Deus, Energia, Matéria e Tempo

Autor: Leonildo Correa - Advogado  

Um artigo da Revista da Faculdade de Direito da USP, tratando do conceito de afinidade eletiva[1], cita os ensinamentos do físico brasileiro Mário Schenberg sobre os núcleos fundamentais ou idéias fundamentais de uma teoria.

De acordo com Schenberg[2], citado no artigo, centros nervosos do pensamento constituem-se por idéias fundamentais, as quais por serem fundamentais, são dotadas de complexidade, obscuridade, densidade e mistério. Quando se descobre um núcleo fundamental, quase não se encontra uma linguagem que faça pleno sentido e seja compreendida no contexto cultural no qual se revela. Desta maneira, quando uma idéia fundamental é descoberta, transcende-se tanto a individualidade como o contexto social no qual é revelada[3].

Inegavelmente, nesta obra tratamos de núcleos fundamentais que se chocam, diretamente, com a percepção vigente de Deus, espírito e homem. Uma percepção que muda o referencial, estabelecendo a energia, a consciência e o pensamento como elementos essenciais para a compreensão de Deus, do mundo espiritual e da evolução do homem.

Aqui entra uma mudança fundamental de perspectiva, pois fomos adestrados a pensar, desde o início, que tudo é matéria, ou seja, o Universo é feito de matéria.  Isso não condiz com a realidade. Tudo é energia, inclusive, de acordo com a fórmula de Einstein (E=M*C2) a matéria também é energia. O Universo é feito de energia. Portanto, o elemento fundamental do Universo é a energia. Não a matéria.

Essa fórmula de Einstein estabelece o parâmetro de equivalência entre ambas, ou seja, entre a matéria, que forma os seres e objetos da terceira dimensão, com energia, que forma os seres e objetos da quarta dimensão. Não é apenas uma equivalência entre dois elementos da física, mas sim uma equivalência entre dois mundos, equivalência entre o mundo habitado pelo homem e o mundo dos espíritos.

 O homem, de acordo com a fórmula de Einstein, também é um ser feito de energia. O homem, os animais, os planetas, as estrelas e todos os objetos dessa dimensão são energia condensada em matéria. A matéria é energia presa na terceira dimensão. É uma forma específica de energia. Basta acelerá-la à velocidade da luz para que volte a sua natureza original, para que seja transformada em energia.

Portanto, quando Deus criou Adão, tirou-o da quarta dimensão, da dimensão dos espíritos, e colocou-o na terceira dimensão. Na quarta dimensão Adão era um sopro que estava com Deus. Já o homem do mundo tridimensional é um boneco de barro, matéria ou terra do planeta. O homem é um ser híbrido. É um boneco de barro movido pela centelha divina, uma faísca de Energia Consciente (o sopro de Deus), que vem da quarta dimensão. O homem foi condenado a ser matéria. A ter apenas uma pequena centelha de Energia Consciente. A faísca de Energia Consciente no homem movimenta a sua consciência. É o pensamento.

Matéria não é Energia Consciente da quarta dimensão, ou seja, não é a mesma energia que forma os seres espirituais ou que movimenta a consciência humana. Além disso, quando a matéria inanimada da terceira dimensão se transforma em energia, ela não vira Energia Consciente. Mas sim, energia comum.

E= M.C2, onde E é a energia, M é a massa e C2 é a velocidade da luz ao quadrado. Massa é uma quantidade de matéria (por exemplo, matéria humana) acelerada à velocidade da luz ao quadrado... é a nossa matéria se aproximando da natureza de Deus. Mais especificamente é o corpo material se transformando em um corpo energético. Contudo, Deus não é uma forma qualquer de energia. É Energia Consciente. É uma Consciência na forma de energia. Logo, algo muito superior à energia comum descrita por essa fórmula. Contudo, essa fórmula pode ser utilizada para termos uma noção da métrica (espaço e tempo) da quarta dimensão. Métrica do mundo da energia.

Quando o Homem morre, uma parte dele vira energia comum, energia sem consciência. Essa é a nossa parte que é feita de terra e que volta para a terra. Entretanto, outra parte humana, a centelha divina que movimenta a consciência humana, esta parte se liberta da prisão material, do corpo físico. Ela se liberta e flui, como um ser espiritual, para a quarta dimensão, para a dimensão dos espíritos. Essa centelha é Energia Consciente. Ela não pertence ao mundo de três dimensões, mas sim ao mundo da Energia Consciente.

O Homem é imagem e semelhança de Deus em sua Consciência, não em seu corpo físico, não no corpo material. O Homem-Consciência é imagem e semelhança de Deus, pois a Energia Consciente que movimenta a consciência humana é a mesma que constitui Deus, que forma os seres espirituais, seres que são energia.

O tempo de Deus é diferente do tempo do Homem. Deus é uma Consciência na forma de energia. Logo, podemos ter uma noção do tempo de Deus olhando para a famosa fórmula de Einstein (E= M.C2) que relaciona matéria (o mundo em três dimensões) com energia (o mundo em quatro dimensões). É interessante observar que essa fórmula dá uma idéia de espaço e tempo na quarta dimensão. Isso aparece no fator C2, ou seja, na velocidade da luz ao quadrado.

Além disso, este mundo material, que habitamos, este mundo tridimensional, está boiando dentro do mundo dos espíritos, dentro do mundo da Energia. Somos objetos maciços imersos em um oceano de energia. Essa visão é importante, o mundo dos espíritos não é uma terra distante, não é um mundo fora do nosso mundo. Ilustrativamente, somos uma grande bolha dentro do mundo dos espíritos, estamos dentro do mundo da energia, inclusive, somos energia. Somos resultado da mistura de dois tipos de energia: energia comum + Energia Consciente. A energia comum é a matéria que dá forma aos nossos corpos. A Energia Consciente movimenta a nossa Consciência. É o nosso pensamento.

O Gênesis capítulo 1 descreve Deus, um ser que é Energia Consciente, manipulando energia comum, para construir uma dimensão, um mundo material. A energia comum do mundo dos espíritos transformou-se em matéria, em luz (energia luminosa), etc… E o homem, também formado com essa energia comum, recebeu uma faísca da Energia Consciente, da Energia que constitui Deus, tornando-se imagem e semelhança do seu Criador, tornando-se um ser material, porém animado e pensante.

O capítulo 1 do Genesis, portanto, não descreve apenas a formação da terra e dos seus habitantes, mas sim a formação de um Universo em três dimensões. Descreve a formação de um Universo material dentro do mundo da energia, dentro do mundo espiritual. Por isso, a descrição fala em luz, firmamento, dia, noite, tarde e manhã. Características do mundo tridimensional, não do mundo da energia.

O primeiro versículo desse capítulo diz: “No início Deus criou céu e terra.” Essa frase demonstra que primeiro foi feito o mundo espiritual, o mundo da energia, o céu; depois foi feito a terra, o mundo tridimensional, o mundo que nós humanos vemos quando olhamos pela janela ou pelo telescópio.

Já o versículo 2 diz: “A terra era sem forma e vazia, com escuridão sobre a face das profundezas, mas o espírito de Deus movia-Se sobre a superfície da água.” A terra era sem forma e vazia indica que ela ainda era energia comum, energia que ainda não havia sido condensada em matéria. Quando a energia é condensada em matéria, automaticamente, surge o espaço tridimensional, logo, o corpo assume uma forma. Contudo, enquanto era energia não tinha forma. Energia não tem forma. E era vazia. Além disso, havia escuridão sobre a face das profundezas. Por que havia escuridão??? A resposta é simples: porque a luz é energia comum do mundo material. É energia luminosa do mundo tridimensional. Como não havia mundo material, também não havia energia luminosa. Inclusive, a energia luminosa que nos ilumina vem de um corpo celeste do mundo material, vem do sol. Sem o corpo celeste, sem luz.

E a seqüência do versículo 2 diz: ”(…) o espírito de Deus movia-Se sobre a superfície da água.” Contudo, se ainda não havia matéria, logo, como água é matéria, não havia água. Se não era água, era o quê? Era energia comum, energia eletromagnética comum. E o mais interessante é que a energia comum fluindo no espaço-tempo tem, exatamente, o comportamento da água. Inclusive, fluem em fluxos, tem corrente, ondas, etc e pode-se falar em um oceano de energia comum.

Portanto, a imagem de um oceano de energia comum foi descrita como um oceano de água. Isso porque era a única imagem do homem da terra, naquela época, que equivalia ao oceano observado. Em outras palavras, a quarta dimensão era um oceano de energia comum. E o Espírito de Deus, Energia Consciente, movia-Se sobre esse oceano de energia. Um oceano de energia que, na visão de Moisés, escritor do Gênesis, equivalia a um oceano de água.

De acordo com estudos científicos, o Gênesis foi escrito por Moisés no Ermo. E essa escrita foi terminada cerca de 1513 anos antes da Era Comum, ou seja, antes de cristo. E o Gênesis abrange o tempo que inicia com a criação e vai até 1657 antes da Era Comum, antes de Cristo. Entre 1657 e 1512 ocorre o êxodo do Egito. Inegavelmente, na época em que o Gênesis foi escrito, a única coisa parecida com o oceano de energia da quarta dimensão era um oceano de água do mundo tridimensional.

Além disso, é válido considerar que Moisés tenta transcrever para a linguagem humana fatos que foram descritos na perspectiva e linguagem da quarta dimensão. Perspectiva e linguagem do mundo dos espíritos. A Criação é descrita do ponto de vista de Deus, o Grande Criador de tudo.

Portanto, o Universo tridimensional foi criado dentro do oceano de energia comum que flui na quarta dimensão. O Espírito de Deus movia-Se sobre esse oceano de energia. A construção do Universo tridimensional usou como matéria-prima a energia comum que fluía em tal oceano.

Parte da energia comum foi condensada em matéria. Outra parte continuou como energia, transformada em luz (energia luminosa) ou continuando como energia eletromagnética comum (espectro invisível), etc.

O versículo 6, 7 e 8 diz: “Deus disse: ‘Seja um firmamento (expansão) no meio da água, e ele dividirá entre água e água’. Deus (assim) fez o firmamento, e separou a água abaixo do firmamento da água acima do firmamento. Ele permaneceu dessa maneira. Deus chamou o firmamento “céu”. Era tarde e era manhã, um segundo dia.”

Esses versículos descrevem pontos fundamentais, assim como a separação entre o mundo dos espíritos do mundo da matéria, do tridimensional. Quando Deus diz: “Seja um firmamento (expansão)…” O Universo tridimensional toma forma dentro do oceano de energia da quarta dimensão. Dentro da expansão, uma grande bolha, a energia comum se condensa em matéria. E essa expansão (Rakia, em hebraico) divide entre água e água, ou seja, divide o mundo tridimensional do mundo dos espíritos. Água, no mundo tridimensional, mundo da matéria, é água mesmo. Água no mundo da quarta dimensão, no mundo dos espíritos, é energia comum, ou seja, energia que não é Energia Consciente.

A divisão não faz um mundo de um lado e um mundo do outro lado. Mas sim um mundo dentro do outro. O mundo tridimensional foi criado dentro do mundo de quatro dimensões. O Universo tridimensional é uma expansão, uma bolha, dentro do mundo dos espíritos.

Na seqüência os versículos dizem que Deus separou água abaixo do firmamento da água acima do firmamento. Portanto, separou o mundo visível de três dimensões, do mundo invisível de quatro dimensões. E Deus chamou o firmamento, mundo invisível, de céu. Portanto, onde está o céu, o mundo invisível, a quarta dimensão, está onde não existe matéria, sendo um mundo de energia, ele ocupa os espaços vazios. Inclusive, ocupa os espaços vazios entre a matéria. Não é um mundo paralelo, mas sim um mundo que está ao nosso redor. Nós estamos dentro dele.

Essa constatação deriva do fato dos versículos 14 até 19 descreverem o preenchimento do firmamento com estrelas, planetas e asteróides, etc. Portanto, astros que pertencem ao mundo tridimensional, mas que estão boiando no firmamento, estão boiando no céu, no mundo dos espíritos. Como nós estamos em um astro, um planeta, e também estamos boiando no espaço, daí a constatação de que estamos rodeados pelo céu, pelo mundo da energia. Também estamos boiando no mundo dos espíritos.

É válido considerar que o espaço é preenchido por energia. E essa energia é o mundo dos espíritos. Um mundo invisível que nos rodeia. Portanto, na minha perspectiva, o céu, o Nirvana, o Paraíso, etc, está na quarta dimensão... São locais onde as Consciências fluem livremente... E a quarta dimensão é o mundo da energia, um mundo que nos rodeia, nos cerca, nos transpassa.

Certamente, na quarta dimensão existem outras energias que não estão em sintonia com Deus. O diabo, satanás, lúcifer, etc, compõem as trevas, o lado sombrio da força. Ele também tem seu reino na quarta dimensão. Também é uma consciência na forma de energia, porém, sua função não é iluminar as consciências, mas sim impedi-la de retornar ao Criador. Trabalha para disseminar o mal e reinar sobre aqueles que praticam e vivem de iniqüidades.

Enquanto as consciências ainda estão na terra, o lado sombrio tem poder para influenciá-las e se essas consciências se libertam do corpo material, sem alcançar a iluminação ou sem arrependimento e conversão, são encaminhadas para o reino de Lúcifer, onde pagarão o preço da iniqüidade que praticaram, assim como pela corrupção da essência divina que receberam.

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[1] "O Conceito de "Afinidade Eletiva" na Sociologia da Cultura Jurídica" - Eduardo José da Fonseca Costa - Revista da Faculdade de Direito da USP - 1997- vol. 92 - pág. 439-440.

[2] Sobre o pensamento schenberguiano acerca da História da Ciência, ver José Luiz Goldfarb, “Voar também é com os homens: o pensamento de Mário Schenberg”, São Paulo, EDUSP, 1994.

[3] O professor Schenberg ensina ainda que o desenvolvimento desse núcleo fundamental, numa determinada sociedade, depende do enquadramento que sofre as estruturas mentais nelas vigentes. Ao surgir, no contexto social moldado por padrões culturais específicos, o núcleo fundamental acaba também por afetar/modificar este contexto, uma vez que não se associa à normalidade existente. Assim, quando uma cultura proclama ter dominado um núcleo fundamental, ele sempre acaba escapando-lhe às mãos, apresentando novidades absurdas, que subvertem essa cultura que se intitula como acabada. Isso aconteceu na Física Moderna com as novas idéias de espaço, tempo, energia, causalidade e continuidade, por exemplo.

Inclusive, em uma famosa conferência, que fazia um panorama geral da Ciência no fim do século XIX, Lorde Rayleigh afirmava que quase tudo na Física já se havia compreendido, com exceção de três detalhes tão logo explicáveis: a experiência de Michelson e Morley, a irradiação do corpo negro e o efeito fotoelétrico. Contudo, sem importância aparente naquele momento, foram esses detalhes que germinaram as teorias da Relatividade e da Física Quântica.

Portanto, a Ciência, vista como simples e formalmente estruturada, exige uma dimensão fundamental onde os pensamentos seguem caminhos diferentes da lógica formal, num processo ziguezagueante dotado de elevada carga intuitiva e imaginativa. Por vezes, a Ciência progride mesmo quando se volta para uma idéia que já existia antes, sem que, no entanto, se volte ao mesmo ponto no qual ela foi formulada.

Aquilo que era falso em determinado período, coisa do passado e pensamento primitivo, portanto, pode, repentinamente, reflorescer num novo contexto com intensidade surpreendente. Toda riqueza do passado se recupera e, sendo trabalhada em nível de núcleo fundamental, surge recriada, indicando os novos caminhos científicos.

Nesse nível mais fundamental e menos sistematizado do pensamento, o diálogo entre culturas e tradições aparentemente conflituosas instaura-se com mais intensidade, vez que, pelas suas características não formalmente estruturadas, o núcleo fundamental pode aparecer em distintos contextos históricos. Tal posicionamento, portanto, exige um pensamento a um tempo revolucionário e tradicionalista, que pretende reler o passado e transformar o presente para penetrar no futuro.