A novidade totalitária

Autor: Leonildo Correa - Instituto OCW Br@sil  

Há muito tempo, um estudioso também percebeu que o domínio totalitário ia além, muito além, das coisas materiais visíveis. Certamente, ele não usou esses termos, pois ele era contemporâneo aos fatos. Esse estudioso era Reich, Wilhelm Reich.

Quando Reich declarou terem as massas desejado o fascismo, foi como mexer num vespeiro. Perseguido pelos nazistas, acabou sendo expulso também do partido comunista. Através de uma aproximação até hoje polêmica entre o marxismo e a psicanálise, Reich insistiu na crítica ao 'marxismo vulgar', sempre pronto a definir pela infra-estrutura econômica a análise de qualquer tipo de fenômeno. Não era pela teoria econômica, dizia ele, que o misticismo do nazismo poderia ser entendido.

Não era pela 'base econômica' que se poderia entender por que a massa de trabalhadores famintos votava na direita, ao invés de votar na esquerda. E cita Otto Strasser para criticar a permanente cegueira dos marxistas alemães: "Seu erro básico é que vocês rejeitam ou ridicularizam a alma e a mente, e não compreendem que estas movem tudo.[1]

Certamente, as explicações de Reich envolvem outras variáveis. Basicamente, ele diz que o domínio do fascismo e do nazismo deve ser entendido pela questão sexual e explica todas as coisas a partir dessa perspectiva. Isso está escrito no livro "Psicologia de massa do fascismo" - Publicações Escorpião - 1974 - Porto.

Mais especificamente, a citação de Reich diz o seguinte:

Em muitas assembléias alemãs, ouviam-se freqüentemente anti-capitalistas sensatos, e cheios de boas intenções, mesmo quando pensavam em termos nacionalistas e metafísicos, como por exemplo Otto Strasser, apresentar aos marxistas esta objeção: Vocês, os marxistas, referem-se habitualmente à doutrina de Karl Marx. Mas ao que sabemos, Marx ensinou que a teoria só pela prática pode ser confirmada. Ora vocês limitam-se a dar explicações das derrotas da Internacional Operária. O vosso marxismo fracassou: o que serviu para explicar a derrota de 1914 foi a deserção da social-democracia; quanto a 1918, foi a traição da sua política e das suas ilusões.

E agora vocês vêm com novos argumentos na manga para explicar que no momento da crise mundial as massas oscilaram para a direita e não para a esquerda ! Mas nem todas essas explicações poderão suprimir o facto da derrota ! Depois de 80 anos seria bom ver na prática a confirmação da doutrina da revolução social !

O vosso erro principal consiste em negar a alma e o espírito ou em zombar dele, e em não compreendê-lo, ele que imprime movimento a todas as coisas.[2]

Portanto, outros estudiosos, durante o eclipse totalitário, já percebiam que esse fenômeno dominava não apenas os aspectos materiais da vida, mas também entrava na cabeça das pessoas, ocupando e modificando suas consciências.

 A única forma de se retirar completamente a liberdade de um indivíduo é formatando a sua consciência. Não basta apenas criar normas que inibam ou impeçam a consciência de se manifestar, pois a consciência pode, perfeitamente, contrariar a norma ou ignorá-la, ou seja, as normas não retiram a liberdade do indivíduo, pois não podem e não conseguem apagar/inibir a consciência. As normas simplesmente reorientam ou condicionam a consciência do indivíduo exteriormente, limitando a liberdade.

Nesse ponto entra a questão da formatação da consciência. Considerando a consciência como um computador, a formatação implica em apagar todo o conteúdo da consciência e, em seguida, instalar novos conteúdos. Por exemplo, um computador que rodava o sistema Windows é formatado para instalação do sistema Linux.

Portanto, a formatação implica na substituição completa do conteúdo da consciência. Essa substituição ocasiona uma modificação total nas ordens emitidas, pois a base cognitiva foi modificada, assim como as informações, os saberes e os conhecimentos utilizados para as análises.

É exatamente isso que acontece nos sistemas totalitários. A consciência das pessoas que integram esse tipo de sistema é formatada e preparada para receber uma nova base cognitiva, novas informações, saberes e conhecimentos. A formatação das consciências é implantada em toda a sociedade, uniformizando, dessa forma, o agir das massas.

Logo, no contexto totalitário o conteúdo das consciências dos indivíduos não é natural, mas sim implantado pelo sistema vigente. Por isso, não há liberdade nesses sistemas, pois não há espaço para desenvolvimento e expressão da consciência individual. A ação dos indivíduos tem origem nas ordens emitidas pela consciência do sistema… O indivíduo não age de acordo com a sua própria vontade, pois ele não tem vontade em um sistema totalitário… A vontade que o indivíduo expressa é a vontade do sistema totalitário. O indivíduo não agiu de acordo com a sua própria consciência, mas foi levado a agir de acordo com a consciência do sistema.

Além disso, é válido dizer que a única forma de se inibir completamente a liberdade de um indivíduo é formatando a sua consciência e instalando, no lugar do conteúdo original, um conteúdo preparado para emitir ordens previamente estabelecidas. Não basta apenas criar normas que inibam ou impeçam a consciência de se manifestar, pois a consciência pode, perfeitamente, contrariar a norma ou ignorá-la, ou seja, as normas não retiram a liberdade do indivíduo, pois não podem e não conseguem formatar a consciência. As normas simplesmente reorientam ou condicionam a consciência do indivíduo exteriormente, limitando a liberdade.

Formatar a consciência do indivíduo significa apagar o conteúdo original e instalar no lugar dele um conteúdo artificial, um conteúdo capaz de tornar a pessoa um robô que apenas segue ordens, um robô obediente.

Contaminar o funcionamento natural da consciência, formatando a base de análise significa fazer uma espécie de lavagem cerebral que modifica o banco de dados analítico da consciência. O banco de dados formado com informações, saberes, conhecimentos, costumes, valores, etc, que o indivíduo captou ao longo da vida naturalmente, é substituído por um banco de dados artificial, introjetado pelo sistema, dentro da consciência da pessoa.

Assim, a consciência, ao invés de analisar o banco de dados natural, analisa o banco de dados artificial. E é em cima deste último que a consciência passa a operar, emitindo sentenças (vontade). Logo, a liberdade oriunda desta vontade não é natural, mas artificial, pois é viciada e contaminada, segue o conteúdo da consciência do sistema, não é a liberdade do indivíduo, mas sim a liberdade do sistema.

Inegavelmente, o conteúdo de uma consciência totalitária transforma a pessoa em um servo do sistema, em um indivíduo cego e obediente, um indivíduo que segue, a risca, as ordens dadas pelos operadores da máquina totalitária.

E é justamente nesse ponto que entra a novidade totalitária. O totalitarismo faz uma coisa que nenhum outro sistema tinha conseguido fazer antes. E que coisa é essa? O totalitarismo formatou a consciência dos indivíduos. Logo, retirou completamente a liberdade dos Seres Humanos que pertenciam àquele sistema. Todos os movimentos anteriores atingiam o indivíduo criando regras e normas que condicionavam as consciências e limitavam a liberdade, mas nenhum sistema jamais havia formatado a consciência das pessoas. Modificando, profundamente, o conteúdo da consciência, o totalitarismo retirou completamente a liberdade dos indivíduos.

Mas o totalitarismo foi além, muito além disso, pois ele não só formatou a consciência, apagando, ou escondendo, o conteúdo original das consciências individuais, mas o substituiu por um conteúdo preparado pelo sistema, um conteúdo que formava a consciência do sistema totalitário.

De acordo com Francisco Xarão, na obra "Política e Liberdade em Hannah Arendt":

Nunca antes um regime de opressão política conduziu-se desta forma. Todos os regimes de opressão conhecidos até então (ditadura, tirania, despotismo) haviam apenas criado barreiras para cercear a liberdade, mas nunca exterminá-la, como ocorre no totalitarismo. Portanto, em se tratando desse regime o que é incrível não é a existência do terror, recorrente em todos os sistemas de despotismo político, mas o fato de que o mesmo foi erigido em princípio de governo. Sua função não é mais, como foi em outras formas de opressão, impedir a ação contra o governo, mas sim fazer com que as massas se comportem de acordo com um padrão definido pela ideologia.

O que os campos de concentração tentam provar, através do terror e da ideologia, é a possibilidade de transformar a "natureza humana". Pode-se dizer, então, que os campos de concentração são o "ideal social que rege a dominação total em geral", pois neles todos os homens são igualados à condição biológica de sobrevivência, a um tipo de espécie humana que se assemelha a outras espécies de animais.

Para que seja possível essa transformação, é necessário que todo o vestígio de cidadão seja apagado do indivíduo. Esse processo de aniquilamento do cidadão começa, no século XX, com os apátridas e continua com a perda dos Direitos do Homem, até encontrar sua forma mais cruel e definitiva nos campos de concentração dos regimes totalitários.

Assim, as pessoas perderam[3] a sua consciência individual, logo, perderam a sua liberdade individual; e receberam, em troca, a consciência do sistema, logo, passaram a ter a liberdade do sistema (poder de agir de acordo com a consciência do sistema). A consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

Mas, como se dá a formatação da consciência nos sistemas totalitários? Em termos excessivamente genéricos, há uma espécie de lavagem cerebral em massa. Formata-se a consciência do indivíduo, contradizendo e confrontando com mentiras as informações, saberes e conhecimentos que ele possui… Em seguida, promove-se a perda da sua identidade e individualidade, imergindo-o em uma multidão de iguais.

Por isso, em um sistema totalitário a mídia, a propaganda e o terror são tão importantes. Por isso, o vazio de pensamento, a mediocridade e a indiferença são essenciais para o sucesso inicial do sistema. São características comuns no homem da massa, características que facilitam e garantem o sucesso de formatação e substituição do conteúdo das consciências individuais.

Pessoas com essas características têm o conteúdo de suas consciências facilmente formatados/modificados/substituídos. São pessoas dóceis, facilmente controladas e dominadas. Pessoas que não percebem que seus pensamentos são pensamentos do sistema, que suas idéias e ideais são idéias e ideais do sistema, que suas ações são ações do sistema. A consciência que possuem é a consciência do sistema. Pensam igual o sistema. Falam igual o sistema. Agem igual o sistema. Fazem o que o sistema faz.

A formatação da consciência, assim como a substituição do conteúdo desse sistema é facilitada pelas características da massa.

De acordo com Hannah Arendt:

Os movimentos totalitários são possíveis onde quer que existam massas que, por um motivo ou outro, desenvolveram certo gosto pela organização política. As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. O termo massa só se aplica quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização profissional ou sindicato de trabalhadores. Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto. (p. 399)

Percebemos, portanto, que o homem da massa é um homem que não desenvolveu a sua consciência política e pouco exercita a sua consciência social, que também é atrofiada. Logo, não tem um pensamento crítico evidente e pode ser facilmente controlado, seguindo a voz de quem grita mais alto. Este homem, que integra a massa de iguais, é o modelo ideal para a ação da mão invisível do totalitarismo, para formatação da consciência individual e instalação da consciência totalitária.

O totalitarismo é um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põem o sistema em risco, podendo romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema. E o homem da massa não questiona nada, apenas executa as ordens. Logo, é o homem ideal para assumir a função de agente totalitário. É o indivíduo totalitário natural, precisando apenas de treinamento básico para o posto futuro.

O método totalitário de formatação da consciência dos indivíduos acompanhado pela instalação da consciência do sistema totalitário em cada pessoa, nas palavras de Hannah Arendt, é a produção/construção de uma massa atomizada e amorfa. A mão invisível do totalitarismo ataca toda a sociedade de uma só vez.

Um registro mais preciso desse ataque é descrito, por Hannah Arendt, no Stalinismo:

Desde os tempos antigos, a imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias, mas essa equalização não basta para o governo totalitário, porque deixa ainda intactos certos laços não políticos entre os subjugados, tais como laços de família e de interesses culturais comuns. Se o totalitarismo encarar seriamente as suas pretensões, deve considerar sem desvio a questão em que tem de "acabar de uma vez para sempre com a neutralidade de xadrez", isto é, com a existência autônoma de qualquer espécie de atividade. Os amantes do "xadrez por amor do xadrez", adequadamente comparados pelo seu liquidatário com os amantes da "arte pela arte", ainda não são de maneira absoluta elementos atomizados numa sociedade de massas cuja uniformidade completamente heterogênea constitui uma das condições primárias do totalitarismo.

Do ponto de vista dos governantes totalitários, uma sociedade dedicada ao xadrez por amor ao xadrez é apenas diferente e menos perigosa em grau do que uma classe de agricultores por amor à agricultura. Hitler definiu muito adequadamente o membro da SS como o novo tipo de homem que em nenhuma circunstância jamais fará qualquer coisa "por ela mesma".

A atomização de massas na sociedade soviética foi realizada através do hábil uso de sucessivos expurgos que invariavelmente precediam uma verdadeira liquidação em grupo. A fim de destruir todos os laços sociais e familiares, os expurgos eram realizados de modo a ameaçar com o mesmo destino o réu e todas as pessoas que privavam com ele, desde os simples conhecidos aos amigos mais íntimos e aos familiares. A conseqüência do singelo estratagema de "culpa por associação" reside no seguinte: logo que um homem é acusado, os seus velhos amigos são transformados imediatamente nos mais implacáveis inimigos; para salvarem a própria pele, oferecem informações e apresentam-se diligentemente com denúncias que corroborem as provas não existentes contra ele; obviamente, esta é a única maneira de comprovar a sua lealdade.

Retrospectivamente, tentarão provar que as suas relações ou a sua amizade com o acusado constituíam apenas pretexto para o espiar ou para o denunciar como sabotador, trotskista, espião estrangeiro ou fascista. Sendo o mérito "aferido pelo número de denúncias feitas por velhos camaradas" , é óbvio que a cautela mais elementar exige que uma pessoa evite todos os contactos íntimos, se possível - não para evitar a descoberta dos pensamentos próprios, mas para eliminar, nos casos quase certos de futuros incômodos, todas as pessoas que possam ter não só um ínfimo interesse em denunciá-la, mas também a necessidade irresistível de provocar a sua ruína simplesmente porque a própria vida do provável denunciante corre perigo.

Em última análise, foi através do desenvolvimento deste estratagema até aos seus mais fantásticos extremos que governantes bolcheviques conseguiram criar uma sociedade atomizada e individualizada, como nunca se viu igual e que eventos ou catástrofes só por si dificilmente poderiam originar. (p. 412-413)

(...) Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados. Distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável de cada membro individual. Essa exigência é feita pelos líderes dos movimentos totalitários mesmo antes de tomarem o poder e decorre da alegação, já contida na sua ideologia, de que a organização abrangerá, no devido tempo, toda a raça humana. Contudo, onde o governo totalitário não é preparado por um movimento totalitário, o movimento tem de ser organizado depois, e as condições para o seu crescimento têm de ser artificialmente criadas de modo a possibilitar a lealdade total, que é a base psicológica do domínio total. Não se pode esperar essa lealdade a não ser de seres humanos completamente isolados que, desprovidos de outros laços sociais - de família, amizade, camaradagem - só adquirem o sentido de terem lugar neste mundo quando participam de um movimento ou pertencem a um Partido.(p. 414)

Portanto, essa atomização das massas, citada por Hannah Arendt, é um método eficiente para formatação da consciência individual das pessoas. Este método elimina a consciência individual através da eliminação das partes, das outras consciências que compõem a consciência individual. Primeiro, ataca a consciência política, em seguida a consciência social. Logo após a consciência coletiva e, por último, assimila a consciência individual como um todo. Tornando o indivíduo um membro do sistema. Mais uma pessoa que roda, e sua consciência, o sistema operacional totalitário, um sistema operacional com conteúdo totalitário.

Ao mesmo tempo em que destrói a individualidade da pessoa, a consciência individual, o totalitarismo insere a consciência do sistema totalitário no indivíduo. Na descrição, isto aparece no fato dos velhos amigos serem transformados em delatores ou nos mais implacáveis inimigos. Transformados em zumbis que protegem o sistema totalitário, detectando e denunciando a existência de pessoas que ainda não foram assimiladas pelo sistema, ou seja, de pessoas que ainda possuem intactas a consciência individual natural. Logo, pessoas que podem questionar e destruir o sistema por dentro, exercendo a liberdade natural, oriunda da consciência individual natural.

No rodapé da página 413, da obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism", Hannah Arendt cita o relato de Nadiedja Mandelstam que viveu o horror da ação totalitária na URSS e assistiu de perto a mão invisível do sistema totalitário formatando as consciências, uma por uma, até destruir a consciência principal e a individualidade dos indivíduos:

Ninguém confiava em ninguém, e cada conhecido era um possível informador da polícia. Às vezes, parecia que todo o país estava a sofrer de mania de perseguição - uma doença de que ainda hoje não estamos curados. A nossa aflição não era sem fundamentos: sentíamos-nos como se estivéssemos constantemente expostos a uma câmara de raios-X, pois a espionagem mútua era o principal instrumento de controle do Estado.

"Não há que ter medo", havia dito Stálin, "é uma tarefa como todas as outras". Nas escolas, um sistema de "autogoverno" na sala de aula, com monitores e representantes do Komsomol, possibilitava aos professores extrair dos alunos as informações de que necessitavam. Os estudantes tinham ordem de espiar os professores.

(...) Tudo isto era parte da nossa vida diária, e acontecia numa vasta escala e afetava a todos indiscriminadamente. Cada família reexaminava constantemente o seu círculo de relações, procurando determinar quais eram os provocadores, os informadores e os traidores. Depois de 1937, as pessoas simplesmente deixaram de se encontrar umas com as outras: a polícia secreta havia atingido o seu objetivo final. Além de garantir a existência de um constante fluxo de informações, a polícia secreta havia isolado completamente os indivíduos.

Ao tomar conhecimento da última prisão, nunca perguntávamos: "Por que ele foi preso?" Mas nós éramos uma exceção. Para muita gente aturdida pelo medo, fazer essa pergunta era um modo de alimentar alguma esperança: se os outros estavam a ser presos por algum motivo, então eles não seriam presos porque nada haviam feito de errado.

Cada um procurava encontrar um motivo mais engenhoso que o outro para justificar essas prisões: "Bom, ela é contrabandista mesmo, você sabe"; "não se pode negar que ele foi além dos limites"; "eu mesmo ouvi quando ele disse..." Ou então "não se podia esperar outra coisa - aquele sujeito não presta"; "sempre achei que havia algo errado nele"; "ele não é um de nós". Isto era motivo suficiente para prender e destruir uma pessoa: "não é um de nós", "fala demais", "é mau sujeito".

Estas afirmações nada mais eram que variações de uma cantiga que havíamos escutado pela primeira vez em 1917. A opinião pública e a polícia inventavam sem cessar novas variações mais ilustrativas, alimentando o fogo sem o qual não há fumo. Por isto, no nosso círculo era proibido fazer a pergunta: "porque foi ele preso?" " Por que?" exclamava Akhmatova, indignada, sempre que algum de nós, contagiado pelo clima reinante à nossa volta, fazia essa pergunta "Você já devia saber há muito tempo que as pessoas são presas por nada !" (Nadiedja Mandelstam).

Olhando para Eichmann, vemos que ele tinha vontade, que ele seguia a sua vontade, mas ele não era livre, pois a sua consciência havia sido formatada e substituída pelo nazismo. As informações, saberes e conhecimentos, enfim a base cognitiva, que circulava na consciência de Eichmann e que emitia ordens, formando a sua vontade, havia sido implantada pelo sistema totalitário. Logo, a liberdade de Eichmann era a liberdade do sistema totalitário, pois ele não tinha uma consciência individual, mas sim a consciência do nazismo.

A vontade de Eichmann era formada por uma consciência movida por informações, saberes e conhecimentos introjetados pelo movimento nazista. A consciência de Eichmann era a consciência do sistema e as ordens emitidas eram sentenças prontas, formulas prontas construídas pelo nazismo. Eichmann não questiona as sentenças e nem as fórmulas. Não processava informações e nem os conhecimentos. Apenas executava as ordens que recebeu da consciência totalitária. Inclusive, Eichmann chama este comportamento de obediência cadavérica (Kadavergehorsam).

Isto é contado por Hannah Arendt na obra Eichmann em Jerusalém:

Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncios Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (...)

Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens - sempre o cuidado de estar "coberto" -, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou. (p. 152)

E como dissemos anteriormente, aceitar sentenças prontas significa não processar nada, apenas executar aquilo que veio pronto. Este é o truque do sistema: introjetar sentenças prontas nos indivíduos que integram o sistema. Por isso, fala-se em vazio de pensamento. Vazio de pensamento de um ser humano normal. Porém consciência repleta de pensamentos do sistema totalitário: anti-semitismo, extermínio, ordens do Führer, câmara de gás, etc.

 Outra passagem de Hannah Arendt que evidencia a retirada de consciência individual está na p. 394-395 da obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism" e diz:

Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazi ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento, mas o facto espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, e nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. Pelo contrário: para assombro de todo o mundo civilizado, estará até disposto a colaborar com a própria condenação e tramar a própria sentença de morte, contanto que o seu "status" como membro do movimento permaneça intacto.

Seria ingênuo pensar que essa obstinada convicção, que sobrevive a todas as experiências reais e anula todo o interesse pessoal, seja mera expressão de idealismo ardente. O idealismo, tolo ou heróico, nasce da decisão e da convicção individuais, mas forja-se na experiência. O fanatismo dos movimentos totalitários, ao contrário das demais formas de idealismo, desaparece no momento em que o movimento deixa em apuros os seus seguidores fanáticos, matando neles qualquer resto de convicção que possa ter sobrevivido ao colapso do próprio movimento.

Mas, dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parece ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte. (p. 394-395)

Liberdade é o pode de agir de acordo com a própria consciência, é o poder de manifestar a própria consciência. Liberdade totalitária é o poder de agir de acordo com a consciência totalitária. E a consciência totalitária só emite ordens de dominação e destruição. As pessoas não se reúnem porque são livres ou para expressar as suas consciências, mas sim, porque possuem certas características, criadas ou outorgadas pelo sistema totalitário, que as tornam específicas para certos fins. As pessoas se reúnem para dominar ou, então, se reúnem para serem destruídas.

O campo de concentração, inegavelmente, é uma esfera pública totalitária que reúne pessoas com características específicas e destinadas a certos fins. Além disso, nestas esferas totalitárias as pessoas nãos e reúnem espontaneamente, motivadas por suas consciências naturais, mas são reunidas por ordens do sistema, são motivadas pela consciência totalitária.

A própria consciência totalitária disseminada na sociedade, contaminada por este mal, promove a divisão e a reunião dos grupos, distribuindo as pessoas pelas esferas respectivas: para dominar ou para serem destruídas. O anti-semitismo está na consciência totalitária, assim como a sociedade perfeita, o arianismo, etc.

No final do documentário "Arquitetura da Destruição", Peter Cohen diz:

Longe da Alemanha, no porão dos vencedores, retratos da hierarquia nazista, apareceram décadas depois. Dentre os funcionários do Partido, vemos peritos em genocídio, médicos e arquitetos. É árdua a tarefa de definir o Nazismo em termos políticos, pois sua dinâmica está repleta de um conteúdo diverso daquilo que comumente chamamos de Política. Em grande parte, esta força motora era estética. Sua maior ambição era o embelezamento violento do mundo. Das mortes de doentes mentais ao extermínio dos judeus não houve um verdadeiro motivo político.

Não eliminaram os inimigos ou oponentes do regime, mas sim, pessoas inocentes, cuja existência não estava de acordo com os ideais nazistas. Com os civis mortos, os assassinatos em massa não eram crimes de guerra. Eram assassinatos de civis por ordens militares. A bagagem mental obscura, a estranha noção de política, que são tão características da cultura européia, encontraram vazão sob o domínio de Hitler. Hitler passou das palavras à ação. Sem restrições, ele transformou uma ideologia absurda em uma realidade infernal.

 

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[1] Nazismo: o triunfo da vontade - Alcir Lenharo - Ed. Ática - 1998 - p.15.

[2] Reich, Wilhelm. Psicologia de massa do fascismo. Porto. Publicações Escorpião, 1974. p. 10-1.

[3] O termo “perderam” está no sentido de que o conteúdo da consciência, ou seja, as informações, os saberes e os conhecimentos, foram modificados ou trocados por outros.