A era da Comunicação Compartilhada
Le Monde Diplomatique ---- 11/2006
E se a resposta aos grandes conglomerados da mídia forem redes de cidadãos dispostos a ser mais que simples consumidores de informação?
Estamos condenados a um mundo onde a comunicação será cada vez mais concentrada, mais submetida ao poder econômico e, portanto, mais atomizante e... incomunicativa? Embora capitalista até a medula, a revista britânica The Economist acaba de admitir que a resposta é não. Na edição de 20 de abril, ela dedicou um estudo especial [1] de sete matérias ao que chamou de emergência da “comunicação personalizada e participativa”.
O estudo vê na internet – e em particular nas novas ferramentas que permitem compartilhar conteúdo, como wikis, blogs e podcasting – o início de uma revolução semelhante à desencadeada em 1448, quando Johannes Gutenberg inventou a imprensa de tipos móveis. Nos novos tempos, prevêem os textos, “ao invés de um punhado de gigantes ultra-capitalizados da mídia, disputando entre si, haverá pequenas empresas e indivíduos, competindo ou, mais freqüentemente, colaborando uns com os outros”.
Em algumas semanas, estará pronto o projeto de viabilização do Le Monde Diplomatique Brasil. Suas bases estão definidas. Ele aposta na possibilidade de constituir uma rede de cidadãos e organizações empenhadas em uma nova comunicação. Ela estimulará a produção, publicação (especialmente via internet) e debate de textos que permitam compreender em profundidade o país, seus problemas e os meios de superá-los.
Um movimento já iniciado
Parte do projeto já está em execução. Para assumir a responsabilidade pela edição brasileira, foi fundada, em janeiro deste ano, a Associação Outras Palavras, uma sociedade civil sem fins de lucro. Seus integrantes comprometem-se a participar, por dois anos, de uma quotização que garante parte importante dos custos de produção de Le Monde Diplomatique. Ao fazê-lo, asseguram a estabilidade e a independência do jornal, durante o período de implantação.
O próximo passo é formar uma grande rede de apoiadores. Ela oferecerá, a milhares de pessoas interessadas em agir em favor do direito à comunicação, múltiplas possibilidades. A mais elementar é contribuir materialmente para a existência do jornal. A nova rede aproveitará, entre diversas outras, a experiência da Associação Amigos do Le Monde Diplomatique, cuja existência garantiu aos redatores da publicação, na França, independência editorial inédita. [2]
A rede de apoiadores do jornal também poderá contribuir editorialmente. Le Monde Diplomatique formará, nos próximos meses, um Conselho Editorial, para o qual serão convidadas personagens que participam com destaque do esforço para compreender e transformar o Brasil: articuladores de movimentos sociais e ONGs, intelectuais, acadêmicos. Mas o elenco de possíveis colaboradores do jornal pode ser muito mais amplo que este grupo. Em suas ações contra a desigualdade e a injustiça, a sociedade brasileira tem mostrado enorme capacidade de se repensar e reinventar. Formam-se, nesse movimento, pessoas com capacidade de crítica, análise, proposição. Surgem de múltiplos pontos: grupos de artistas, comunidades de software livre, iniciativas de educação popular, ocupações urbanas, teologias libertadoras, rádios comunitárias, pontos de cultura. Não encontram espaço no jornalismo tradicional, cujo noticiário nacional parece não enxergar nada além dos escândalos institucionais e dos episódios de violência.
Le Monde Diplomatique-Brasil quer se aproximar
desta nova inteligência: dialogar com ela, abrir-lhe espaço,
aproveitar as possibilidades abertas pela edição internet. Uma rede
de apoiadores pode multiplicar este diálogo. Espalhada pelo país,
ela dará sua contribuição particular, no esforço para.construir uma
sociedade digna. Debaterá o direito à comunicação e à informação – e
atuará na prática para assegurá-lo. Formulará propostas de políticas
democratizadoras. Estimulará a leitura crítica dos noticiários –
inclusive os da TV. Promoverá debates sobre temas relevantes.
Proporá pautas e sugerirá colaboradores ao próprio jornal.
Duas comunicações possíveis
A emergência da “comunicação participativa” (para usar a expressão de The Economist) assegura alguma transformação social de longo prazo? Sejamos francos: é claro que não. Tudo depende da capacidade que vier a ser demonstrada, diante do possível novo paradigma, pelos partidários de distintos projetos de sociedade. Pulverizar a comunicação pode ser, numa hipótese não-descartável, um meio de pulverizar a sociedade: de estimular cada pequeno grupo a criar sua identidade, a desconectá-la dos demais, a se isolar em seu mundo à parte.
Mas há outra possibilidade. Garantir a cada grupo, ou cada pessoa, meios para expor suas visões de mundo e dialogar com as demais cria uma esperança de diálogo real, de poder desconcentrado, de des-alienação e de emancipação. Também no terreno decisivo das comunicações, o futuro está em aberto. A edição brasileira de Le Monde Diplomatique poderia se ausentar de tal disputa?
------------------------------------------------------------------
[1] Among the audience e outros seis artigos, disponíveis (em inglês) na internet.
[2] Este é um dos episódios que moldaram a identidade do Le Monde Diplomatique. Criada nos anos 90, a associação reuniu milhares de leitores, que se quotizaram para assumir parte importante do capital acionário do jornal. Outra parcela foi adquirida pelos próprios redatores. Eles puderam fazê-lo graças a doação milionária que receberam, em 95, de Günter Holzmann, ex-militante anti-nazista na Alemanha, à época residente na Bolívia, onde atuava em favor das causas ambientalistas (ele morreu em 2001). Juntos, leitores e redação possuem 49% das ações do jornal (51% são de propriedade do diário Le Monde). Os 49% asseguram, segundo a legislação francesa, uma “minoria de bloqueio”: nenhuma decisão estratégica pode ser tomada sem o apoio dos leitores e redação. Mais informações sobre Associação Amigos do Le Monde Diplomatique podem ser encontradas em seu site.