 funcionários dedicados ao tráfico de armas, drogas e divisas, prostituição, seqüestros, assassinatos, etc.

Na verdade, o pretenso combate ao tráfico é a fachada para impor um controle econômico e político na região, já que sequer consegue efetivamente o que se propõe. O tráfico de drogas do Panamá aumentou após a intervenção imperialista contra Noriega. O governo do ex-presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari, grande amigo dos EUA, tinha uma de suas bases de sustentação no tráfico e seu próprio irmão Raúl era uma das figuras centrais do contrabando e do tráfico.

Na Colômbia, os narcotraficantes mais poderosos apóiam os paramilitares e tiveram participação direta nas execuções de líderes sindicais, ativistas e jornalistas. Esses crimes permanecem impunes, com a conivência das mesmas FFAA que os EUA orientam e enchem de dólares.

O que preocupa o imperialismo é que os países exportadores de drogas se beneficiem economicamente. Por isso dirige seus ataques à periferia: as plantações, os centros de produção e principalmente a "lavagem de dólares" na América Latina. Porém, não combate estas atividades com a mesma intensidade e força em seu próprio território.

O imperialismo sabe, pela sua própria história, que o surgimento destes ramos "ilegais" é uma forma de acumulação primitiva do capital que pode permitir o surgimento de grandes capitais financeiros, como foi no seu tempo o tráfico de escravos, a colonização da América, os piratas a serviço da rainha da Inglaterra ou mesmo, mais recentemente, na década de vinte nos EUA, quando a proibição do álcool levou à formação de impérios clandestinos que depois transformaram-se em grandes negócios.

...recolonizar a América Latina
 

O aspecto político e militar da luta "contra o narcotráfico" é que a partir do final dos anos 80 o imperialismo norte americano utiliza o "perigo do narcotráfico" para assim justificar sua crescente intervenção nas forças de segurança dos países latino-americanos, como na Colômbia, Bolívia, Peru, Equador, Panamá, Brasil, Paraguai, México, etc.

Por trás dessa máscara se insinua a penetração de militares norte-americanos em toda América Latina, cuja ponta de lança para a intervenção começa na Colômbia, porém que está desenvolvendo seus tentáculos em todos os países da área. O Narcotráfico é utilizado para justificar intervenções abertas e descaradas, retrocedendo a formas coloniais que vai desde invasões, como foi o caso do Panamá, até treinamento de FFAA com "assessores" militares como na Colômbia, Bolívia, Peru, Paraguai, até ceder partes partes do território para que sejam patrulhados por ianques. O imperialismo norte-americano relocaliza dezenas de milhares de militares que estavam estacionados no Panamá, construindo bases e acordos militares com a maioria dos países da área, preparando-se para embates na luta contra a liberação nacional e os grandes enfrentamentos que estão por dar-se na área, como prenunciam Colômbia, Equador e outros.
 

NARCOTRÁFICO E CAPITALISMO: DUAS FACES DE UMA SÓ MOEDA.

http://opop.sites.uol.com.br/ger_n6_2.htm

 

O problema das drogas não é simples sob nenhum aspecto de suas amplas possibilidades de abordagem. Neste artigo, tentaremos desvendar alguns de seus mistérios, sem a preocupação em dar conta de toda a questão. Tomaremos como ponto de apoio o livro “O Século do Crime”, dos jornalistas José Arbex Júnior e Cláudio Júlio Tognoli. Junto com eles, daremos uma idéia de como as máfias se estruturam em todos os continentes do mundo e lançam os seus tentáculos sobre as mais diversas áreas de interesse.

Decididamente, narcotráfico e capitalismo, mais do que excludentes, são complementares. Por mais que na aparência exista uma luta dos titãs do capitalismo contra esse comércio ilegal, há uma relação contraditória de choque e de simbiose entre os contendores, nunca evidenciada pela mídia. Se por um lado o narcotráfico forma um mundo paralelo, com leis e lógicas próprias, por outro aplica seus lucros nos mercados ávidos por capitais. É essa relação de “amor e ódio” que deve ser desmistificada.

Apesar do “esplendor” econômico de uns poucos, a realidade mundial é marcada pelo sucateamento das economias de diversos países no mundo. Uma das alternativas econômicas das muitas populações existentes é a atividade que lhes é propiciada pelo chamado “mundo do crime”. Este, além de instituir poderes onde se estabelece, organiza-se em alguns locais com toda uma estrutura previdenciária, fazendo papel de Estado. Em suma, onde já não há mais Estado, ou míngua a atuação deste, o narcotráfico coloca-se como alternativa de vida e açambarca contingentes inteiros de populações. Sigamos seus rastros.

A Economia das drogas
 

De início, é preciso destacar a importância econômica do narcotráfico no mundo. A ONU, Organização das Nações Unidas, em suas conferências de cúpula de Nápoles (novembro de 1994) e Cairo (maio de 1995), estimava a soma movimentada anualmente pelas máfias entre U$ 750 bilhões e U$ 900 bilhões. Mais que todo o dinheiro gerado pela indústria do petróleo no mundo.

Tratemos então de penetrar no que tem de mais essencial, ou seja, como a atuação desses grupos criminosos se articula com a globalidade da economia do planeta, justamente a partir da importância econômica, política e social desse “setor” da economia capitalista, que cresce a olhos vistos e engole estados inteiros nesta conjuntura de final de século.

Um setor da economia capitalista?
 

Não é à toa que a ONU se preocupa cada vez mais com a dimensão atingida pelas atividades ditas criminosas, que hoje desafia “a própria noção de uma ordem jurídica internacional reguladora da relação entre os estados”. As cifras geradas, superiores aos PIBs da maioria dos países, colocam o problema não apenas sob o aspecto moral ou de polícia, mas ganham contornos de questões financeiras e geopolíticas de relevada importância.

Tomemos algumas palavras dos autores atrás citados para revelar as atividades trabalhadas por esse mundo clandestino, não submetido a qualquer lei ou regulamentação dos ditos estados democráticos, cujos negócios “... incluem o comércio de drogas, armas (eventualmente, até nucleares), tecnologias sofisticadas obtidas mediante espionagem industrial ou compra de segredo, de escravas brancas e crianças, de órgãos humanos utilizados em transplantes, de transporte, passagens e vistos de entrada falsificados para imigrantes ilegais, além de práticas ‘tradicionais’ de suborno de autoridades e políticos, extorsão, exploração da prostituição adulta e infantil e controle de cidades ou regiões inteiras com base na força e no terror impostos por quadrilhas bem armadas e organizadas segundo uma estrutura paramilitar”.

A globalização econômica significou, também, a globalização das máfias e do narcotráfico. Desde o início da adoção das práticas neoliberais (Inglaterra-1979, com Margareth Tatcher; Estados Unidos-1980, com Ronald Reagan), o mundo passou a conhecer a chamada “desregulamentação da economia”. É a possibilidade de uma fluidez muito maior de transações econômicas e financeiras, ajudadas substancialmente pela revolução tecnológica, que possibilita o trânsito de grandes volumes de capitais via redes de computadores. Foi também essa conjuntura que propiciou a dita mundialização do crime, atuando prioritariamente nos “paraísos financeiros”, onde a origem do dinheiro não tem a mínima importância.

Muito do dinheiro que gira vadio pelo mundo, buscando ganhos fáceis em bolsas de valores e outras transações de caráter especulativo, tem sua origem nas atividades acima citadas. A injeção de dinheiro pelas máfias nos mercados de capitais sustenta diversas das corporações internacionais e “respeitáveis organizações de fachada limpa”. Além disso, vários dos países ditos “emergentes”, como o Brasil, Chile, Argentina, México, Rússia, etc., esperam ansiosamente a entrada desse tipo de capital.

É lógico que nem todo capital especulativo provém de atividades criminosas, mas não há nenhum mecanismo de aferição para separar uma coisa de outra. É dessa maneira que o “dinheiro sujo” é transformado no bom e festejado hot-money. É essa a lógica que nos permite perceber a “interpenetração crescente entre o dinheiro das máfias e o mercado financeiro institucional. Podemos afirmar, com tranqüilidade, que se todas as máfias fossem subitamente destruídas, isso causaria uma catástrofe no mercado de valores mundial”. É por tudo isso que o discurso moral faz parte de um grande jogo de cena da hipocrisia capitalista mundializada.

Um mundo em ruínas. Espaço para narcotraficantes...
 

O narcotráfico cresce nas ruínas da globalização e da economia formal. Tomemos como exemplo o caso da Nigéria, na África. Lagos, sua capital, é também chamada “capital do crime, no continente africano”. Como isso se deu e se alastra? Acontece que o petróleo, principal fonte de riqueza da Nigéria, desde os anos 80 teve os seus preços em queda no mercado internacional. O encolhimento da classe média e alta nigeriana foi rápido e as alternativas econômicas não existiam, dado o conhecido sucateamento não apenas daquele país, mas de quase todo o continente. Restavam, para um sem número de estudantes e profissionais, a pobreza e a miséria. Resultado: adesão ao narcotráfico e formação de uma elite financeira vinculada ao crime organizado.

Não difere em essência, do exemplo citado, o caso de outros países africanos que viviam de exportação de matérias-primas, como o cacau, o café, o cobre, e também sofreram abalos com as baixas cotações desses produtos. As máfias no mundo, hoje, na esteira da miséria produzida por um sistema que persiste na sua lógica de exclusão, funcionam como “pólo de atração para uma juventude desesperada e sem destino”. Numa outra passagem eloqüente do texto, os autores vaticinam: “...

É fácil imaginar o poder corruptor das máfias africanas, quando se sabe que militares, políticos e figuras públicas influentes recebem salários miseráveis de estados falidos. Cria-se, assim, um quadro propício à multiplicação de ‘narcocracias’ (traficantes que assumem diretamente o governo de seu país)”. Se alargarmos a nossa visão para outras regiões do planeta, inclusive nossos vizinhos latinos, veremos que o problema não é tão fácil de resolver, menos ainda com uma simples invasão de “abnegados e heróicos” norte-americanos.

Muitos dos narcotraficantes, nada ingênuos, elaboram um discurso ideológico, visando atingir os mais pobres e os mais jovens. Alguns deles colocam-se claramente como “alternativa de organização e luta contra um Estado opressor”. Não é à toa o prestígio de grupos de traficantes nos morros cariocas, que patrocinam inclusive “fundos de assistência social”, mais eficazes que o sistema previdenciário do governo. Quando do julgamento do general Noriega, em Miami, após a invasão do Panamá, o traficante Carlos Lehder soltou esta frase emblemática: “Nós, povos pobres da América Latina, temos sido explorados durante anos pelo imperialismo ianque. Mas a nossa vingança está chegando: a cocaína é a nossa vingança, é a bomba atômica da América Latina”. Não obstante a demagogia e o ufanismo professados, a frase revela a consciência de um discurso que tenta convencer aos excluídos do sistema de circulação mundial de mercadorias, das possibilidades que restaram de vencer o opressor.

Êxodos: os refugiados no mundo!
 

Vimos, há pouco tempo, a publicação por Sebastião Salgado do livro Êxodos. As imagens tocantes que ali se vêem ganham respaldo nos seguintes dados das Nações Unidas: em 1975, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) “cuidava de 2,5 milhões de pessoas que haviam fugido dos seus países natais. O montante chegou a 17 milhões de pessoas em 1991, subiu para 23 milhões de pessoas em 1993 e chegou a 27 milhões no início de 1995”, um crescimento de quase mil por cento em vinte anos. As próprias Nações Unidas admitem que o aumento considerável de refugiados decorre “da desintegração de estados que, após a Guerra Fria, não desfrutaram do apoio e proteção das nações mais poderosas do mundo”.

São esses mesmos refugiados que têm sido, ultimamente, os principais recrutados para os papéis de “mulas”, que fazem o transporte das drogas entre diversos países do mundo. Refugiados e imigrantes ilegais não têm, em geral, apoio de ninguém. É nos tentáculos das máfias que muitos têm encontrado guarida, uma vez que as organizações mafiosas, além de contar com uma “força de trabalho” desesperada e disposta a todo e qualquer risco, ainda conta com a vantagem de descaracterizar a origem do produto em caso de apreensões, com pessoas de outras nacionalidades.

O Brasil e o narcotráfico
 

Desde 1993 o Brasil começou a figurar como um dos líderes do narcotráfico. O Departamento de Estado dos Estados Unidos coordena a elaboração do Relatório Anual sobre o Controle Internacional de Narcóticos. Foi nesse documento que o Brasil ganhou destaque como “o maior canal de distribuição mundial da cocaína produzida pelos cartéis de Cali e de Medellín, da Colômbia”. Já aqui se associava a situação degradante da economia brasileira ao crescimento das atividades criminosas. Era a falência econômica do país, após o vendaval do Plano Collor, o principal responsável pelo crescimento do narcotráfico.

O Departamento de Estado americano, em documento reservado, destaca: “O Brasil emergiu em 1995 como a mais significativa rota de trânsito para carregamentos aéreos de folhas de coca produzidas no Peru e destinadas para laboratórios na Colômbia. O governo começou a demonstrar estar ciente da vulnerabilidade do Brasil para os traficantes colombianos, que estão usando o país como a maior rota de trânsito, centro potencial de processamento de cocaína e núcleo de lavagem de dinheiro”.

O papel de destaque do Brasil na “narcogeopolítica” tem razões bem palpáveis: cerca de U$ 200 bilhões são produzidos em cocaína anualmente pelos cartéis colombianos; destes, os Estados Unidos são ponto de chegada para 243 toneladas, das 270 anualmente produzidas; o crime organizado lava mais de U$ 140 bilhões no mercado dos Estados Unidos; o Brasil é a principal rota desse transporte, e também para a Europa. Mas este país não tem um papel de mero espectador do bonde que passa em suas plagas. Cresceu e “profissionalizou-se”.

As nossas dimensões territoriais e um moderno sistema de comunicações têm funcionado como fatores de atração para as organizações do tráfico internacional. O Brasil tem também as suas máfias internas, sendo os “chefões”, muitos deles, “respeitáveis empresários” que usam suas empresas como fachada para camuflar a principal atividade, ligada ao narcotráfico. O chamado “Cartel de São Paulo”, composto por 18 desses chefões, “comandava a distribuição de drogas no país e do Brasil para o resto do mundo”. É assim que se articula, por exemplo, o contato dos traficantes brasileiros com a máfia nigeriana, “que leva a cocaína dos cartéis colombianos, via Brasil, para o Extremo Oriente — onde é trocada por heroína, e a partir da África do Sul vai para território da ex-URSS, para ser comercializada por armamentos e material nuclear”. Vemos, claramente, o nível de articulação a que chegou o crime mundializado. E o Brasil é peça fundamental nessa engrenagem.

A Rússia e suas máfias
 

Tomemos o caso da Rússia como exemplar para o nascimento de uma máfia. Muito se falou a respeito do fim da URSS associando o fato à derrota final do comunismo. A verdade é que há algumas décadas não existia mais o que ainda chamavam de socialismo, ou comunismo, ou socialismo real, etc. Há muito que uma burocracia corrompida e corruptora tinha-se apossado do aparelho de Estado soviético, oprimia, reprimia e explorava o povo russo. Era a corrupção estatal de uma burguesia de Estado, que gerenciava os seus problemas internos com mão-de-ferro e que, externamente, disputou uma longa queda de braços com os poderosos americanos, na chamada Guerra Fria.

Não é por acaso que o poder das organizações mafiosas vem justamente de dentro do aparelho estatal corrompido. As principais máfias em atuação na Rússia foram constituídas “por antigos funcionários do Estado soviético e do Partido Comunista”. Eram pessoas que, bem antes do desmonte da URSS, já atuavam nas sombras do aparelho burocrático e tinham o poder de burlar as leis. As máfias russas, portanto, já existiam antes dos anos 90. A partir daí passaram a agir de uma maneira mais abertamente corrupta.

A pedra de toque da corrupção foi o congelamento oficial de preços. Como no “nosso” Plano Cruzado, veio à tona a figura do ágio. Com ele qualquer produto poderia aparecer. Se oficialmente a inflação era zero, na realidade, o custo de vida tornava-se angustiante e insuportável. Enormes filas para comprar qualquer produto básico. As quadrilhas que exploravam o ágio se formavam no interior do aparelho estatal e do PC soviético, com participação de pequenos funcionários, fiscais do governo, etc.

Estatísticas divulgadas pelo Instituto de Pesquisas do Ministério do Interior da ex-União Soviética dão conta de que, em 1985, 30% do que os funcionários públicos soviéticos ganhavam era produto de subornos e propinas. Em 1991, a corrupção atingia metade dos seus ganhos. As somas movimentadas pelas máfias cresceram absurdamente. De 1989 até 1991 houve um salto de 1 bilhão para 130 bilhões de rublos.

Em pleno turbilhão da crise, Boris Ieltsin deu início ao processo de privatização na Rússia. Podia-se comprar de tudo, mas apenas as grandes máfias, muitas delas associadas ao capital internacional, tinham dinheiro para entrar de cabeça na grande feira. Foi assim que, em pouco tempo, “grupos mafiosos colocaram sob seu controle algo entre 50% e 80% de todas as lojas, armazéns, depósitos, hotéis e empresas fornecedoras de serviços de Moscou”. Em 1995, a máfia russa já controlava cerca de 40 mil empresas privatizadas, com um faturamento em torno de U$ 300 bilhões. A atividade dos mafiosos se profissionalizou e diversificou, e muitas dessas empresas passaram a servir de fachada para estreitar laços com grupos mafiosos de outros países.

O caos jurídico facilitou a ação dos grupos criminosos: “a Rússia teve que praticamente ‘inventar’, a toque de caixa, um corpo de leis regulamentando relações de mercado, inexistentes sob o regime soviético. É claro, também, que o vácuo jurídico-institucional resultou, na pratica, na aplicação da lei do mais forte, e o mais forte eram as máfias”. Há indícios graves de que uma parte do arsenal nuclear russo é hoje objeto passível de comércio entre grupos mafiosos. Acusações do Greenpeace, por exemplo, revelam que por U$ 250 mil se compra uma ogiva nuclear de porte médio na Rússia. Calcula-se que ainda hoje, existem entre 15 a 30 mil dessas ogivas no país, que são guardadas por oficiais e soldados mal pagos.

Nos dias atuais, o que se vê na Praça do Kremlin, diante do mausoléu de Lênin, é o desfile incessante de prostitutas, soldados e mafiosos, numa estranha ironia entre passado e presente.

A lavagem do dinheiro
 

Passemos um breve olhar num problema que é por demais sério e que envolve um sem número de gente muito boa e respeitável. Em 1982, o FMI calculava que as finanças mundiais perdiam cerca de U$ 100 bilhões a cada ano, por conta dos mecanismos de lavagem de dinheiro pelas máfias. Em 1994, o buraco já era estimado em algo em torno de U$ 700 bilhões a U$ 1 trilhão.

Boa parte do dinheiro envolvido nas transações de drogas não é e nem pode ser pago em cash, pelo simples fato de que as cédulas pesam mais do que o “produto”, a cocaína. Arbex e Tognolli informam que uma cédula de U$ 10,00 chega a pesar mais de trinta vezes que a coca, num carregamento grande. A lavagem é executada de muitas maneiras, inclusive com contas de “laranjas” nos mais diversos bancos, mesmo aqueles que estão muito próximos de nós. Ordens de pagamentos, cheques de viagem, tudo ganha um aspecto respeitável e o dinheiro viaja tranqüilamente nos poros do sistema financeiro mundializado, privilegiando paraísos fiscais como as Antilhas holandesas, as ilhas Caiman, Seychelles, Barbados, Hong Kong, Luxemburgo, Liechtenstein, as ilhas Channel, dentre outros tantos paraísos dos diversos continentes.

Algumas conclusões...
 

O mundo capitalista nunca teve, como na atualidade, tanta capacidade de produzir riquezas. Sabemos que os mecanismos de produção e reprodução dessa riqueza levam a uma concentração cada vez maior dela. Não é por acaso que vemos as grandes fusões acontecendo e concentrando mais e mais capital. Também não por acaso, todas essas fusões, e privatizações, e enxugamentos de empresas, e novas tecnologias, e novos métodos de gestão, são mecanismos poupadores de mão-de-obra. Leia-se: mecanismo de desempregar gente. Se para os países de ponta do desenvolvimento econômico a miséria de suas populações cresce sem cessar, o que não acontece com os países marginalizados da globalização?

Foi esse o vácuo encontrado pelos narcotraficantes para crescer. As economias arruinadas de muitos países dependem da droga ou das atividades criminosas de grupos cada vez mais fortes. Criou-se uma relação de dependência econômica à cocaína latino-americana em países, por exemplo, como a Bolívia, onde um em cada três trabalhadores ganha salários diretamente de narcotraficantes ou de setores derivados do narcotráfico, segundo dados do professor Osvaldo Coggiola, em matéria “O comércio de drogas hoje”.

A sociedade americana, como maior consumidora da cocaína do mundo, reivindica-se como maior prejudicada. São bilhões de dólares gastos no combate aos traficantes, como na atual intervenção na Colômbia; aumento de criminalidade ligado ao consumo de drogas; sem falar nas quedas de produtividade de trabalhadores; dinheiro gasto pelo Estado na reabilitação de viciados, etc. Mas isso é apenas parte da verdade, pois numerosos interesses econômicos tornam ainda mais complexa a situação. As guerras externas ao narcotráfico resguardam também os interesses dos “narcoprodutores” internos dos EUA, o que diminui a relação desvantajosa de comércio hoje, em que os norte-americanos perdem algumas centenas de bilhões de dólares. Só assim se entende tanto interesse em combater na Colômbia ou em qualquer lugar do planeta.

Mas isso ainda não é tudo. Como se sabe, os Estados Unidos buscam, a cada momento, mover suas peças no grande jogo do xadrez geopolítico, a fim de garantir por muito mais tempo seus interesses imperialistas. Arquiteta cada lance para por em xeque os seus adversários. Precisa, para isso, de um inimigo que seja considerado realmente ameaçador, para poder agir mais livremente no tabuleiro. Se o inimigo não pode ser mais o temido “comunismo”, dado o fim da Guerra Fria e o xeque-mate sofrido pela ex-União Soviética e as sociedades burocratizadas do leste europeu, é necessário àquele país, para manter a sua estratégia de dominação unipolar, eleger a cada tempo um inimigo e convencer o mundo de sua necessidade de combate. Foi assim com Saddam Hussein, no Iraque, e com Milosevic, na Iugoslávia. Na falta de um inimigo “melhor”, o combate ao narcotráfico é a “bola da vez”, com todo o discurso moral, hipócrita e cínico do império americano.