Milton Santos: um negro que derrotou o sistema

Por uma Outra Globalização - Do Pensamento Único à Consciência Universal
 
Professor Milton Santos
 
O livro é formado de seis partes, das quais a primeira é a introdução. A segunda inclui cinco capítulos e busca mostrar como se deu o processo de produção da globalização. Este tema havia sido tratado de alguma forma em outras publicações e livros meus.

A terceira parte, formada por seis capítulos, busca explicar por que a globalização atual é perversa, fundada na tirania da informação e do dinheiro, na competitividade, na confusão dos espíritos e na violência estrutural, acarretando o desfalecimento da política feita pelo Estado e a imposição de uma política comandada pelas empresas.

A quarta parte mostra as relações mantidas entre a economia contemporânea, sobretudo as finanças, e o território. Esta parte é constituída de seis capítulos, dos quais o último poderia também se incluir na parte seguinte, pois, por meio da noção de esquizofrenia do território, mostramos como o espaço geográfico constitui um dos limites a essa globalização perversa.

E essa idéia de limite a historia atual que se impõe na quinta parte, em que são mostrados ao mesmo tempo os descaminhos da racionalidade dominante, a emergência de novas variáveis centrais e o papel dos pobres na produção do presente e do futuro.

A sexta parte, uma espécie de conclusão, é dedicada ao que imaginamos ser, nesta passagem de século, a transição em marcha. Aqui, os temas versados realçam as manifestações pouco estudadas do pais de baixo, desde a cultura ate a política, raciocínio que se aplica também a própria periferia do sistema capitalista mundial, cuja centralidade apresentamos como um novo fator dinâmico da historia.

É, exatamente, porque esses atores, eficazes mas ainda pouco estudados, são largamente presentes, que acreditamos não ser a globalização atual irreversível e estamos convencidos de que a história universal apenas começa.
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Obra: Espaço do cidadão
Capítulos do livro do Professor Milton Santos no Google Books

Texto - Maria da Conceição Tavares

Neste livro, Milton Santos propõe uma interpretação multidisciplinar do mundo contemporâneo, em que realça o papel atual da ideologia na produção da história e mostra os limites do seu discurso frente à realidade vivida pela maioria das nações.

A tirania da informação e a do dinheiro são apresentadas como os pilares de uma situação em que o progresso técnico é aproveitado por um pequeno número de atores globais em seu benefício exclusivo. O resultado é o aprofundamento da competitividade, a produção de novos totalitarismos, a confusão dos espíritos e o empobrecimento crescente das massas, enquanto os Estados se tornam incapazes de regular a vida coletiva. É uma situação insustentável.

O autor enxerga nas reações agora perceptíveis na Ásia, mas também na África e na América Latina e nos movimentos populares protagonizados pelas camadas mais pobres da população, a semente de uma evolução positiva, que deverá conduzir ao estabelecimento de uma outra globalização. A tônica desta hora é a mensagem de esperança na construção de um novo universalismo, bom para todos os povos e pessoas.

Este novo livro de Milton Santos trata da globalização como fábula, como perversidade e como possibilidade aberta ao futuro de uma nova civilização planetária.

Os atores mais poderosos desta nova etapa da globalização reservam-se os melhores pedaços do Território Global e deixam restos para os outros. Mas a grande perversidade na produção da globalização atual não reside apenas na polarização da riqueza e da pobreza, na segmentação dos mercados e das populações submetidas, nem mesmo na destruição da Natureza. A novidade aterradora reside na tentativa empírica e simbólica de construção de um único espaço unipolar de dominação. A tirania do Dinheiro e da Informação, produzida pela concentração do capital e do poder, tem hoje uma unidade técnica e uma convergência de normas sem precedentes na história do capitalismo.

O seu caráter globalmente destrutivo acaba porém sendo contraditório, levando à resistência parcelas crescentes da humanidade a partir de seus distintos “lugares”. O velho otimismo do grande geógrafo brasileiro reaparece em relação às cidades, como espaço de liberdade para a cultura popular em oposição à cultura midiática de massas, como espaço de solidariedade na luta dos “de baixo” contra a escassez produzida pelos “de cima”. A visão de uma nova horizontalidade na luta dos oprimidos contra a verticalidade dos opressores é comovedora e estimulante, já que conduz a uma nova utopia.

Produz-se assim, diz ele, uma nova centralidade do social que constitui a base para uma nova política. Não podendo a esmagadora maioria “consumir o Ocidente globalizado” em suas formas puras (financeira, econômica e cultural), aumentará a resistência à dominação ultraliberal e consumista propagandeada pelas grandes organizações dos meios de comunicação de massas. A alienação tende a ser substituída por uma nova consciência, uma nova filosofia moral, que não será a dos valores mercantis mas sim a da solidariedade e da cidadania.

A unificação da técnica e das normas instrumentais poderá servir então, dialeticamente, de trampolim para uma nova humanidade, para novos valores simbólicos que em sua interfecundação e espalhamento abra caminhos a uma nova civilização planetária. A História Universal seria então a da nossa humanidade comum e não mais a dos dominadores.

MILTON SANTOS: INTELECTUAL, GEÓGRAFO E CIDADÃO INDIGNADO

Marcos Bernardino de Carvalho
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil


Milton Santos: intelectual, geógrafo e cidadão indignado (Resumo)

O geógrafo Milton Santos foi um desses raros pensadores brasileiros cujas reflexões e produção teórica repercutiram não só além das fronteiras de seu país, como também além do âmbito de sua comunidade profissional. Intelectual comprometido com os grandes problemas e questões de seu tempo, sobretudo com aquelas parcelas da população marginalizadas pelo perverso processo de globalização ora em curso, deixou sua marca de indignação e revolta por todos os meios e instrumentos nos quais teve a oportunidade de manifestar suas idéias, fossem eles textos acadêmicos, aulas na universidade, artigos de jornais ou entrevistas nos programas de televisão.

Palavras-chave: Milton Santos, Intelectual, Indignação, Filósofos, Geografia


Milton Santos: intellectual, geographer and indignated citizen (Abstract)

The geographer Milton Santos was one of those rare Brazilian thinkers whose reflections and theoretical production had echoed beyond the borders of his country and also beyond the scope of his professional community. An intellectual compromised to the great issues and contemporary problems, mainly with the situation of the victims of the perverse globalization process, nowadays in course, he left his mark of indignation and revolt by all ways and instruments -academic papers, university lectures, articles in newspaper or interviews in TV- through which he had the chance to express his ideas.

Key-Words: Milton Santos, Intellectual, Indignation, Philosophers, Geography


"Outrora, os intelectuais eram homens que, na Universidade ou fora dela, acreditavam nas idéias que formulavam e formulavam idéias como uma resposta às suas convicções. Os intelectuais, dizia Sartre, casam-se com o seu tempo e não devem traí-lo." (Milton Santos)

Edgar Morin em seu livro autobiográfico, Os Meus Demônios, no capítulo dedicado à memória e à reflexão de sua trajetória intelectual, indaga:"Que é um intelectual? Quando é que uma pessoa se torna intelectual?" E é o próprio Morin quem responde:"Quer seja escritor, universitário, cientista, artista ou advogado, só se passa a ser intelectual, no meu sentido, quando se trata por meio de ensaio, de texto de revista, de artigo de jornal de forma especializada e para além do campo profissional estrito dos problemas humanos, morais, filosóficos e políticos. É então que o escritor, o filósofo, o cientista se auto-instituem intelectuais."[1]

Ou seja, segundo essa ótica, o "título" de intelectual só deveria ser concedido aos que tomam partido no tempo em que vivem, aos que falam para fora do âmbito das academias e das universidades, aos que prestam atenção ao que se passa além dos muros corporativos, aos que colocam o seu"instrumento de trabalho" -a formulação teórica, a reflexão, o discurso e o ensaio reflexivo-, muito a favor da existência humana e muito pouco a favor de sua própria profissão.

O intelectual verdadeiro, portanto, dedica-se, na maior parte do seu tempo, às grandes questões e a dialogar com pessoas que não seus "colegas de profissão". Por conseguinte, sua atuação e seu grau de excelência não se avaliam mais pelas contribuições prestadas à essa ou àquela corporação profissional. Sua contribuição dá-se numa escala mais ampliada.

Condições como as de pertencer à qualquer parcela da elite pensante ou a fragmentos da intelligentsia institucional não lhes são motivo de orgulho. Prefere ver ressaltada a sua condição de intérprete e cúmplice de seu tempo, do que ser reconhecido apenas através do título profissional que eventualmente ainda ostente. Seus títulos acadêmicos e vínculos corporativos diluem-se naquilo que lhe é mais amplamente reconhecido: a condição de sábio e de pensador da contemporaneidade. Nesse sentido, lembram-nos mais os artistas e os filósofos de outras épocas, outros séculos, aos quais se recorria para ter ciência deste e dos outros mundos.

Milton Santos, personalidade que aqui se homenageia, foi um destes raros pensadores que por suas atividades, suas reflexões e pelos textos que produziu, adquiriu o direito de ser promovido a filósofo do nosso tempo. Essa rara condição, intelectual verdadeiro, aliada às posturas indignadas que normalmente lhe correspondem, são, em nossa opinião, algumas das principais características presentes na trajetória, na obra e nas diversas manifestações do velho professor de geografia. Ao realce, portanto, dessas características -de intelectual indignado-, pretendemos dedicar essa breve homenagem.

O combate à "universidade de resultados" e seus "pesquiseiros"
 

A indignação e o compromisso com seu tempo levaram Milton Santos a esgrimir palavras e compor manifestações apaixonadas contra todo o tipo de injustiça, de desigualdade e, mais recentemente, contra o que ele próprio denominava de a grande e global"confusão dos espíritos"[2].

Em praticamente nenhuma dessas manifestações o professor foi leniente com o incômodo silêncio e a omissão conivente, diante dos grandes temas e urgências da atualidade, a que muitos de seus pares e as respeitadas (e lentas) instituições que os albergavam costumavam se entregar. Daí, sem muito esforço, é possível observar um traço comum às indignadas manifestações com que sempre nos brindou, pois mesmo que tratassem dos mais variados assuntos, produziam uma"geografia" que, antes de mais nada (e parafraseando o título que Yves Lacoste deu a um de seus mais famosos livros), travava batalhas em seu próprio território: o meio intelectual e as universidades.

Inconformado com certa intelectualidade, omissa e silente, que diante das injustiças se cala e diante da confusão global nada oferece, em uma de suas últimas obras declarava:

"O terrível é que, nesse mundo de hoje, aumenta o número de letrados e diminui o de intelectuais. Não é este um dos dramas atuais da sociedade brasileira? Tais letrados, equivocadamente assimilados aos intelectuais, ou não pensam para encontrar a verdade, ou, encontrando a verdade, não a dizem. Nesse caso, não se podem encontrar com o futuro, renegando a função principal da intelectualidade, isto é, o casamento permanente com o porvir, por meio da busca incansada da verdade"[3].

Evidentemente, as universidades e os processos educacionais que as alimentam, dando guarida ou sendo dirigidos por (e para) essas mencionadas"deformações letradas", não seriam poupados desse mesmo tom de críticas

Há tempos, Milton Santos voltava sua"artilharia" contra as armadilhas produzidas pelas políticas e gerências equivocadas que, em sua opinião, haviam desviado a universidade, as escolas e toda a estrutura educacional, de propósitos mais nobres e conectados com os valores profundos da existência humana, para os itinerários amesquinhados pelas urgências do chamado mercado. Nesse desvio de metas se poderia encontrar, segundo o prof. Milton, uma das principais razões da inépcia intelectual e da inércia social que normalmente lhe é correspondente.

Em um seu livro de 1987, O Espaço do Cidadão, tais denúncias e análises praticamente costuram o conteúdo que ao longo de toda obra se expõe e podem ser muito bem sintetizadas pelo seguinte trecho:

"A educação corrente e formal, simplificadora das realidades do mundo, subordinada à lógica dos negócios, subserviente às noções de sucesso, ensina um humanismo sem coragem, mais destinado a ser um corpo de doutrina independente do mundo real que nos cerca, condenado a ser um humanismo silente, ultrapassado, incapaz de atingir uma visão sintética das coisas que existem, quando o humanismo verdadeiro tem de ser constantemente renovado, para não ser conformista e poder dar resposta às aspirações efetivas da sociedade, necessárias ao trabalho permanente de recomposição do homem livre, para que ele se ponha à altura do seu tempo histórico."[4]

Por outros meios, diferentes da interlocução fria, com público incerto, que as páginas de livros e textos acadêmicos proporcionam, as denúncias e o combate não arrefeciam. Pelo contrário. Nas oportunidades em que podia expor suas idéias olhando nos olhos de seus interlocutores, muitas vezes seus pares, colegas, alunos e outros freqüentadores de seu espaço de trabalho cotidiano, Milton Santos, tornava-se ainda mais contundente nas críticas a uma universidade que se deixava corromper pela urgência dos"resultados" e nas denúncias de uma certa"intelectualidade" que a tudo assistia calada, pois, desse processo se beneficiava. Numa aula inaugural para alunos de sua faculdade na Universidade de São Paulo, disparou:

"Em nome do cientismo, comportamentos pragmáticos e raciocínios técnicos, que atropelam os esforços de entendimento abrangente da realidade, são impostos e premiados. Numa universidade de ‘resultados’, é assim escarmentada a vontade de ser um intelectual genuíno, empurrando-se mesmo os melhores espíritos para a pesquisa espasmódica, estatisticamente rentável. Essa tendência induzida tem efeitos caricatos, como a produção burocrática dessa ridícula espécie de ‘pesquiseiros’, fortes pelas verbas que manipulam, prestigiosos pelas relações que entretêm com o uso dessas verbas, e que ocupam assim a frente da cena, enquanto o saber verdadeiro praticamente não encontra canais de expressão."[5]

Apesar destas denúncias e temas -a instrumentalização da universidade, a educação simplificadora, a conivência e a omissão dos falsos intelectuais-, serem, como dissemos, assuntos recorrentes e obrigatórios em muitas de suas obras, raramente se constituiam nos seus temas centrais. As referências e citações que aqui fizemos, por exemplo, foram extraidas de contextos dedicados à discussão de temáticas específicas, tais como, as características gerais do atual processo de globalização, uma avaliação geográfica da condição da cidadania no Brasil e reflexões sobre a questão ecológico-ambiental na atualidade.[6]
 

Globalização reversível, cidadania por inteiro e um convite a filosofar
 

Os assuntos recorrentes e a forma contundente com que a eles Milton Santos se refere, em cada contexto e a cada nova vez, parecem querer produzir o efeito de compartilhar o profundo desapontamento com algumas instituições, lugares e personagens dos quais se esperariam papel protagonista no encaminhamento de soluções e idéias mobilizadoras, mas que, ao contrário, vinham crescentemente convertendo-se em alguns dos principais obstáculos a serem enfrentados.

A combatividade e a indignação do professor, no entanto, não se esgotavam na abordagem dos assuntos recorrentes e, é claro, não arrefeciam, nem mesmo quando ele se dedicava ao desenvolvimento dos tais temas centrais que os contextualizavam. Apenas com mais algumas referências aos exemplos que já mencionamos seria possível constatar isso.

Em O espaço do cidadão, por exemplo, numa época em que muitos acreditavam estar trazendo grandes contribuições, apenas por enaltecer a conquista e a promoção do respeito aos chamados"direitos do consumidor", Milton Santos denunciou o reducionismo e as consequências nefastas de tais atitudes. Para começar, chamou-nos a atenção para o fato de que por trás desse enaltecimento e dessa adesão a um conceito vazio, estava em curso uma tentativa avassaladora de reduzir o sentido da cidadania e a luta por sua conquista (com suas implicações jurídicas, políticas e sociais), a um mero jogo de relacionamentos de mercado e de conexões comerciais:"Em lugar do cidadão formou-se um consumidor, que aceita ser chamado de usuário"[7]. Mas, tomar uma coisa pela outra, seguia dizendo o velho professor, reduz a idéia de cidadania a uma mera realização pessoal e, conseqüentemente, esvazia seu sentido e desmobiliza as pessoas, que abdicam dos seus relacionamentos sociais, da construção e aprimoramento dos seus espaços coletivos (países, Estados, nações, comunidades etc.), em prol de um falso e irrealizável jogo de conquistas individuais:

"Quando se confundem cidadão e consumidor, a educação, a moradia, a saúde, o lazer aparecem como conquistas pessoais e não como direitos sociais. Até mesmo a política passa a ser uma função do consumo. Essa segunda natureza vai tomando lugar sempre maior em cada indivíduo, o lugar do cidadão vai ficando menor, e até mesmo a vontade de se tornar cidadão por inteiro se reduz."[8]

Já, na mencionada aula inaugural, 1992: A redescoberta da natureza, Milton Santos aproveitou o ensejo para nos alertar quanto ao perigo de banalização do tema, a superficialidade midiática que se tem emprestado ao seu tratamento, além do servilismo oportunista com que muitos têm se entregado ao filão ambiental, prenhe de verbas, de possibilidades empregatícias e comerciais. De saída, anuncia que abordar a sério o tema proposto, significa, ao contrário do que muitos poderiam pensar, predispor-se a abraçar um nível profundo de reflexão. Nesse sentido, convida-nos, antes de mais nada, a filosofar -"estamos chamados a filosofar e a filosofia não é mais um privilégio dos filósofos"[9]-, e justifica o convite:"O tema (1992: a redescoberta da Natureza) é um desses que a atualidade nos impõe, mas deve ser abordado cautelosamente, já que nesse assunto a força das imagens ameaça aposentar prematuramente os conceitos. Por isso, cumpre, urgentemente, retomá-los e , eventualmente, refazê-los. Nessa tarefa, não nos devemos deixar circunscrever pelos ditames de uma pesquisa automática, instrumentalizada, nem aceitar o pré-requisito de nenhum enunciado."[10] Ao encerrar sua aula, após desenvolver as críticas, a que já fizemos referência, ao oportunismo e à superficialidade com que muitos tem se entregado ao tratamento do tema, apela para a capacidade heróica, que ainda acredita resistir em alguns dos seus pares, de desviar esse tratamento para uma rota mais coadunada com o espírito da Casa que os emprega:

"O empenho com que nos convocam para tratar, seja como for, as questões do meio ambiente, sem que um espaço maior seja reservado a uma reflexão mais profunda sobre as relações, por intermédio da técnica, seus vetores e atores, entre a comunidade humana assim mediatizada e a natureza, assim dominada, é típico de uma época e tanto ilustra os riscos que corremos, como a necessidade de, em todas as áreas do saber, agir com heroísmo, se desejamos poder continuar a perseguir a verdade."[11]

Por fim, concluindo essa breve série de exemplos, ilustrativos da combatividade com que Milton Santos se entregou ao tratamento acadêmico de determinados temas, como haviamos nos proposto, voltemos ao seu último livro, individualmente elaborado -Por uma outra globalização. Aí, em um momento de quase rendição de tudo e todos ao processo de globalização, que muitos já consideravam inexorável, inelutável e irreversível, Milton Santos chama a atenção para o caráter perverso e totalitário do processo em curso -"vivemos numa época de globalitarismo muito mais que de globalização"[12]-, e, ignorando todos os modismos, aposta e deposita suas fichas de esperança na criatividade dos pobres em conduzir-nos ao conhecimento de uma saída alternativa para a perversidade globalmente instalada:"Miseráveis são os que se confessam derrotados. Mas os pobres não se entregam. Eles descobrem a cada dia formas inéditas de trabalho e de luta. Assim, eles enfrentam e buscam remédio para suas dificuldades. Nessa condição de alerta permanente não têm repouso intelectual."[13] Como não podia deixar de ser, nesse momento da abordagem, Milton Santos, retorna ao seu tema recorrente, acusando a incapacidade dos setores pensantes e vigilantes em perceber o potencial de criatividade dos pobres:"A socialidade urbana pode escapar aos seus intérpretes, nas faculdades; ou aos seus vigias, nas delegacias de polícia. Mas não aos atores ativos do drama, sobretudo quando, para prosseguir vivendo, são obrigados a lutar todos os dias."[14] Na conclusão dessa sua derradeira obra, sugere já haver, em parte graças ao curso da própria globlalização, os meios, as técnicas e as idéias para, se quisermos, subverter a tal"irreversibilidade" do processo global contemporâneo, dotando-o de caraterísticas efetivamente mais globalizadas, isto é, menos"globalitárias", e mais sintonizadas com aspirações que conduzam a espaços de vida decentes para todos:

"É muito difundida a idéia segundo a qual o processo e a forma atuais da globalização seriam irreversíveis. (...) No entanto, essa visão repetitiva do mundo confunde o que já foi realizado com as perspectivas de realização. (...) O mundo de hoje também autoriza uma outra percepção da história por meio da contemplação da universalidade empírica constituída com a emergência das nova técnicas planetarizadas e as possibilidades abertas a seu uso. A dialética entre essa universalidade empírica e as particularidades encorajará a superação das práxis invertidas, até agora comandadas pela ideologia dominante, e a possibilidade de ultrapassar o reino da necessidade, abrindo lugar para a utopia e para a esperança. (...) Diante do que é o mundo atual, como disponibilidade e como possibilidade, acreditamos que as condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada mutação, mas seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveitadas pela política. Na sua forma material, unicamente corpórea, as técnicas talvez sejam irreversíveis, porque aderem ao território e ao cotidiano. De um ponto de vista existencial, elas podem obter um outro uso e uma outra significação. A globalização atual não é irreversível."[15]

Além dos muros da universidade, o circuito se completa
 

Por outros meios, não propriamente acadêmicos, mas apropriados e obrigatórios para completar o circuito de difusão das idéias e reflexões que identificam o intelectual de verdade, Milton Santos seguia ousando e debatendo com igual rigor e seriedade as suas convicções. Seguia"casado com seu tempo".

Na conversa com o grande público, em debates e diálogos com outros campos do conhecimento, outros poderes e outras instituições, ou em artigos de jornal e, até mesmo, em entrevistas concedidas aos programas de TV, o inconformismo, a indignação e a combatividade emprestada aos temas jamais arrefeceram.

E apenas considerando as suas manifestações dos últimos anos, já se poderia ter uma ampla confirmação disso, tanto com relação àqueles temas que há pouco chamamos de recorrentes, como em relação a diversos outros assuntos sugeridos pelos momentos ou pelos espaços de divulgação que o instavam a se manifestar.

Em diversos artigos e ensaios publicados especialmente em jornais de grande circulação no Brasil, a questão da educação, da universidade e do papel dos intelectuais, jamais deixou de merecer aquele mesmo tratamento, de seriedade indignada, que poderíamos encontrar nas manifestações e produções chamadas acadêmicas.

Dos intelectuais, por exemplo, seguiu cobrando atitudes menos fugazes, menos conjunturalmente partidarizadas, e mais fundadas nas estruturas de permanência que interessam às aspirações de conjuntos mais ampliados da população:

"Como no mundo atual nada se faz sem o respaldo de idéias, é aí que aparece o novo papel do intelectual na reconstrução democrática do Brasil. O intelectual não pode ser dúbio nem oportunista. Mas, nas circunstâncias atuais, a intelectualidade é chamada a exercer uma militância ambigua, quando voltada a repetir discursos fátuos, slogans e palavras de ordem mais destinados à mobilização do que à produção gradual de uma consciência coletiva. (...) Aí entra o papel independente dos intelectuais. Na medida em que estes façam eco às demandas profundas das populações, expressas pelos movimentos populares (organizados ou não), servirão como vanguarda na edificação de projetos nacionais alternativos."[16]

Dos projetos educacionais subordinados às lógicas perversas do"pragmatismo triunfante", com sua pressa por resultados e suas perspectivas mercantis, Milton Santos seguiu denunciando suas conseqüências nefastas para as escolas e as universidades, transformadas por esses projetos em verdadeiros"celeiros de deficientes cívicos."[17]

Mas, além dos chamados temas recorrentes, diversos outros também foram abordados nesses meios não acadêmicos, particularmente em artigos de jornal. Entre eles, a questão da linguagem, do território, da tecnologia, da globalização, da população negra, da história ou da geografia, enfim[18]. Para todos eles o professor seguiu imprimindo sua marca registrada: denúncia, combatividade e indignação, aliados ao necessário tratamento de rigor e de reflexão aprofundada que os assuntos exigiam.

O tema do preconceito racial, particularmente sobre a questão do negro no Brasil, não mereceu por parte do professor nenhum tratamento especial. Apesar das expectativas, muitas delas alimentadas por vieses preconceituosos, em poucas ocasiões esse tema foi alçado à condição de assunto preferencial. E, quando isso acontecia, recebia o mesmo tratamento dispensado aos demais, apenas acrescido de alguma referência direta às tais expectativas que alguns preconceitos ainda alimentavam.

Ambos -tratamento e acréscimo-, podem ser conferidos em um artigo -"Ser negro no Brasil hoje"- em que Milton Santos faz referência ao mea-culpa da Igreja Católica, por suas atitudes com relação à população negra e indígena durante o período colonial, e também aos convites oportunistas que crescentemente vinham sendo dirigidos ao próprio professor. Com relação ao mea-culpa Católico, afirmou:

"Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica! O próprio presidente da República considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a frequentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas."

E, com relação aos convites oportunistas, acrescentou:"Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro - imagem fácil- e não as minhas aquisições intelectuais, após uma vida longa e produtiva."[19]

Esse espírito, avesso às tergiversações, franco e certeiro quanto aos alvos, pode ser conferido também nas manifestações diretas, proporcionadas por outros meios que não só a imprensa escrita. Em seminários, palestras ou entrevistas na TV e outros veículos, a presença de Milton Santos passou a ser também bastante requisitada nos últimos anos.

Nesses casos, dependendo do contexto e da interlocução, o velho professor temperava suas manifestações com estilos que poderiam variar da ênfase cortante à afabilidade, segundo as contradições ou identidades que os diálogos permitissem apurar.

Houve situações que o professor foi bastante duro no diálogo, tanto para defender seus pontos de vista, sobre quaisquer um daqueles temas acerca dos quais costumava dissertar, como para criticar o próprio papel da mídia ou da instituição que o acolhia.

Em pelo menos duas ocasiões, mais ou menos recentes, que ficaram marcadas até pela repercussão que provocaram, essas situações de aspereza puderam ser verificadas. Uma delas, num famoso programa de entrevistas da TV brasileira[20], e, outra, em uma palestra proferida na Câmara dos Deputados, quando esta promoveu uma série de seminários por acasião dos 500 anos de descoberta do Brasil. Desta última, vale à pena, para ilustrar, destacar os seguintes trechos:"(...) com a globalização, não são os políticos que fazem política. A política é feita pelas grandes empresas. Os políticos são, de maneira quase geral, porta-vozes. Eles elaboram os discursos de interesse da grande empresa, sobretudo porque muitos estão convencidos, outros são convencidos, e outros sem estar convencidos, falam assim mesmo. Só há uma solução na cabeça e no coração dessas pessoas: é essa globalização perversa, que modifica o caráter da nação."[21]

Aproveitando o ensejo para reforçar o papel das atitudes e dos personagens nos quais mais acreditava afirmou, nessa mesma ocasião:"Que os deputados não nos ouçam, está bem, mas os intelectuais não são feitos para audiência dos poderosos. Jamais houve conciliação, por mínima que fosse, entre alguém que se imagine um verdadeiro intelectual e o trabalho cotidiano do homem de poder. Há mesmo uma contradição. O trabalho do intelectual é feito para ser entregue à população, se possível, por meio da sociedade civil e organizada, que inclui os partidos, e, se não possível, de forma selvagem como a presença aqui..."[22]

Estilos mais afáveis e receptivos, Milton Santos reservava para aqueles momentos em que os diálogos, meios e interlocutores pareciam conspirar para a construção de caminhos favoráveis às novidades, aos vínculos com as tradições e necessidades populares, às conexões dos intelectuais e seus tempos e às percepções integrais dos seres humanos. Exemplos bastante ricos e ilustrativos dessas situações, podem ser claramente observados nas ocasiões em que Milton Santos teve a oportunidade de dialogar com artistas de expressão no Brasil. Em um desses diálogos o próprio Milton Santos sintetiza as razões dessas sintonias: "Quem pensa o novo são os homens do povo e seus filósofos, que são os músicos, cantores, poetas, os grandes artistas e alguns intelectuais."[23]

* * *

Hoje, completa-se já quase um ano da morte daquele que foi um do nossos principais intelectuais. O impacto de sua morte, a triste perspectiva de sua ausência e a interrupção do fluxo normalmente impactante de suas idéias, além, é claro, da volumosa produção que deixou registrada em dezenas de livros e centenas de artigos, geraram, ao longo desse último ano, inúmeras e justas homenagens. Nelas, diversos aspectos da contribuição teórica de Milton Santos foram examinados: a condição de geógrafo, a carreira acadêmica brilhante, as láureas recebidas, a discussão metodológica, o rigor científico e a dedicação à reflexão epistemológica.

Sobretudo, como sói acontecer nessas ocasiões, destacou-se reiteradamente a contribuição que o ex-advogado trouxe para a sua comunidade profissional de adoção, os geógrafos, e, conseqüentemente, a perda que sua morte significou para a ciência que praticam.

Na sua"cerimônia de adeus", à beira de seu túmulo, no entanto, os geógrafos se calaram. Respeitosamente escutaram artistas, políticos, sindicalistas e militantes de movimentos sociais, falarem da importância do velho professor.

Para quem, como Milton Santos, em várias ocasiões fez questão de deixar clara sua opção pela conduta intelectual que mais admirou, a do filósofo Jean-Paul Sartre, a amplitude dos setores sociais ali presentes e representados, bem como as manifestações que a partir daí se seguiram, indicam claramente que nessa opção, sartriana, ele logrou sucesso. E lograr sucesso nesse caminho, como aprendemos nas próprias aulas do prof. Milton, equivale a ser reconhecido como alguém que foi"casado com seu tempo" e com as grandes causas da existência humana, a serviço das quais os intelectuais de verdade colocam suas melhores idéias e convicções.

Intelectuais assim não existem a rodo. Pelo contrário. Nos tempos que correm, pressionados pelo chamado mercado, pelas"universidades de resultados", pela confusão global, pelo desprestígio dos valores da existência, pela hegemonia da economia, pela ditadura das grandes corporações, pela urgência da instantaneidade, pelo pragmatismo irresponsável, etc., grassam os oportunistas, manipuladores de verbas e pensadores de ocasião. Tudo que almejam, esses "acadêmicos de resultados", com suas reflexões rápidas, superficiais e descartáveis, é o reconhecimento midiático e o sucesso financeiro, que aos mais competentes (quer dizer, aos mais competitivos), o tal mercado oferece de bom grado e instantaneamente.

Portanto, diante de um ambiente nada propício para os adeptos de uma conduta sartriana e diante da crescente escassez de pensadores que assim se conduzem, a consciência de que se perdeu mais um deles é dolorosa. Talvez para amenizá-la é que nos propusemos a ressaltar aqui, nesta breve homenagem, a faceta de indignação, presente nas obras e nas manifestações apaixonadas do professor Milton Santos. Essa indignação, sobretudo contra a perversidade e a injustiça que submetem grande parte das pessoas, é que conduz alguns pensadores a abraçarem as grandes causas de seu tempo e se tornarem perenes nos corações e nas mentes daqueles que costumam vivê-lo e sofrê-lo com mais intensidade.

Em tempos fugazes, de desvalorização das atitudes mais reflexivas, de baralhamento e inflação de signos, de confusão produzida, de banalização dos conceitos e de desrespeito aos que pensam e aos que existem, observar as trajetórias percorridas e indicadas por alguns daqueles raros pensadores, que ainda ousaram propor a desconfusão, subordinar-se aos seus próprios relógios, estabelecer seus próprios caminhos, reabrir a história e reafirmar utopias, é nossa obrigação.



 

Notas

[1]Morin, 1995, p. 176.

[2]Milton Santos em uma de suas últimas obras, em um capítulo destinado à crítica do conteúdo totalitário do atual processo de globalização, exortava:"Nossa grande tarefa, hoje, é a elaboração de um novo discurso, capaz de desmistificar a competitividade e o consumo e de atenuar, senão desmanchar, a confusão dos espíritos." (Santos, 2000, p. 55).

[3]Ib., p. 74.

[4]Santos, 1987, p. 42

[5]Santos, 1992, p. 11.

[6]São esses os três conjuntos de assuntos que caracterizam os contextos de onde extraímos as três últimas citações mencionadas neste artigo. Os temas referem-se, respectivamente, aos textos mencionados nas útlimas três notas.

[7]Santos, 1987, p.13.

[8]Ibid. p. 127.

[9]Santos, 1992, p. 3

[10]Ibid.

[11]Ibid., p. 11 e 12.

[12]Santos, 2000, p. 55.

[13]Ibid., p.132.

[14]Ibid.

[15]Ibid., pp 160, 168, 173 e 174.

[16]Jornal Folha de São Paulo (FSP), 07/12/97:"As duas esquerdas". Ver também FSP, 20/06/99:"A vontade de abrangência"

[17]FSP, 24/01/99:"Os deficientes cívicos".

[18]ver, por exemplo, os artigos publicados ao longo dos anos 90, 2000 e 2001, no jornal FSP, especialmente"O recomeço da história" (09/01/2000) ,"Ser negro no Brasil hoje" (7/5/2000),"O tempo despótico da lingua universalizante" (5/11/2000),"O novo século das luzes" (14/01/2001) e"Elogio da lentidão" (11/03/2001)

[19] FSP, 7/5/2000.

[20]Aqui nos referimos especificamente a uma entrevista concedida por Milton Santos a um dos mais famosos jornalistas da televisão brasileira, Boris Casoy, exibida em rede nacional pela TV Record em 23/04/2000.

[21]Santos, M."Que parlamento para o século XXI? Desafios e perspectivas frente à mundialização", 04/04/2000 . Disponível em: http://www.camara.gov.br/

[22] Ibid.

[23]Declaração extraída de entrevista concedida a Gilberto Gil, compositor e cantor popular brasileiro, disponível em http://www.gilbertogil.com.br/. V. também diálogo entre Denise Stoklos, atriz e dramaturga brasileira, e Milton Santos, disponível emhttp://www.teatrobrasileiro.com.br/entrevistas/stoklos-santos.htm.


 

Bibliografia

MORIN, E. Os Meus Demônios. Lisboa: Publicações Europa-América, 1995. 233 p.

SANTOS, M. O Espaço do Cidadão. São Paulo: Nobel, 1987. 142 p.

SANTOS, M. 1992: A Redescoberta da Natureza. São Paulo: FFLCH/USP 1992, (mimeo). 12 p.

SANTOS, M. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000. 174 p.

© Copyright Marcos Bernardino de Carvalho, 2002
© Copyright Scripta Nova, 2002

Ficha bibliográfica:

CARVALHO, M. B. "Milton Santos: intelectual, geógrafo e cidadão indignado". In: El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos. Scripta Nova. Revista electrónica de geografía y ciencias sociales, Universidad de Barcelona, vol. VI, núm. 124, 30 de septiembre de 2002.http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm [ISSN: 1138-9788]

Textos capturados na Internet

Portal Milton Santos

 

Universidade

"A universidade é o lugar de intelectuais, o sujeito que dedica todo o tempo a busca da verdade, e também de letrados. Você pode ser um bom professor e um pesquisador. Tem espaço para os dois na universidade. Mas, é verdade também que, embora ela esteja formando intelectuais, ela tem produzido em maior número letrados. O espaço universitário se define por ser o lugar do livre pensar, de criar idéias e discuti-las. Esse é o sentido real da vida universitária. No entanto, acho que o clima atual não favorece a liberdade de pensar."

"Nesta fase de globalização, onde as coisas mais importantes são precedidas por um discurso ideológico, as idéias são apresentadas de forma confusa. Fica difícil criticá-las. (...) Uma das razões de hoje existir a tendência ao pensamento único, está dentro da própria instituição de ensino (...) A regra vigente é a regra do resultado. Não existe ética nesse contexto. O sistema universitário, no qual deveria prevalecer a diversidade de idéias, tem sido vítima da doença da globalização, isto é, a tendência a um pensamento único. E a universidade não tem defesa completa contra essa doença."

Homens pobres e lentos

"Os pobres nunca tiveram poder político. Hoje, eles têm uma cultura sua, e essa cultura é produzida em relação com o território e com a vida. E é por isso que essa cultura é matriz de uma nova política. Você tem explosões, manifestações de diversos tipos, 'desordens', mas uma busca de sentido. Não é a Lyonnaise des Aux que busca sentido, quem busca sentido são as populações dos lugares. O resultado imediato é a fratura dentro dos aparelhos dos partidos: todos os partidos são fraturados, uma parcela que busca soluções 'corretas' e outras parcelas que são da política tradicional."

"Estamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva provirá de um movimento de baixo para cima, tendo como atores principais os países subdesenvolvidos e não os países ricos; os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras classes obesas; o indivíduo liberado, partícipe das novas massas, e não o homem acorrentado; o pensamento livre e não o discurso único. Os pobres não se entregam e descobrem a cada dia formas inéditas de trabalho e de luta; a semente do entendimento já está plantada e o passo seguinte é o seu florescimento em atitudes de inconformidade e, talvez, rebeldia."

Violência

O caldo de cultura que baliza a vida já é violento em si. A globalização exige de todos os atores, de todos os níveis e em todas as circunstâncias, que sejam competitivos. Esse processo exige que empresas, instituições, igrejas sejam competitivas. A competição estimula a violência porque a regra que vigora é a regra do resultado. Não existe ética. Quando, por exemplo, se privilegia, no ensino secundário, a formação técnica, sem nenhum conteúdo humanístico, está se criando mais um caldo de cultura que estimula atitudes violentas."

"A violência dá impressão de ser incontrolável, mas não é irreversível. Hoje, nós temos um mundo, quero dizer com isso que ao mesmo tempo que a globalização incentiva a violência, ela favorece sua extinção. A facilidade de comunicação favorece a construção de um sentimento de solidariedade mundial. Essa é a contradição do processo de globalização. Nós temos que engrossar o lado positivo do processo globalitário, usar a idéia de civilização em benefício da humanidade. Isso não é impossível."

Globalização

"A globalização, parafraseando o compositor Lenine, é a face suprema do imperialismo. A humanidade esperou milênios para se globalizar, o que não aconteceu antes porque não havia as condições materiais necessárias. Com o aumento da produção e o desenvolvimento de técnicas avançadas, um pequeno grupo de empresas as seqüestrou. As corporações usam estes recursos extraordinários em seu próprio benefício e em prejuízo da humanidade."

"Diante do que é o mundo atual, as condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação, mas seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveitadas pela política. A globalização atual não é irreversível (...)

Há um turbilhão, uma efervescência, de baixo, que a gente não está podendo captar completamente ainda, mas que há e que vai, um dia ou outro, confluir com a produção de idéias para forçar um outro caminho."

Cidadania e Consciência Negra

"Ser cidadão, perdoem-me os que cultuam o direito, é ser como o estado, é ser um indivíduo dotado de direitos que lhe permitem não só se defrontar com o estado, mas afrontar o estado. O cidadão seria tão forte quanto o estado. O indivíduo completo é aquele que tem a capacidade de entender o mundo, a sua situação no mundo e que se ainda não é cidadão, sabe o que poderiam ser os seus direitos."

"O modelo cívico brasileiro é herdado da escravidão, tanto o modelo cívico cultural como o modelo cívico político. A escravidão marcou o território, marcou os espíritos e marca ainda hoje as relações sociais deste país."

"Tenho instrução superior, creio ser personalidade forte, mas não sou um cidadão integral deste país. O meu caso é como o de todos os negros deste país, exceto quando apontado como exceção. E ser apontado como exceção, além de ser constrangedor para aquele que o é, constitui algo de momentâneo, impermanente, resultado de uma integração casual."

Cidade

"O ser humano agora é convocado a não ser ético. E às vezes as pessoas seguem essa tendência porque precisam sobreviver, criar os filhos, sustentar a família. Mas, no fundo, todos guardam a consciência do que é bom, com a esperança de utilizá-la um dia."

"A cidade é o único lugar em que se pode contemplar o mundo com a esperança de produzir um futuro. Mas se criou toda uma liturgia anticidade. A cidade, porém, acaba mostrando que não existe outro caminho senão o socialismo. Para evitar que as pessoas acreditem nisso, há todo um foguetório ideológico para dizer que a cidade é uma droga. Imagine ir morar num campo. Só um louco quer morar em uma cidadezinha do interior."

Informação

"Não há produção excessiva de informação, mas de ruído. Existem o fatos. As notícias são interpretação deles. Como as agências de notícias pertencem às grandes empresas, os acontecimentos são analisados de acordo com interesses pre-determinados. Muitos economistas que escrevem em jornais, por exemplo, publicam diariamente o desejo de empresas das quais são consultores. As notícias são publicadas como expressão da realidade e o discurso acaba se tornando hegemônico. É essa mesma indústria que transforma em best seller um livro do Jó Soares, antes mesmo do lançamento."

"Acho que o território é a mensagem. Nele, estamos todos juntos e separados. Somos conduzidos igualmente a um destino e obtemos resultados diferentes. Em Belo Horizonte, por exemplo, estão todos juntos: ricos, pobres, classe média, brancos, negros, índios. A técnica em si não é a mensagem. Ela só é utilizada por quem tem poder: as grandes agências de notícias, universidades, editoras e as igrejas locais. São essas instituições que seqüestram os meios."

Brasil

"O Brasil é um exemplo de pais para o qual a modernidade, em todas as fases de sua história nos últimos cinco séculos, impõem-se, sobretudo, como abertura aos ventos de fora. Como essa abertura foi quase sempre ilimitada e sem freios, a modernidade à moda brasileira é igualmente sinônimo de abandono. É como se aqui não fosse possível adotar as inovações criadas no mundo se não como cópia do pólo criador e difusor de novidades (Europa, depois os EUA...)."

"Recentemente, com o neoliberalismo, é freqüente o abandono da idéia do nacional brasileiro, com a sedução de um imaginário influenciado por forte apelo da técnica e aceitação tranqüila da força totalitária dos fatores da globalização."

"A vocação homogeneizadora do capital global é exercida sobre uma base formada por parcelas muito diferentes umas das outras e cujas diferenças e desigualdades são ampliadas sob tal ação unitária (...); é por este prisma que deve ser vista a questão da federação e da governabilidade da nação: na medida em que o governo da nação se solidariza com os desígnios das forças externas, levantam-se problemas cruciais para Estados e municípios".

Mundo

"O processo capitalista une, de forma desigual e combinada, países ativos, dos quais se irradiam as grandes mudanças e que delas se beneficiam, e países passivos, onde a grande maioria da humanidade vive na pobreza, segundo diversos graus de intensidade. Modernização e agravamento da desigualdade tem sido uma constante, constituindo, aliás, o lado perverso da difusão do progresso sobre a face do planeta."

"A grande originalidade do presente período histórico é a visibilidade, em todos os cantos do mundo, das novas possibilidades oferecidas por ele e a consciência de que é possível uma multiplicidade de combinações. Estas não têm que ser obrigatoriamente condutoras de alienação, podendo construir-se a partir de um modo de ser característico da nação considerada como um todo, uma edificação secular onde as mudanças não suprimam a identidade, mas renovem o seu sentido a partir das novas realidades. Não se trata, assim, de recusar o mundo, mas de assegurar um movimento conjunto, em que o país não seja exclusivamente tributário, mas soberanamente partícipe na produção de uma história universal."

 

 

CONFERÊNCIA MAGNA DR. MILTON SANTOS - USP

 

I SEMINÁRIO NACIONAL
SAÚDE E AMBIENTE NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO - 12 - 07 - 00

     

Sou extremamente sensível à enorme delicadeza do convite que Dra Minayo me estendeu para estar aqui presente e falar, e talvez fosse mais proveitoso para todos que eu estivesse presente apenas para escutar. Foi aliás a minha primeira decisão, a de escutar, porque o convite me trouxe um grande medo. Os que trabalham questões epistemológicas, isto é, a filosofia particular a cada ramo do saber, sabem que, é extremamente perigoso, perigoso é um termo, falar diante de especialistas, ainda que, filósofos de outro ramo de saber.

A única justificativa para minha ousadia é em primeiro lugar a minha ousadia. Mas é também o fato de que, o que une as disciplinas todas, é o mundo, e o mundo se havendo tornado acessível a todos nós nesse fim de século, a filosofia, de alguma maneira, se cientificiza e se coloca à disposição não dos filósofos, alguns dos quais decidiram tornar-se técnicos em filosofia, abrindo espaço para que a filosofia produzida em cada campo de saber seja operacional, é com essa desculpa que vou falar. Espero que aceitem a desculpa agora e sobretudo depois.

Tenho que o convite que me foi feito, vem do fato de que, não sou outra coisa que um geógrafo. Um geógrafo que se dedicou ao longo da vida com a sorte de viver até o fim do século às coisas do mundo, agora que o mundo decidiu colocar-se ao alcance da nossa mão. Isso me permite alguns atrevimentos.

Primeiro vai ser exatamente o de expor o que eu penso dessas palavrinhas aí, meio ambiente, que me incomodam profundamente. Não é uma questão profissional, agora chamam corporativo, é que o meio ambiente é apenas uma metáfora. Não é possível teorizar a partir do meio ambiente, quando é só uma metáfora. O que há é o meio, que por simplificação às vezes se chama meio ambiente, mas o que constitui também uma redução.

Uma redução que, como a expressão está dizendo, limita o raciocínio e pode trazer um perigo de equívoco que desejamos ultrapassar, uma acepção puramente técnica do que vive, e alcançar essa visão global sem a qual o humanismo pode ficar no discurso e ser portador de uma moralidade, mas não de uma moral. O que distingue a moral da moralidade é que a moral é o fundamento da política, e nada se resolve, mas nada, a partir mesmo do domínio da técnica, sem que o dado político seja posto em primeiro lugar.

Quando eu falo em política não estou me referindo à política com o p minúsculo da qual estamos desgraçadamente muito longe, mas aquela outra que é o desejo dos homens que pensam e que desejam e que pretendem com seu trabalho, melhorar o mundo para que melhore o seu país e o seu lugar. Na realidade, a geografia e minha disciplina tem algumas responsabilidades nisso, porque trabalhamos durante o século a partir da vertente européia, com visões que, na realidade mais prejudicam que iluminam o debate da história do presente. Uma dessas visões é a visão do território freqüentemente confundida com a visão do ambiente. 

Na realidade, o território tão pouco é uma categoria analítica. A categoria analítica é o território usado pelos homens, o território utilizado pelos homens, tal qual, tal qual ele é, o espaço vivido dos homens, mas de todos os homens, que também é o teatro da ação, de todas as empresas, de todas as instituições, esse espaço banal, de que as cidades são hoje, é a grande representação e a grande esperança.

Eu queria fazer essa primeira aclaration, o que eu imagino que ela se impõe para que não tenha eu que recorrer a cada vez a uma nota infra-paginal, essas famosas notas infra-paginais, tantas vezes chatas, no decorrer da minha breve, espero que breve, exposição. Como viram essa foi uma introdução.

O que eu quero dizer mesmo, é que a busca da utopia, é algo de ancestral e companheiro do homem, porque o que distingue o homem dos outros animais não é esse dedão, é exatamente o fato de que ele é portador de utopia. Eu sei que hoje se costuma ridicularizar quem fala em utopia, mas não me preocupo em insistir que sem ela não vale a pena viver, e sem ela tão pouco é possível pensar porque o pensamento não é produzido a partir do que houve, nem do que há.

O pensamento portador de frutos é apenas produzido a partir do que pode, é isso que nos reúne aqui, nessa sala, é isso que reúne os homens de boa vontade em toda parte. Ora, essa utopia secular, milenar, expressa de diferentes maneiras, pelas diferentes civilizações, codificadas pelos filósofos, acaba nesse século que agora se escoa de encontrar um reforço graças ao fato de que, o prometido casamento entre técnica, isto é, modos de fazer, e a ciência, produção na mente dos modos de fazer a partir dos modos de ser, começa a se tornar algo impossível. Esse século conhece e foi, depois da evolução separada do que era propriamente técnico, fundado na experiência, e do que era científico fundado na reflexão, esta convergência entre uma coisa e outra, essa convergência que deu sempre ao homem a possibilidade de pensar que amanhã teremos um mundo melhor. Ora, os homens e mulheres, perdão, as mulheres e os homens, que se ocupam da questão da saúde são possivelmente, entre todos nós, aqueles que mais claramente devotam-se a essa questão do bem estar da dignidade da vida do homem. Esses sonhos e essas visões poderiam, e essa era a esperança dos cientistas no começo do século, tornar-se coisa viável num presente a construir a partir do pensamento científico.

Era um belo momento da história da humanidade, belíssimo momento na história da ciência, ciência voltada para o homem, para humanidade, para a produção da dignidade, para alicerçar as condições pelas quais a vida se tornaria não apenas mais longa, mas digna de viver. Essa busca de possibilidades de que a medicina, as medicinas, todas são representativas se baseavam numa ciência respeitosa, as medicinas, todas são representativas e se baseavam numa ciência respeitosa da moral, havia um encontro entre preocupações morais e preocupações científicas.

A discussão hoje presente da ética no trabalho do cientista, não se imporia como hoje da forma que começa a se impor, exatamente porque o cientista era cauteloso diante do que produzia, difundia, propunha, a moral era a grande fiscal das realizações intelectuais. Isso também tinha relação, não vou desenvolver isso agora, com o fato de que o mercado que existia, já que o capitalismo, este breve momento da história da humanidade, dura 500 anos, por conseguinte mais velho do que a institucionalização da ciência, o mercado era circunscrito pelas fronteiras e regulado por um estado, era um monstro domado, era esse grande selvagem todavia domesticado. 

E as ideologias tinham livre curso e buscavam sem precisar tanto que, as grandes revoluções foram presididas pelas grandes produções de idéias políticas, que precediam elas, idéias políticas, a produção da política. Por isso talvez que é a gente revendo essa história sabe que, uma idéia que brota aqui ou ali, e se mostra como se fosse coisa frágil, tem força, a força da qualidade, que é esse o único alento que tem os que trabalham a coisa intelectual, essa consciência de que podem ficar sozinhos, porque sozinhos não estão, eles tem a companhia do futuro, que ajudam a gestar através exatamente do discurso produzido a partir da produção de idéias generosas. Essas idéias libertárias, igualitárias, essa ambição universalista que levaram, depois da guerra sobretudo, a que se tornassem gêmeas as místicas do desenvolvimento e da civilização, momento que tive a oportunidade de assistir e viver, batalhando com tantos outros na busca dessa civilização nova, desse desenvolvimento que ganha então uma expressão contraditória em relação com o crescimento econômico, essa distinção necessária entre os dois e que vai marcar a história do mundo na metade do século XX.

Esse momento, é um momento muito rico, porque permite afloração de quantidade de postulações, que levam ao debate mais filosófico da questão da vida, e aí que incluo a saúde como um dado apenas na questão da vida que é o que nos preocupa fundamentalmente, a saúde é um instrumento dessa coisa mais ampla. Evidente que pode ser tratada do ponto de vista técnico, mas é melhor que seja do ponto de vista filosófico, antes de que o tratamento técnico, a técnica se subalternam, e venham acloparem e acomodarem-se às exigências ditas da prática. Não esqueçamos que a palavra recurso não tem valor por si própria, a palavra recurso é um termo do vocabulário da política, não tem autonomia a palavra recurso. Cada vez que tratamos a questão dos recursos com autonomia, estamos abandonando a utopia, por conseguinte estamos renunciando a sermos, simplesmente homens.

Ora, a questão da saúde, como a questão da alimentação, como a questão do bem estar,foi no primeiro momento tratado segundo critérios deterministas, e essa é uma das razões pelas quais a palavra ambiente me choca, me aborrece, é que, com freqüência ela conduz a uma deriva determinista, não tenho medo dos adjetivos, mas é preciso que a gente retome o debate pela raiz. Essa questão de determinismo que levou por exemplo a conceituação das chamadas doenças tropicais. Tive há alguns anos um privilégio, digamos assim, de haver ensinado na Universidade de Bordeux, cujo o Instituto de Geografia Tropical, como se houvesse uma ciência social tropical e uma ciência social temperada. Formas de raciocínio própria do racismo, mais ou menos velado europeu, constante também na vida acadêmica e na produção intelectual, vontade de dizer: "as culpas das dores são suas. Nós pretendemos aliviá-las, mas vocês são como são".

Essa idéia da Geografia Tropical que me conduziu, eu tive sorte de estar lá durante aquele movimento de 1968, a escrever um livro, do qual cada capítulo se tornou depois, um novo livro, esse livrinho que se chama "O Trabalho do Geógrafo no Terceiro Mundo". E hoje, esse livro, eu devo dizer isso agora, penso que devo fazê-lo, esse livro é a crítica que eu fazia à geografia ensinada naquela faculdade. Essa idéia de doenças tropicais que também levou a um certo paralelismo entre a noção de trópico e as dificuldades, quando eu era jovem se falava ainda na expressão higiene, a higiene dificultada pela tropicalidade. Da mesma forma, a questão alimentar, que já então preocupava as pessoas de boa vontade e que também era apontada como um problema em parte porque a alimentação tinha muito de ver com, quer dizer, na explicação que era fornecida, com a questão da regionalização. Então havia regiões fadadas a ter fome e outras fadadas a ter uma certa abundância.

É evidente, e aliás é normal, por que não, que os europeus se organizassem inteligentemente, e nós naturalmente, em parte em culpa de nossa tropicalidade, e em parte devido a nossa precaridade intelectual, "que todo mundo sabe disso", não poderíamos ultrapassar esse patamar.

É aí que surge Josué de Castro, jamais suficientemente lembrado por nós, ele teve a má sorte de morrer quando o Brasil era um país em pleno caminho para um regime autoritário, e de morrer na França,que, nesse momento deixava, abandonava, sua vocação universalista, e dava a sua diplomacia como fanal o comércio, então ele morreu sem o brilho que se costuma dar aos grandes homens quando eles desaparecem, e até hoje nós não conseguimos resgatá-lo. Só quero dizer que, Josué de Castro sugeria uma mudança fundamental na visão do mundo, e das coisas inclusive na questão da saúde, deslocando o problema do chamado ambiente e recolocando a questão no domínio da sociedade, e da sociedade internacional, é razão pela qual ele acusava o ocidente do que hoje acusamos nós, isto é, essa vontade deliberada de genocídio através da vontade esopitável de poder.

Não é de estranhar que ele não tenha tido o prêmio nobel. Prêmios Nobeis são geralmente outorgado a quem faz o possível para dar impressão que está cuidando da humanidade, mas não faz realmente. Essa idéia da natureza natural, ela iria nos perseguir permanentemente a despeito de que a história comprovasse que a natureza natural tem um papel, evidentemente, ninguém vai desconhecer esse papel, mas não um papel central na posição da história, cada vez menos, sobretudo hoje. 

Ao mesmo tempo como a universidade era livre-pensar, coisa que é cada vez menos, como a cooperação internacional em matéria de pensamento era possível, o que cada vez é menos possível. Nós sabemos que hoje é quase impossível cooperar com os nossos colegas do norte, por razões que não vou analisar agora, mas cada um deve ter sua pequena história a contar, talvez não conte, porque as nossas universidades nos pedem que sejamos cada vez mais amiguinhos dos colegas do norte para aumentar os nossos títulos. Não é? Então somos convidados a um expediente de safadeza cotidiano para obter as promoções, porque não sei o que acontece no Equador, Cuba, mas no Brasil é muito freqüente, que o que você faz seja distinguido entre nacional e internacional, não é isso?

Quando, na realidade, nacional é estrangeiro, não é? E não nacional e internacional, mas os valores são atribuídos a quem, como nós sabemos que a vida acadêmica podia ser transferido para o ministério do turismo em vez de permanecer no ministério da educação ou da ciência.

Essa época leva uma imbricação crescente e uma vontade de teorizar, que se mostra profundo em todos os domínios, e teorizar a população, de teorizar a urbanização, de teorizar a nutrição, de teorizar a saúde pública, de teorizar o desenvolvimento. Essas teorias eram imbricadas umas com as outras porque o elo central era exatamente o mundo, que é a unidade de pensamento de problemas são formidáveis. Isso tudo era baseado numa solidariedade internacional que deixou de existir, numa luta civilizatória que também deixou de existir.

Daí a contribuição fundamental da questão da saúde, dada por desenvolvimentistas terceiro-mundistas, anti-imperialistas, nessa época, no fim dos anos 60, começo dos anos 70, me perdoem se apenas têm essa idade, cometi um livro que não está traduzido para o português, um livro muito grande, um livro que discutia a questão da alimentação e da população, e, evidentemente passando pela questão da saúde a partir de uma visão de um geógrafo.

É dessa época também que se notam progressos médicos, conducentes a uma melhor saúde individual e coletiva, e havia avanços ainda que não homogêneos na questão do enquadramento, da prevenção, e da informação, uma tomada de consciência. Então, a ajuda internacional tinha um papel positivo, que depois deixou de ser norma, a ajuda internacional a partir dos anos 70, em grande parte, se deixa comandar por interesses das grandes potências.

Basta ver o tratamento dado à questão da fome, na África subsalariana: comandava esse tratamento em função da política dos novos grandes impérios, o tratamento de diversas questões no subcontinente Asiático, tantas outras questões consideradas de ajuda internacional que foram tratadas de forma egoística de tal maneira que as pessoas bem pensantes, sempre passaram desde então a desconfiar da palavra ajuda. Mas também as idéias, a timidez das idéias provenientes das instituições internacionais, a prudência com a qual os seus representantes tomam a palavra nas ocasiões que lhe são oferecidas, o escamoteamento da centralidade do problema social e político que se tornou mundial, a prevalência dos enfoques tecnicistas que também dominam situações de grande relevo para a vida do homem como a própria medicina em todos os seus aspectos e que mostram esse distanciamento entre uma produção intelectual que se amplia e para a qual os recursos são abundantes, desde que, os esforços se dirijam nesta direção vesga e a realidade que avoluma a necessidade de enfoques mais abrangentes.

Naquele tempo, gabávamos-nos dos efeitos, das políticas, mas também dos efeitos do desenvolvimento, sobre os índices vitais, mortalidade geral, mortalidade infantil, fertilidade, esperança de vida, nutrição. Essa combinação entre minorias e condições gerais, e de efeitos do desenvolvimento sobre a vida individual e das famílias.

Esses anos 70 marcam a emergência tímida e depois agressiva de aspectos chamados qualitativos, mas que, como agente, todo mundo sabe que o qualitativo mostra-se com sua cara quantitativa, e variáveis novas entre as quais a tecnociência, que tem um papel desgraçadamente muito importante nas questões que interessam os senhores.

Esses progressos da ciência e da técnica estimulariam produzir as pragmáticas. Vamos fazer assim para obter tal resultado, a tal ponto que, as formulações ditas gerais começam do resultado e não das causas, o que é sempre um empobrecimento do ponto de vista da posição do pensamento. Os resultados são postos em xeque, avançados como algo a desejar, mostrados como se fosse algo moral, mas na realidade são um resultado que não tem base no processo. Então os processos que levam os problemas são escamoteados, inclusive essa questão do meio ambiente, nós veremos que isso não tem um papel relativamente cada vez menor na produção de quantidade de problemas, já que as dificuldades da maior parte da população não vem do fato de estar aqui e ali, mas do fato de ser assim ou assado.

Um saber e uma prática bem colocados de preocupações humanísticas, é a principal marca do domínio da técnica sobre a ciência que estamos agora assistindo, a técnica que também dita as escolhas possíveis para os remédios.

É curioso que a nova ciência, acabe semi imposta pela via da técnica, pelos portadores de uma filosofia pragmática dos Estados Unidos, que hoje tem o comando absoluto no debate das questões por exemplo da saúde, tanto do social quanto do individual. Isso se dá em paralelismo com a busca de uma nova ordem da economia. Quando os progressos técnicos-científicos ganham autonomia, e é o que nós estamos assistindo hoje, na vida acadêmica com profundas repercussões negativas na produção da política, eles tenderiam a aconselhar ou justificar visões de buscas parciais, cada vez mais parciais, cada vez mais isoladas, cada vez mais penetrantes e cada vez mais autônomas, de tal forma que a produção de conhecimento ganha autonomia sobre a vontade de humanização da vida sobre o planeta.

Sou apenas um observador das questões médicas, quem sou eu para ter um juízo definitivo ou mesmo próximo disso, a respeito disso, confesso que tenho muito medo do que leio, sobretudo, sou um homem assustado porque chego à idade que tenho, quase a obrigação de ser também doente, e me vejo cada dia cotejado com manchetes contraditórias que as mesmas revistas publicam, dando conta do trabalho já não tanto das universidades, mas das empresas ou das empresas dentro das universidades. A grande moda agora é pedir às universidades que devem pedir às empresas que digam o que elas devem fazer. É chique.

O que permite ao CNPQ, etc de se retirar do processo de financiamento. Só que em dados que tem relação com a vida, o resultado é o que a gente começa a ver. Levando aquilo que a gente pode chamar de corrupção da pesquisa. A corrupção da pesquisa e a desconfiança justificada em relação aos homens de ciência, que são cada vez menos, por isso, os homens da verdade. Uma meia verdade serve a objetivos pragmáticos mas uma meia verdade não é a verdade. E todas as meias verdades possíveis reunidas não produzem a verdade. As verdades parciais podem ser eficazes no interesse daqueles a quem interessem, mas não conduzem à verdade, e cedo ou tarde conduzirão a desastres como é o caso do Brasil, cujo o primeiro grande desastre vai ser o da saúde, que já está se mostrando, exatamente porque o modelo foi aceito tranqüilamente pelo estado, mas também por nós, os homens da universidade, por nós os cientistas que não levantamos suficientemente a nossa voz para protestar, que não cumprimos devidamente o nosso dever. Isso tem que ser dito, essa universidade dos resultados com esse auto controle suicida, mas também assassino de cientistas, que dá prevalência na elaboração de textos, ao poder, e ao mercado, um círculo fechado, do qual os progressos atuais da medicina tanto ressentem.

É evidente que, as questões técnicas do como fazer são importantíssimas, mas que faço delas se não obtiver antes esse dia mais amplo, de recolocá-las dentro de um quadro, no qual as coisas todas possam ser cotejadas, revistas, produzindo uma idéia generosa do que o mundo pode ser, responsabilidade que é nossa.

A globalização vai deixando para traz as grandes questões civilizatórias, humanísticas, basta ver o debate que se dá no Brasil atual, e no qual a palavra civilização é quase como se fosse uma palavra obscena, mas também obscena para os adultos, não é que seja proibida aos menores de 14 e 15 anos, é uma palavra que se tornou proibida neste país, e o que é grave é que não é apenas isso um dado do oficialismo, é também um dado das oposições. Eu ia dizendo das esquerdas, poderia insistir nisso somente acrescentando que ser de esquerda hoje é de novo ser diferente de ser de direita, só que a direita dá centralidade a isso que passamos a adorar, a moeda estável, o fim da inflação, os equilíbrios macroeconômicos e toda essa coisa repetindo sem saber para que, porque, e a esquerda seria aquela parte da sociedade preocupada com essa coisa tão insignificante, mas que é a única justificativa real de que o mundo prossiga, isto é, o homem.

A globalização veio sem que viesse junto um mundo só. Busca-se abreviar o tempo do trabalho, mas não é para socializar o lazer, é pra fazê-lo mais mercantil. Acredita-se que atécnica conduz ao desemprego, que horror! A técnica jamais existiu historicamente sem a política, não existe isso, é um equívoco imaginar que se pode conceber a presença histórica da técnica se não fosse, em qualquer que fosse o momento da história, tendo como paralelo a política, que é o que decide o que fazer da técnica, em todos os tempos foi assim. Conquistamos tempo e espaço, mas não para enriquecer a vizinhança, o vizinho, sabemos todos, ao entrar nos elevadores, o vizinho é o nosso inimigo. Inventam novas formas construtivas, mas não para humanizar a cidade, não é a cidade que é responsável, como tantas vezes se diz, a urbanização, esse mal, mal ao contrário.

A urbanização é que permitiu inclusive avanços formidáveis em todas as áreas, inclusive da saúde, não foi a urbanização que os países subdesenvolvidos tiveram muito maiores dificuldades para enfrentar as questões de saúde, tanto do ponto de vista individual quanto do ponto de vista coletivo. Quem disse, quem escreveu isso tem provas que a cidade é por si mesma, causa de qualquer que seja o mal, é a maneira como organizamos a sociedade, separando os que podem e os que não podem, e dizendo que os que não podem vivem em bairros que adjetivamos de forma pejorativa, e nos quais, bairros pobres, o ambiente é hostil. Não é isso que dizemos e às vezes escrevemos. Grande equívoco é a sociedade na sua organização, que acho que mudêmo-la e a produção do bem estar, inclusive da saúde, terá um outro caminho. Mas não se quer falar em mudanças sociais, queremos falar das mudanças dos organogramas, mas não da sociedade, daí esse enfoque tímido, mas que é corajoso pela sua subserviência ao sistema, e que dá prioridade ao que não tem.

Aumentou-se a produção alimentar - quando dei esse curso, de que resultou nesse livro de mil páginas, felizmente não traduzido para o português - havia ainda crença de que se produzisse alimentos todos comeriam.

Então a grande luta era para aumentar a produção alimentar, aí houve os que toleraram a revolução verde - como agora se está justificando os trangênicos, como se a questão da fome e todas as questões sociais, fossem derivadas de soluções técnicas, quando não são.

O que vimos é que primeiro a produção alimentar ultrapassou a produção, a necessidade alimentar do mundo tomado como um todo, basta ver o ardor com que os europeus arrancaram as suas plantações alimentares para garantir o preço, isso não tem relação uma coisa com a outra realmente.

A questão não é técnica, e quando a gente fala em natureza está falando também em técnica, em última análise. Então a questão é muito outra. E a própria doença reduzida nos laboratórios, os anais dos congressos como esse mostram como a doença pode ser atacada, mas o ataque à doença é igualmente algo que privilegia uma parte da sociedade em detrimento da outra.

A discussão que agora timidamente se dá no Brasil, quanto a questão da distribuição de remédios, é bem explicativa dessa situação. Isso tem que ver, em grande parte, pelo fato de que a técnica passou a Ter comando sobre a ciência, e como a técnica é cada vez mais comandada pelo mercado que comanda a ciência, os senhores sabem disso melhor do que eu, porque a minha disciplina não me obriga a produzir produtos-somente- idéias, e os senhores são obrigados a produzir produtos-resultados.

São cobrados por isso e quantas vezes os senhores são apressados porque tem que oferecer resultados, se não os oferecem são considerados como lerdos no cumprimento das suas obrigações. Mas é dessa maneira também que tranqüilamente sintoniza a barbárie. Quando esse processo evolutivo se dá ao mesmo tempo que as empresas concentram, elas se concentram em todos os domínios, elas se concentram no domínio da alimentação, produção, distribuição, circulação, consumo, ela se concentra no domínio dos remédios, ela se concentra no domínio da saúde, mas ela se concentra também nos domínios dos serviços urbanos.

A cidade está ameaçada de privatização, o que vai ser um grande problema nas questões de saúde pública, privatização em marcha da cidade, o que no Brasil não tem, a nossa análise está faltando - a dos senhores e as nossas, os geógrafos - a respeito disso, tem uma análise prospectiva desse processo de privatização que vai agravar ainda mais questões de saúde pública: a privatização da água, dos esgotos, e tudo mais o que concerne a vida urbana. No mundo em que a cidade tendo crescido tendo crescido de tamanho, os problemas se avolumando com esse crescimento de tamanho da cidade, são as grandes empresas filiadas aos grandes bancos que são chamadas para resolver as questões urbanas, mesmo num país grande como o Brasil os capitais que são chamados já agora para resolver as questões urbanas são cegos para a vida social, são cegos para as questões humanitárias, por conseguinte vem agravar problemas como esse que vão entreter os senhores durante esses dias aqui.

Será que, essa técnica, assim comandante da ciência, essa técnica assim comandada pelo mercado, esse mercado comandante da ciência, decretaram uma vez por todas a maldição dos homens de ciência ou podem eles ainda erguer a sua cabeça, e dizer: não? É evidente que não peço a um e outro que o faça. Mas, aqui estamos isolados. Espero que, essa famosa lista com que os congressos terminam vota nisso, vota naquilo, apelo, não sei o que, entendeu, também incluam pontos como esse, e não apenas coisas utópicas, água na baía de não sei o que, o rio tal na cidadezinha de Paracatú, mas os grandes problemas de sociedade que em um país como o Brasil tem gravidade irrecusável. E aí comparece o papel crítico das ciências humanas, e entre elas as ciências sociais da saúde, que tem de ser um trabalho com uma certa valentia.

É evidente que a estrutura da universidade atual é hostil, a qualquer exercício do pensamento livre, esse que talvez seja o maior problema da universidade brasileira, e essa que talvez seja o maior desmentido da universidade pública brasileira, que se quer pública, mas não chega a sê-lo, inclusive não o é, porque o pensamento que se elabora em nossas universidades públicas é cada vez menos público, porque cada vez menos livre.

Por conseguinte, já que me convidaram, eu lhes venho fazer esse apelo, evidente que nem precisava fazê-lo, porque essas idéias estavam presentes nas mentes e nos corações. Todavia é sempre bom que alguém venha e produza algum discurso de conjunto oferecendo uma provocação no caso dispensável, que amplie as vozes e que, eventualmente as façam entendidas. As vozes não são entendidas quando se dirigem às autoridades, esse tempo acabou. As vozes tem que se dirigir à sociedade em geral, que se incube depois de impor aos ouvidos das autoridades, essa voz, se ela condiz com que profundamente sentem as pessoas. Essa esperança que os senhores me dão, com a qual esperança me despeço, e com a qual agradeço a generosidade do convite. Muito obrigado.

 

 

A VIDA DE MILTON SANTOS

 

Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, em 1926. Os pais, professores primários, o alfabetizaram em casa. Aos 8 anos, já havia concluído o equivalente ao curso primário. Neto de escravos por parte de pai, foi incentivado a estudar sempre e muito.

Dos 8 aos 10 anos, por exemplo, quando vivia em Alcobaça, aprendeu francês e boas maneiras, sempre em casa, enquanto aguardava o tempo para ingressar no ginasial.

Os benefícios de sua aplicação nos estudos o país nunca poderá negar, mas o geógrafo confessava uma frustração: embora Alcobaça seja um pedaço de terra entre o Oceano Atlântico e um rio, Milton, sempre às voltas com livros, nunca aprendeu a nadar. Da mesma forma, nunca participou das peladas e jamais entrou num estádio de futebol.

Já em Salvador, custeava suas aulas no colégio lecionando Geografia na própria escola aos alunos do que seria atualmente o ensino médio. Depois, incentivado por um tio advogado, cursou Direito. Diplomado, não chegou a exercer a profissão; prestou concurso público para professor secundário e foi lecionar Geografia em Ilhéus. Iniciou, então, carreira repleta de desafios, não raro impostos pela sua condição de negro.

Rodou o mundo, estudando e lecionando, numa trajetória impressionante. Aprendeu e ensinou na Europa, Américas e África. Fez trabalhar em seu favor o doloroso exílio que a ditadura militar lhe impôs por treze anos.

Milton Santos escreveu mais de quarenta livros em diversas línguas, sua obra é uma referência para todos aqueles que pretendem compreender de maneira crítica o mundo atual. Um pensador otimista, antes de mais nada, que conseguiu distinguir o novo da novidade, conceitos que ele diferenciava radicalmente.

Um geógrafo sério e combativo. Não poupou ninguém de suas severas críticas. Políticos, intelectuais, colegas de departamento e até mesmo seus alunos mais fiéis (inclusive esta que vos escreve).

Os cabelos brancos apareceram nos últimos tempos, mas sempre se mostrava o professor com camisas de mangas compridas e gravatas vermelhas, vestido com a mesma seriedade com que lidava com o conhecimento.

MILTON SANTOS

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"Estamos convencidos de que a mudança histórica em  perspectiva
provirá de um movimento de baixo para cima,
tendo como atores principais os  países subdesenvolvidos
e não os países ricos; os deserdados e  os pobres
e não os opulentos e outras classes obesas;
o indivíduo liberado partícipe das novas massas
e não o homem acorrentado;
o pensamento livre e não o discurso único.
Os pobres não se entregam e descobrem  a cada dia
formas inéditas de trabalho e de luta;
a  semente do entendimento já está plantada e o passo seguinte é o seu florescimento
em atitudes de inconformidade e, talvez, rebeldia."

Milton Santos em Por Uma Outra Globalização - Do Pensamento Único à Consciência Universal

  Parte I – Sobre Milton Santos (artigos e resenhas)

  Parte II - Artigos publicados no jornal Folha de São Paulo (1999-2001)

  Parte III – Outros artigos

  Parte IV - Entrevistas