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Amós e Oséias |
Uma história do Povo Judeu - Hans Borger - Editora Sêfer - 1999 p. 99-101
Durante o reinado de Uzias, em Judá, e o de Jeroboam II na Samária, isto é, por volta do ano 740, surge o primeiro dos grandes profetas literários de Israel. Amós é um simples pastor do vilarejo de Tekoa, a meio caminho entre Jerusalém e Hebron. Impulsionado por uma força que ele mesmo não sabe exatamente como definir, larga um dia o seu rebanho e põe-se a caminhar até chegar a Bet-El, o principal centro religioso da Samária.
O ambiente festivo com que se depara no pátio do santuário, os sacerdotes ricamente vestidos aguardando para dar início à oferenda dos sacrifícios, a música solene, os cânticos piedosos, a pompa, as pessoas aparentando despreocupação, satisfeitos consigo mesmos - tudo isso, no ver de Amós, está profundamente errado. A religião institucionalizada causa-lhe repúdio, cultos sem conteúdo são um insulto a Deus, sacrifícios, enquanto pobres passam fome, são uma indignidade.
Lentamente Amós abre caminho por entre a multidão, sobe as
escadarias até um lugar onde todos o podem ver, levanta os braços e
sua voz rompe o ar com uma eloqüência que abre um capítulo novo na
história dos homens.
"Ouví, eis assim que diz o Senhor à casa de Israel:
Porque oprimis o pobre e lhe extorquis tributos,
não habitareis estes palácios de pedra
e não bebereis o vinho das vinhas que plantastes.
Sois opressores do justo,
e violadores do direito dos pobres em juízo.
Eu odeio, desprezo vossas festas,
não quero sacrifícios nem holocaustos,
mas quero que jorre o direito como uma fonte
e a justiça como um rio poderoso." (Am. 5)
Não é só contra os profissionais do culto que Amós levanta sua
crítica; ele exige uma expressão religiosa acima do ritual e do
cerimonial, exige que todos participem igualmente de
responsabilidades e conseqüências, pois todos foram libertados do
Egito e todos conhecem a Lei:
"Porque vendeis o justo por dinheiro
e o pobre por um par de sandálias,
porque o filho e o pai tomam a mesma moça
para dormir com ela,
porque deitam ao pé do altar sobre roupas empenhadas
e bebem no Templo o vinho feito por condenados:
Mas EU, Eu tirei-vos do Egito,
Eu conduzi-vos pelo deserto,
Eu vos dei a posse da terra dos amorreus,
Eu suscitei profetas entre vós,
pois bem, eis o que Eu vou fazer:
Vou fazer-vos ranger como um carro de feno carregado,
não haverá fuga para o ágil, o forte não terá força,
nem o de pés ligeiros escapará, nu fugireis naquele dia." (Am.2)
Amós ignora quase totalmente a idolatria como problema nacional. É a
injustiça que domina seu discurso, o abismo entre pobres e ricos.
Ele teme pelo destino coletivo, "porque entre todos os povos da
terra, só a vós conheci" (3:2) Teme pelo destino nacional porque
"desprezaram a Lei do Senhor e não observaram seus
mandamentos."(2:4) os líderes de Israel, tanto da Samária como de
Judá, todos os que exercem o poder, devem juntar-se ao povo e
arrepender-se, "buscar o bem e não o mal, fazer reinar a justiça e
talvez o Senhor Deus terá piedade." (5:15) A insensibilidade dos que
têm mando sobre o problema social urbano é castigada com palavras
que nada perderam de sua atualidade:
"Vides quanta desordem há nesta cidade ?
Quanta violência ?
Não sabem fazer o que é honesto
e amontoam o roubo em seus palácios.
Ai dos que vivem comodamente em Sion
e tranquilamente na Samária,
os nobres, os líderes do povo,
deitados em camas de marfim,
comem cordeiros e novilhos e bebem vinho de
grandes taças: Pois, serão os primeiros a serem deportados !" (Am.
3:6)
A ruptura com os ricos e poderosos, os que estão no comando da
sociedade ("eu desprezo vossas festas") leva o sacerdote Amazias a
ir finalmente ao rei para dar queixa do subversivo: "Amós conspira
contra ti no meio do povo - o país não pode mais suportar estes
discursos." (Am. 7:10) Estranhamente, não ficou registrado o que
Jeroboam teria respondido. Já que o sacerdote não ousa agir
fisicamente contra o profeta, decide expulsá-lo: "Vai-te daqui,
vidente, volta para a tua terra e não profetizes mais em Bet-El." (Am.
8:12) Amós responde-lhe: "Eu não sou profeta nem filho de profetas,
sou um pastor. Mas, Ele me tirou de trás do meu rebanho:
Quando o Leão ruge - quem não teme?
E falando Ele, o Eterno, quem não se inspira ?" (Am.3:8)
Amós não se apresenta munido de "provas de autoridade", não faz milagres, não se vangloria da autoria de suas palavras mas, ao contrário, diz que não age nem fala por vontade própria; obedece a um chamado superior. Curiosamente, é exatamente esse primeiro profeta literário quem, com duas expressões, resume a essência do fenômeno profético. Quando diz: "Não sou profeta nem filho de profetas", quer dizer que não é um "profissional" - não é o seu ofício profetizar, na verdade ele é um pastor -, "mas quando o Leão ruge... quando Ele fala", quem pode deixar de ser um profeta, quem pode deixar de falar ?!
Ao sair e cena, tão subitamente como nela surgiu, o profeta não o
faz sem deixar uma promessa:
"Restaurarei o meu povo, Israel,
Implantá-lo-ei e não mais sera arrancado
da terra que Eu lhe dei.
Palavra do Senhor, teu Deus." (Am. 9:14,15)
Enquanto em Amós o motivo predominante é a justiça social, fica mais
difícil encontrar uma idéia central na mensagem lírica e colorida do
seu contemporâneo Oséias. O que sobressai é o amor de Deus por
Israel, não correspondido pelo povo com devoção e fidelidade mas,
pelo contrário, este povo persiste em traí-Lo mantendo uma perversa
intimidade com os costumes pagãos:
"Quando Israel era criança ainda,
Eu o amei,
e do Egito conclamei meu filho.
Mas sacrificaram a Baal
e queimaram incenso para ídolos !" (Os. 11:1,2)
Aliás, tanto Oséias como Amós, quando falam de "Israel", visam
indistintamente a Samária e a Judá, para eles um povo só, um
conjunto. Para Oséias, a traição praticada por Israel não é a
idolatria - a adoração em si de imagens - ma a conseqüente
licenciosidade, a promiscuidade sexual, a maledicência e a mentira,
praticadas pela elite da nação, os líderes - seculares e religiosos
- cúmplices na transformação do culto em espetáculo:
"Ouvi isto, ó sacerdotes, chefes de Israel,
gente da casa real:
é contra vós que haverá julgamento
até que em vossa aflição buscai a Mim." (Os. 5:1,15)
Oséias - como todos os profetas - não é fundador ou inventor de uma
nova religião. Não condena a falta de religião, mas a falta de
qualidade: "Pois não há verdade, emet, e nem bondade, hessed, e não
existe conhecimento de Deus no país." (4:1) As palavras hebraicas
emet e hessed são de difícil tradução. Emet é mais do que verdade,
também é sinceridade, integridade; e hessed é mais do que bondade, é
um amor bondoso, ativo, dinâmico e compassivo. No entendimento do
profeta, a ausência dessas qualidades no homem equivale à ausência
de Deus. "Conhecimento" de Deus significa praticar emet e hessed.
Elias, um século antes, havia encontrado uma formulação de mestre
quando admoestou o povo a "parar de coxear em ambas as pernas !" Sem
emet e sem hessed a nação torna-se idólatra. Trocar o conhecimento
de Deus por Baal é, para Oséias, como uma mulher abandonar o marido
para prostituir-se. Num insólito ato público, ele, o profeta, toma
por mulher uma meretriz, e à filha que dela nasce dá o nome de ló
ruhamá, sem piedade, e ao filho chama ló ami, não-meu-povo, dizendo
à nação: Não haverá piedade para o povo que não é mais Meu povo.
Assustado com o que vê na Samária, brota da alma do angustiado
profeta um grito de temor pelo futuro: "Se tu, Samária, queres
corromper-te, prostituir-te, tu, Judá, não te tornes culpada também
!" (Os. 4:15)
Amós, Oséias, e, depois deles, Isaías e Jeremias, não vivem em
torres de marfim, teóricos divorciados do cotidiano. Não são
utopistas alienados da realidade política. Amós e Oséias analisaram
e comentaram corretamente a situação internacional. Isaías foi
ministro e Jeremias foi conselheiro real em vários governos
subseqüentes. Nunca estiveram alheios à gravidade da situação de
seus países, incessantemente advertiam os donos do poder que seu
frívolo envolvimento no jogo político das grandes potências -
Assíria e Egito - levaria à queda da Samária, "um pássaro ingênuo,
sem inteligência" (Os. 7:11), nas palavras de Oséias.
Por mais que os profetas censurassem o povo, sempre era seu povo,
amavam-no desesperadamente. Suas críticas são contundentes, chocantes
às vezes, não porque Israel fosse especialmente perverso e, sim,
porque eles, profetas, eram excepcionalmente exigentes:
"Porque eu quero o amor, não sacrifícios,
e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos.
Mas eles violaram vergonhosamente
a Aliança e traíram-me.
Vi horrores na casa de Israel,
prostituição, fraudes,
e confundem-se com os outros povos." (Os. 6:6-10; 7:8)
Ao mesmo tempo em que é admirável a coragem denotada pelos profetas
em seus atos públicos, sem deter-se ante nada e ninguém, é admirável
também o consentimento real, ainda que a contra-gosto, para que
desfrutassem de liberdade da palavra, condição inexistente em
qualquer outra nação. Assim, foi possível a Oséias chegar perante a
multidão reunida em praça pública, levantar o dedo em riste na face
do rei, no caso Jeroboam II, e dizer-lhe:
"Eis aqui a palavra do Senhor Deus:
Dentro de pouco vingarei na tua casa
o sangue que Jehu derramou,
e colocarei um fim à Samária !" (Os. 1:4)
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(...) O profeta Oséias considera entender mais de política do que o
rei, e adverte Pecah: "Irá a Samária misturar-se com os outros povos
? Samária é uma pomba ingênua ! Seus chefes cairão pela espada, e
rir-se-á deles nas ruas do Egito. Somente Deus pode-nos ajudar.
Vereis que quem ventos semeia, tempestades colherá." (Os. 7)