|
Primeiras Palavras |
Autor: Leonildo Correa - Instituto OCW Br@sil
A história humana é a história da evolução da consciência. O homem evoluiu porque a sua consciência evoluiu. Foi a consciência humana, entendida como sistema analítico de informações e conhecimentos, que criou, reconheceu, interpretou, fixou e passou de geração para geração, a arte, a religião, a cultura e as civilizações. Também foi a consciência humana que criou e definiu as instituições, as teorias, os conceitos, as tecnologias, etc.
Não são os olhos que vêem o mundo e as coisas. Quem vê, interpreta, analisa e interfere no mundo e nas coisas é a consciência. Isto porque é a consciência que capta, modela e constrói as informações, elaborando e disseminando os saberes e os conhecimentos, assim como gerando, a partir de dados antigos, novas informações, novos saberes e conhecimentos.
Antes de tudo vem a consciência. Depois vem a ação. Geralmente, há um processo mental, um pensamento, antes de cada ação. E onde há pensamento, há consciência, pois pensamentos são processos mentais primários do sistema analítico consciência.
Certamente, o fato de a consciência interpretar todas as informações, saberes e conhecimentos, atuando antes de cada ação, não significa que cada ação é realizada de acordo com a consciência, seguindo as ordens da consciência. Um exemplo claro disso, são os casos onde a consciência, analisando as informações e os conhecimentos, emite uma ordem, uma sentença, mandando a pessoa fazer uma coisa e, por outros motivos e variáveis, a pessoa faz outra, ou seja, a pessoa desobedece à própria consciência.
Isto ocorre, geralmente, quando a consciência está contaminada pelo mal, pelo fanatismo, pela cobiça, pelo interesse, pela ambição, pela paixão, dependência, etc... A pessoa age, não movida pela consciência, mas sim por vícios ou impulsos irracionais.
Em uma consciência contaminada os vícios falam mais alto, cobrem os pensamentos, sufocam os processos mentais, as análises das informações, saberes e dos conhecimentos, ou seja, cobrem a racionalidade. Logo, a sentença oriunda da consciência pode ser completamente ignorada e substituída por outra ordem. Nesse caso os vícios e os impulsos irracionais movem a pessoa, não a consciência.
Os vícios que contaminam a consciência, prejudicando a sentença produzida, derivam, geralmente, de informações e conhecimentos deturpados, manipulados, falsos, etc, introjetados no indivíduo ou assimilados por ele. Neste caso, a sentença da consciência é produzida com falhas, erros ou vícios. Isso porque a matéria-prima utilizada pela consciência já estava contaminada. Logo, a ação, derivada desta sentença, irá executar uma ordem viciada.
Um exemplo disso é o fanatismo. Um vício que contamina a consciência com uma versão única de informação e saberes. Um vício que inibe o sistema analítico da consciência, obrigando-o a emitir respostas únicas e fixas. Não importa as diferenças, todas as respostas da consciência, quando contaminadas por esse vício, apontarão para o mesmo ponto, sem nenhuma possibilidade de questionamento ou análise.
Consciência sadia é aquela na qual o sistema analítico de informações, saberes e conhecimentos são alimentados por matéria-prima sadia, sem contaminação. Neste sistema as informações e saberes advêm de inúmeras fontes, há uma ampla liberdade para se informar, pesquisar, produzir, criar, transformar, etc. Logo, as matérias-primas da consciência são confrontadas, testadas, analisadas, etc, produzindo uma sentença racional, lógica e justa.
Além disso, uma consciência sadia, emite uma ordem sadia, concretizando uma ação correta, sem desvios, sem injustiças. Daqui advém a máxima “agiu com consciência” ou “foi uma ação consciente”. Logo, as virtudes, definida como uma ação consciente, dominam e contaminam, para o bem, os atos praticados. Esta é uma consciência na qual a liberdade do indivíduo se concretiza e se expressa. Cada ato, cada ação, concretiza aquilo que é definido, social e culturalmente, como justo e reto.
Inegavelmente, todas as consciências, principalmente as adultas, estão contaminadas por vícios. Contudo, o aparecimento desses desvios nas ações praticadas depende do nível de contaminação. Quanto mais intensa e extensa for a contaminação, maior será a quantidade de ações derivadas de vícios, ações que concretizam vícios.
Isso porque os vícios, as deturpações, os fanatismos, as dependências, etc, emperram a reflexão, inibem o sistema analítico, prejudicando e desvirtuando as análises da consciência. Por isso, a formação da consciência dos indivíduos, principalmente na família, nas escolas e demais instituições sociais, busca disseminar e cristalizar, através do ensino, informações e saberes que privilegiam e concretizam virtudes e comportamentos sociais adequados combatendo os desvios apreendidos/disseminados no ambiente social.
Contudo, virtudes e vícios, dentro da consciência, são também informações, saberes e conhecimentos. Isto porque a consciência só vê e trabalha com estes elementos, com estas matérias-primas.
Os sentidos e as percepções são os mecanismos através dos quais o sistema da consciência mapeia a realidade, fragmentando-a e transformando-a em informações, matéria-prima, que são levadas para dentro do sistema analítico. Aqui dentro, através de processos mentais, pensamentos, a informação é analisada, confrontada, testada, etc transformando-se em um saber (uma técnica) ou um conhecimento (uma teoria) ou em uma nova informação, que são armazenados na memória do sistema.
Portanto, informações, saber e conhecimentos são matérias-primas utilizadas nos processos mentais, cabendo ao indivíduo formar, quando pensa, ou seja, quando realiza um processo mental, a sentença que irá prevalecer, que será transformada em ação.
Na consciência há informações, saberes e conhecimentos que são joio e outras que são trigo. Além disso, existem os híbridos joio+trigo. Tudo está misturado. Em alguns casos há elementos que indicam, ao indivíduo, qual é o joio e qual é o trigo. Em outros casos a consciência, atuando como um simulador de ações, mostra as conseqüência de uma decisão formada com joio e de outra formada com o trigo. Logo, o indivíduo sempre pode escolher entre um caminho e outro.
O livre-arbítrio é a escolha da consciência. A sentença dada pela consciência é o livre-arbítrio. Sem o sistema analítico consciência e sem matérias-primas (informações, saberes e conhecimentos), não há livre-arbítrio.
Certamente, em alguns casos, dada a quantidade e a disseminação do joio, ou seja, dos vícios, no ambiente social, é impossível, ao indivíduo, diferenciá-lo do trigo. Isto ocorre quando todas as fontes de informação são manipuladas ou falsificadas, ou então, quando certos comportamentos e atitudes, comuns num dado meio social, são consideradas vícios em outros meios. Logo, entra em cena, neste contexto, a definição de vício e virtude, assim como a indicação do que é ou não vício. Definição e indicação que dependem das subconsciências: coletiva, social ou política. Dependem da cultura, dos costumes e da época.
Além disso, é preciso considerar que o ambiente social potencializa o aparecimento e a cristalização de alguns vícios na consciência humana. Isto porque muitas das informações captadas e retidas pela consciência são apreendidas pela observação e interação com o ambiente sócio-cultural no qual o indivíduo está inserido. E o ambiente sócio-cultural pode obrigar a adoção de certos comportamentos para garantir a sobrevivência ou porque é comum naquele meio.
Os costumes, os comportamentos, assim como a cultura, passam do grupo para o indivíduo, de uns para outros. Logo, determinados comportamentos, vistos com normalidade pela comunidade de um local, tende a se espalhar e ser praticado por todos, mesmo sendo considerado vício por outras sociedades. Um exemplo é a poligamia praticada em algumas tribos indígenas. Outro exemplo é o fanatismo e o fundamentalismo que caracterizam algumas sociedades conservadoras.
Outro ponto importante é: a estrutura funcional da consciência exige o entendimento de seu processo de formação, ampliação e modificação. Logo, entra em cena, neste caso, a Psicologia Educacional, que possui modelos explicativos para a aprendizagem humana.
A aprendizagem é o mecanismo que realiza a formação, ampliação e modificação da consciência. Evidência disso é o fato de uma criança nascer com consciência zero, ou seja, com zero de informações e conhecimentos (possui apenas reflexos instintivos) e, ao longo do tempo, através da aprendizagem, observação e interação, vai adquirindo a matéria-prima (informações, saberes e conhecimentos) para os processos mentais, pensamentos, que movimentam a consciência. Conforme a criança adquire estes elementos, ela adquire controle sobre os reflexos instintivos, aprende e apreende novas coisas, sua consciência vai se formando, ampliando e solidificando e, cada vez mais, o indivíduo vai se tornando capaz de realizar raciocínios mais complexos. Quanto mais informações, saberes e conhecimentos, mais elaborados, complexos e extensos são os processos mentais (pensamentos). Isso acontece ao longo de toda a vida.
Portanto, com o aumento da matéria-prima para os pensamentos (processos mentais), a consciência se torna mais estável e sólida. Com isso o indivíduo adquire uma maior capacidade analítica e seu raciocínio (tipo específico de pensamento) torna-se mais complexo, surgindo, dentro da consciência, pensamentos cada vez mais encadeados e elaborados (pensamentos racionais, pensamentos lógicos, etc). Desta forma os processos instintivos, ou inconscientes, vão sendo controlados e reduzidos. Assim, a consciência, através de processos analíticos, passa a determinar e controlar, quase completamente, o indivíduo.
Quanto maior a quantidade de informações, saberes e conhecimentos, mais complexos são os processos mentais, mais variáveis são analisadas e consideradas, logo, maior é a capacidade de reflexão, análise e crítica. Mais iluminada é a consciência.
Por isso, para garantir que a maioria dos indivíduos pratique ações oriundas de reflexão e análise, ações potencialmente virtuosas, ao invés de ações viciadas, existem diversos controles e travas sociais. Por exemplo, a moral, o direito, a religião, etc. Controles e travas que fixam, dentro da consciência, determinadas regras (informações e saberes), condutas e comportamentos socialmente aceitos e recomendados. Estas regras, condutas e comportamentos aderem de tal forma à consciência que acabam formando subconsciências: coletiva, social, política. Subconsciências que reúnem regras específicas para cada área de atuação/ação/interação do indivíduo: família, sociedade, Estado, etc.
Portanto, existe uma ligação direta entre consciência, aprendizagem e cultura, ou seja, todo o conteúdo da consciência (informações, saberes e conhecimentos) são construções sociais e culturais. A cultura formata a consciência, gestando-a e desenvolvendo-a,ao longo do tempo, no meio social. Em outras palavras, a maior parte do conteúdo da consciência advém da cultura, que reúne informações e saberes sobre as instituições, comportamentos, estilo de vida, costumes, etc de um dado meio social. Quem nasce, cresce e vive nesse meio, assimila-o, introjetando na consciência suas regras e seus métodos. Inegavelmente, há uma certa uniformidade de consciência e pensamento entre os integrantes de uma sociedade. Quanto mais fechada é a sociedade, mais uniforme é a consciência e os comportamentos de seus integrantes.
A cultura é, em sua essência, informação e saberes fixados coletivamente/socialmente por uma dada comunidade e passados de geração em geração ao longo do tempo. A consciência assimila, nas primeiras décadas de vida do indivíduo, os elementos culturais. Certamente, após adquirir uma extensa gama de informações e saberes, provenientes da cultura na qual está inserida, a consciência do indivíduo passa a ter poder de análise e crítica deste meio, podendo, assim, questionar, rejeitar, modificar ou recriar algumas características da cultura na qual navega. É a consciência que constrói, transforma ou destrói, principalmente no âmbito coletivo e social, a arte, a cultura, a religião, as civilizações, etc.
Portanto, entre a consciência e a cultura há uma relação de interdependência. Não sendo possível separá-las, pois retirando a cultura do sistema consciência, retiram-se informações e saberes construídos coletivamente/socialmente ao longo do tempo, retira-se o conteúdo do sistema, o conteúdo da consciência. E sem conteúdo, restará apenas um sistema orgânico movido pelo instinto e reflexos do organismo, ou então, movido por dados produzidos pelo próprio indivíduo.
Resumindo, a relação entre consciência, cultura e aprendizagem é essencial nesta Teoria da Consciência e Liberdade, pois o conteúdo da consciência é cultural. Informações e saberes são, predominantemente, culturais. O mecanismo que insere os conteúdos da cultura na consciência é a aprendizagem. Os mecanismos de captação da realidade, transformando-a em informações, são os sentidos humanos. Por isso, em um item específico desta obra, analisarei a questão da aprendizagem humana.
Certamente, quem conhece um pouco deste campo, já deve ter percebido que a teoria da aprendizagem adequada, ou alinhada com este trabalho, é a sócio-cognitiva. Porém, as outras teorias também possuem elementos específicos que explicam certos aspectos da inserção de informações e saberes na consciência.
Além disso, é válido assinalar que é impossível separar o homem de sua consciência ou de seus pensamentos. Principalmente porque faz parte da essência do Homem, da definição de Homem, a consciência. Inclusive, o que separa o homem dos demais seres vivos é a racionalidade, um tipo específico de pensamento, um processo mental da consciência.
A consciência é um mecanismo, por enquanto, exclusivo dos seres humanos. O sistema de processamento de dados de um computador não é uma consciência. É apenas um sistema de processamento que Logo, é válido afirmar que onde há consciência, há um ser humano, há um Homem. A consciência singulariza o Homem entre os seres vivos.
Não só isto, é a consciência que faz esta construção, esta separação, observando padrões e ações. As instituições, as Teorias e as definições são produções da consciência. Construção oriunda de observação da natureza, das coisas, dos fatos e da sociedade, observação das relações, das interações, das interdependências, etc. Construção oriunda da captação de dados, informações e saberes principalmente do campo cultural. Logo, é possível relacionar o vaso de barro com a consciência do oleiro que movimenta suas mãos, ou seja, podemos relacionar a consciência com os conceitos, teorias e instituições existentes em cada cultura.
Nesta obra analisaremos uma das principais construções humanas: a liberdade. Por isso, denominamos esta Teoria de “Teoria da Consciência e Liberdade”.
A Liberdade integra a essência dos seres humanos. Inegavelmente, é uma construção humana, uma construção da consciência humana, uma construção cultural derivada de informações, saberes e conhecimentos. Logo, há uma relação direta entre Liberdade e consciência. E, observando atentamente esta relação, é possível desvendar e definir a Liberdade em função da consciência.
Assim, após intensas reflexões, estabeleci o seguinte conceito: Liberdade é o poder do indivíduo de agir de acordo com a própria consciência, ou então, poder do indivíduo de executar as ordens que emanam da sua consciência, ou ainda, poder do indivíduo de expressar a própria consciência.
Esta definição de Liberdade, destrinchada em um item específico, constitui o principal ponto desta Teoria da Consciência e Liberdade. Inclusive, uma parcela significativa dos argumentos utilizados nesta obra girará em torno desta definição. Porém, o objetivo do estudo não se restringe apenas a tal análise. Ele é mais extenso e amplo. Visa formular uma teoria geral, um modelo lógico, que explique o papel da consciência e do pensamento nas construções/ações humanas.
Por isso, a linha mestra deste trabalho é: a consciência como medida de todas as coisas e base sobre a qual todas as instituições, conceitos e Teorias se formam e se estruturam. Logo, a abordagem e análise, neste trabalho, de algumas instituições sociais são imprescindíveis. Temas como o Direito Natural, os Direitos Humanos, o Direito como um todo, a Democracia, a Cultura, etc, serão revistos e redefinidos a partir da perspectiva da consciência humana e da definição de Liberdade em função desta consciência.
Certamente, diversas conseqüências derivarão desta Teoria. Por exemplo, na perspectiva da Teoria da Consciência e Liberdade, o acesso à informação, saberes e conhecimentos é um Direito Natural do indivíduo, é um Direito Humano, pois sem informação, saberes e conhecimentos a consciência humana não funciona e não se desenvolve. Se a consciência não recebe a matéria-prima para os processos mentais (informação, saberes e conhecimento), o indivíduo não se humaniza, socializa e evolui. A socialização e a humanização do indivíduo, sem dúvida nenhuma, deriva do desenvolvimento da consciência.
Portanto, a democratização/socialização da informação, dos saberes e dos conhecimentos é uma obrigação do Estado e da sociedade para garantir um direito humano fundamental do indivíduo, que é o direito de desenvolver a própria consciência, direito de humanizar-se, direito de socializar-se e evoluir intelectualmente.
Inclusive, é o desenvolvimento, sem impedimentos, da consciência, acompanhada da livre expressão desta consciência, que forma aquilo que conhecemos como Liberdade, ou seja, forma outro direito humano fundamental. Em outras palavras, a Liberdade é uma construção da consciência e onde não há consciência, não há Liberdade; onde a consciência não se desenvolve livremente ou sofre restrições ilegítimas, a Liberdade é limitada e restrita. Se digo que a Liberdade é a ponta de um iceberg, tenho que dizer que a consciência é a parte submersa.
O Homem é livre quando expressa, sem nenhum tipo de impedimento, a sua própria consciência. Para expressar a própria consciência ele deve construí-la e desenvolvê-la sem nenhum tipo de restrição ou impedimento e, para fazer isto, precisa acessar, precisa ter meios de acesso, à informação, aos saberes e aos conhecimentos construídos/produzidos socialmente/coletivamente, ao longo do tempo, pela Humanidade e passados de geração para geração.
Enfim, a consciência é o fundamento de todas as idealizações, formulações e construções humanas. A compreensão deste sistema fundamental (a consciência é um sistema) e sua interação com as realizações humanas revela o cerne, a estrutura da sociedade. Uma estrutura montada pela consciência, usando informações, saberes e conhecimentos adquirido/construídos socialmente/coletivamente ao longo do tempo e passados de geração para geração. Mais do que isto, é na consciência que reside a fórmula e o primeiro passo para construir, modificar ou revolucionar as instituições, as teorias e os conceitos.