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O Estudante e o Tanque |
Um estudante enfrenta uma fila de tanques na China.

O desconhecido da camisa branca - 14 de junho de 1989
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Um cidadão anônimo enfrenta sozinho os Urutu chineses, desafia os assassinos do povo e avança a História.
O homem sozinho, com uma jaqueta numa das mãos e um embrulho na outra, com um ar de quem tanto podia ter saído de uma manifestação como estar a caminho do trabalho ou das compras. Um homem de camisa branca e calças pretas. Um chinês num oceano de 1,1 bilhão de chineses. Um desconhecido. Sobre a montanha de cadáveres com a qual o regime chinês reafirmou a sua tirania na semana passada, ao reprimir com punho impiedoso os estudantes reunidos na Praça da Paz Celestial, esse cidadão anônimo fixou uma imagem poderosa. Durante seis minutos, na manhã da última segunda-feira, o homem da camisa branca brincou de dançar com a morte. Sozinho, em plena Avenida da Paz Eterna, ele enfrentou uma coluna de tanques.
A cena foi registrada pelas câmaras e estarreceu o mundo inteiro. De frente para o tanque que liderava a coluna, o cidadão desconhecido parou uma fileira de 23 mastodontes blindados. Em seguida, subiu no primeiro tanque. "Porque vocês estão aqui?", gritava. Sem resposta, desceu. E continuou na frente do Urutu chinês. O tanque tentou desviar para a direita, o homem interrompeu a passagem. Voltou para o centro, lá estava ele de novo. O balé letal só terminou quando um grupo de pessoas avançou e tirou o toureiro de tanques do meio da avenida. Ao contrário de outro episódio famoso - o do cidadão checo, outro anônimo, que na invasão soviética de 1968 abriu o peito, nu diante de um tanque, em Bratislava, e foi fulminado -, o homem da camisa branca escapou ileso, transformado em protagonista de um dos momentos-síntese da História, aqueles "em que pessoas comuns de repente se põem a fazer coisas extraordinárias", como observou Richard Collen, do jornal Washington Post.
Quem, numa situação semelhante, teria coragem de fazer a mesma coisa? O que move essas pessoas? Pode ser raiva, desespero, pode ser uma idéia. Sabe-se, no entanto, o que essas pessoas movem. Lá, em seu anonimato, elas movem a História. Perdem ou ganham. Às vezes, mesmo perdendo, ganham. Foram massas anônimas que tomaram a Bastilha, fizeram as revoluções na Rússia, encheram as fileiras da Longa Marcha - o movimento que culminou com a instauração do regime comunista na China. Deng Xiaoping, o tirano travestido de reformista, é um veterano da Longa Marcha que não aprendeu a lição.
Encerrado atrás dos portões; da Praça da Paz Celestial, onde já reinaram imperadores, senhores da guerra e líderes revolucionários, ele podia comemorar na semana passada a vitória sobre os estudantes, sobre os cidadãos comuns que gostaram da idéia de ter mais democracia, sobre o homem da camisa branca. O sangue dos mártires, contudo, é o alimento da rebelião. A revolta gerada pelo massacre de Pequim acrescenta assim um segundo elemento, explosivo, ao quebra-cabeça instaurado na China. O primeiro já havia sido produzido pelos milhões de chineses que aderiram ao movimento pela democracia.
Pode ser resumido na avaliação feita pela pensadora Hannah Arendt depois de outra revolta popular contra a opressão, a de 1956 na Hungria. "A natureza humana é imutável", escreveu ela. "Mesmo na ausência de todo ensinamento e na presença da doutrinação esmagadora, um anseio de liberdade e verdade sempre surgirá do coração e da mente do homem."
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Massacre da Praça da Paz Celestial ainda está vivo na memória dos chineses
BBC - Brasil - 04 de junho, 2004
Há 15 anos, a Praça da Paz Celestial, no centro de Pequim, serviu como cenário de grandes manifestações pró-democracia que culmiram com uma forte repressão e a morte de centenas de pessoas.
Os protestos não tinham precedentes na China. Eles começaram em 15 de abril de 1989 quando o líder reformista Hu Yaobang morreu repentinamente de um ataque do coração em Pequim. A sua morte comoveu os chineses, que ocuparam as ruas de todo o país para protestar contra a corrupção dentro do Partido Comunista chinês e atacar os conservadores.
Apesar de o governo chinês negar até hoje a existência do massacre, as mortes e as imagens dos tanques nas ruas ainda são lembradas em todo o mundo.
Leia abaixo depoimentos de pessoas envolvidas no que ocorreu.
Wuer Kaixi, um dos líderes mais conhecidos, que fugiu da China depois dos protestos e vive hoje no exílio na Tailândia.
"No dia 18 de maio, estava na praça e um colega me chamou, afirmando que o primeiro-ministro falaria conosco.
Estávamos cheio de esperanças quando entramos no Grande Palácio do Povo (sede do governo chinês).
Li Peng (o primeiro-ministro na época) chegou e nos deu a mão. Senti na hora que a reunião não ia terminar bem. Ele disse que estava cinco minutos atrasado porque tinha ficado preso no trânsito por causa das manifestações.
Eu resolvi interrompê-lo: "Desculpe, primeiro-ministro, mas o senhor não se atrasou apenas cinco minutos, está um mês atrasado. Nós queríamos nos reunir com os líderes desde o dia 17 de abril", eu disse.
Acho que o ocorrido foi importante porque um comportamento semelhante nunca tinha existido na China, foi bom que a comunidade internacional tenha acompanhado tudo. Apesar de, no momento, não termos tido a noção exata da importância daquilo.
Mesmo que nada tenha saído de concreto da reunião, acho que mostramos que povo e governo podem se encontrar de igual para igual e acho que isso trouxe um resultado amplo e transcendental para a China".
Ma Shao-fang foi um dos 21 estudantes perseguidos pelo governo chinês. Passou três anos preso e agora vive em Shenzhen.
"Para mim é muito difícil esquecer os eventos. O primeiro aconteceu no dia 3 de junho, quando as luzes da praça foram apagadas à noite.
Estávamos sentados em frente a um monumento quando as luzes se ascenderam e vimos os tanques cercando a praça. Até hoje as memórias estão em minha mente.
Mais tarde, os soldados e os estudantes enfrentaram-se cara a cara. Os soldados, armados até os dentes, nos forçavam a sair da praça.
Logo depois, instalou-se o caos. Os estudantes e outros manifestantes gritavam e cantavam o hino da Internacional Socialista e os soldados, creio que comovidos com a nossa valentia, decidiram se retirar.
Penso que, antes da força bruta, preferimos demonstrar coragem.
Em outro episódio, recordo de um bebê sendo carregado pela mãe, ferido a bala. Não entendi como eu podia ter sido considerado um criminoso.
Não sei como alguns acontecimento tomaram aquele rumo."
Gao Wengian era funcionário do Centro de Investigação de Literatura do Partido Central de Pequim. Testemunhou as manifestações do dia 27 de abril contra o jornal Diário do Povo, que publicou um editorial afirmando que os manifestantes queriam causar desordem.
"Já sabíamos por fontes bem informadas ligadas à nossa organização que as tropas do governo se preparavam para a ação.
O maior objetivo era impedir que os estudantes deixassem as suas universidades.
Soube que os estudantes ocupavam várias ruas e estradas da cidade e quis ver com os meus próprios olhos.
O cartaz que eles carregavam que mais me impressionou trazia as palavras: "estivemos sentados durante muito tempo e chegou a hora de esticarmos as pernas".
Como estudante de história na China, entendi exatamente o que aquilo significava.
Desde que a nova China foi criada (a China comunista, em 1949) os intelectuais tiveram que sofrer sua desgraça e maltrato em silêncio.
Senti naquele momento que o povo chinês tinha se levantado".