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A consciência totalitária |
Autor: Leonildo Correa - Instituto OCW Br@sil
Infâmia!!! É uma infâmia falar em "consciência" totalitária, pois não é uma consciência como a humana. É uma construção artificial, um processador fanático com instruções pré-definidas. Contudo, vou utilizar o termo para lembrar que coisas sagradas podem ser corrompidas e transformadas em instrumentos do mal. Inclusive, a consciência humana pode ser cooptada pelo lado sombrio da força e se transformar em um instrumento de destruição de seres humanos. A consciência totalitária é uma consciência artificial, superficial, fanática e psicopata. É a consciência do grande Leviatã totalitário. Uma consciência que busca o domínio total dos homens, das coisas e do mundo.
Neste texto trataremos da consciência totalitária, do seu início, desenvolvimento e disseminação, incluindo a sua relação com o vazio de pensamento e com a banalidade do mal. Além disso, analisaremos as diferenças entre a consciência natural do indivíduo e a consciência artificial de um sistema, assim como as diferenças entre a liberdade de uma pessoa e a liberdade atribuída, por um sistema, para uma pessoa. Portanto, este texto revelará o funcionamento do cérebro do grande Leviatã totalitário, a fonte de seu poder, a sua capacidade de dominar seres humanos e as suas fraquezas.
A consciência natural do indivíduo, conforme dissemos em tópicos anteriores, é um sistema analítico que avalia informações e conhecimentos e emite, após esta análise, uma sentença, uma decisão. A consciência pode ser comparada a um juízo ou uma vara judicial. O juízo ou vara judicial através do processo judicial analisa provas, fatos, etc. A consciência, através de processos mentais, analisa informações, saberes e conhecimentos. Os processos mentais são conhecidos por pensamentos. Quando pensamos estamos analisando informações, saberes e conhecimentos.
Portanto, a consciência natural, através de processos mentais (pensamentos), analisa informações, saberes e conhecimentos emitindo, como resultado desta análise, uma sentença que poderá formar uma nova informação, um novo saber ou um novo conhecimento, ou então, a decisão é uma ordem que deve ser executada. Esta ordem da consciência é a vontade. E esta ordem, decisão interna (uma sentença), própria do indivíduo, é gerada por conhecimentos, saberes e informações que o indivíduo recebeu ao longo do tempo e de sua vida, assim como dos valores que aprendeu, dos costumes de onde vive, etc. São informações, saberes e conhecimentos construídos coletivamente pela humanidade ao longo de sua história e adquiridos pelo indivíduos por meio de aprendizagens.
Além disso, defini a Liberdade como poder do indivíduo de agir de acordo com a sua própria consciência, ou seja, agir de acordo com a ordem emanada da consciência. Agir/expressar/manifestar a própria a consciência. A liberdade, portanto, é sempre uma ação em potencial, uma ação que pode ser concretizada ou não. Em ambos os casos estamos diante da liberdade do indivíduo.
Para ter liberdade é preciso ter consciência, pois é a consciência que cria a liberdade, quando emite uma ordem que deve ser cumprida. Inclusive é a própria consciência que criou a idéia de liberdade e é a minha consciência que criou esta definição que estou expressando aqui agora. A consciência constrói uma ordem, logo constrói a liberdade. É uma construção racional, uma construção do intelecto humano. A liberdade, portanto, é o poder de manifestar a consciência.
Além disso, a liberdade é uma característica humana exclusiva, pois a consciência, entendida como sistema analítico de informações, saberes e conhecimentos, é exclusividade humana. Contudo, se criarmos uma máquina com consciência e com poder de manifestar as decisões desta consciência, esta máquina também terá liberdade. Certamente, será uma máquina parecida com os seres humanos, mas não igual aos seres humanos.
É o caso, por exemplo, do sistema totalitário. Um sistema que é um grande Leviatã, pois é formado coletivamente pela junção de vontades de um grupo. Um sistema que possui uma consciência artificial, uma consciência superficial, uma consciência totalitária. Porém, uma consciência. E se é uma consciência, ela emite ordens, não necessariamente através de processos analíticos. E a execução destas ordens gera a liberdade deste sistema. No caso, a liberdade totalitária.
Portanto, a consciência totalitária não é uma consciência como as demais. Não é igual a consciência dos seres humanos. É a consciência de um sistema. Um sistema construído por pessoas e com um propósito específico: dominar todos os níveis da sociedade, tornando os seres humanos meras peças da máquina totalitária. Por isso, esta consciência tem características anômalas e um funcionamento atípico, conforme veremos ao longo deste texto.
Inclusive a denomino de consciência porque ela substitui a consciência natural dos homens depois da ação do totalitarismo sobre eles, porém ela é uma consciência artificial, uma consciência superficial, sendo mais parecida com um processador de um computador do que com um cérebro humano, ou seja, é uma consciência que, predominantemente, reproduz e aplica sentenças prontas. Sentenças advindas de outro lugar, produzida por outra pessoa, etc.
Isto significa que a consciência totalitária, ao invés de informações, saberes e conhecimentos adquiridos naturalmente, é dominada por dogmas, falsas verdades absolutas e mentiras. Mas não é só isto, estes dogmas, falsas verdades absolutas e mentiras solidificam-se em uma crença de dominação e conversão pela espada.
E, a partir disso, todas as instâncias da sociedade começam a ser tomadas e dominadas por esta crença. Inegavelmente, é uma crença extremamente fanática. Uma crença que, nas manifestações totalitária que conhecemos, não tinha um aspecto religioso. Porém, não devemos nos enganar, o fanatismo é a primeira instância de um sistema totalitário. E o fanatismo religioso, que não reconhece e nem respeita as diferenças e nem a vida, certamente, caminha neste sentido.
A consciência totalitária é uma consciência fanática. Por trás do fanatismo está a crença, os dogmas, as falsas verdades absolutas e as mentiras do sistema. O fanatismo impermeabiliza a consciência, criando uma redoma impenetrável ao redor da crença e dos dogmas. Logo, argumentar com um fanático é extremamente difícil e inútil. Ele não respeita e não reconhece diferenças, não negocia e não se dobra. Um fanático agindo não reconhece barreiras e nem limites, pois sua consciência não se fixa em mais nada a não ser no objetivo fanático, a não ser em realizar aquilo para o qual foi programado. A programação está cristalizada na consciência.
Contudo, isto é importante, as mesmas características encontradas na consciência totalitária também existem na consciência comum dos indivíduos, porém, nestas últimas, as características são minimizadas e confrontadas com questionamentos e testes. Questionamentos que, através dos processos mentais (pensamentos), paralisam e estancam o fanatismo, minimizando-o, reduzindo-o. Não deixando as idéias fanáticas se sobreporem às demais instituições, informações e conhecimentos. Na consciência totalitária estes freios e contrapesos não existem, pois a atividade de pensar é paralisada e congelada, completamente, pelo fanatismo.
A consciência totalitária, portanto, é dominada por dogmas, falsas verdades absolutas e mentiras. Logo, é extremamente fanática. É o cérebro do grande Leviatã totalitário. Portanto, é apenas uma parte do monstro. Um monstro que é construído aos pouco dentro da sociedade. Um monstro que vai se apoderando das instituições e, por último, se apodera de todos os indivíduos. Apodera-se das consciências individuais, dissolvendo-as, e colocando, em seu lugar, a consciência do monstro totalitário.
Por isso, é válido assinalar, o monstro totalitário se instala em ambientes sociais nos quais exista pré-disposição a aceitá-lo (caso do nazismo), ou então, em ambientes onde as pessoas já não possuem meios para resistir à instalação deste monstro (Stalinismo). De uma forma ou de outra, em ambos os casos, o vazio de pensamento se faz presente, seja antes da instalação do monstro, seja após a sua ação sobre as consciências dos indivíduos. E se há vazio de pensamento, o mal se espalha rapidamente, contaminando todos os níveis da sociedade, construindo agentes/pessoas totalitárias, gerando, ou intensificando, a banalidade do mal.