Sociedade e Liberdade
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Ralf Dahrendorf
Seminário de Sociologia - Turma de 2000
Professor Mourão
O funcionalismo de Herbert Spencer tornou-se a doutrina oficialmente reconhecida pela sociologia, quase uma verdade incontestável nessa ciência desde a década de 30 até a época em que Dahrendorf escreveu esse texto (1960).
Essa teoria se baseia nas categorias de “estrutura” e “função”, que foram transpostas dos organismos biológicos para os sociais. O funcionalismo, nas palavras do próprio autor, é : “a escola sociológica que estuda todos os problemas sob o aspecto do funcionamento equilibrado e perfeito das sociedades e seus “subsistemas”, analisando cada fenômeno enquanto contribua para manter a harmonia no sistema”.
Dessa conceituação surge um problema, qual seja, o de explicar os conflitos sociais, que parecem ser fatos sociais universais, à luz da tese funcional. Dahrendorf trata de três autores : Elton Mayo, R. K. Merton e Lewwis Coser, que tentaram resolver essa questão.
Para o primeiro, os conflitos sociais tem causas meta-sociais, causa individual-patológicas, ou seja, estão fora da sociedade. Essa interpretação ocorre porque, para Mayo, a sociedade é um sistema equilibrado enquanto cada um dos seus elementos ajuda a manter o sistema, nenhum deles pode gerar perturbações no equilíbrio. Entretanto, se tais distúrbios surgem, eles tem causa meta-sociais, motivos psicológicos. A sociedade, sendo funcional, não cria lutas e conflitos entre grupos.
Dahrendorf critica Mayo, pois este não considera os conflitos como fenômenos sociais. Além disso, ele não responde à seguinte pergunta: Qual é o lugar do conflito na sociedade humana e na história?
Merton coloca os conflitos sociais como objetos de estudo da sociologia ao considerar que as sociedades podem ou não funcionar; elas tendem ao funcionalismo, mas nem sempre o tem. Ele introduz o conceito de “disfunção”, pelo qual os conflitos seriam forças destrutivas da sociedade, contribuiriam para o não-funcionamento dos sistemas.
Dahrendorf considera que essa teoria foi um avanço em relação a anterior. Entretanto, para ele, Merton tentou encontrar alternativas para a explicação dos conflitos em conformidade com o funcionalismo, mas esbarrou em certas limitações dessa teoria, que é muito rígida e abstrata.
O último estudioso de que trata o autor do texto, antes de expor sua própria teoria, é Lewis Coser. Segundo ele, os conflitos sociais podem ou não ser disfuncionais, ou seja, podem, além de contribuir para o não-funcionamento do sistema, servir de fatores de unidade dos sistemas sociais. Desse modo, somente a tese funcional seria capaz de explicar os conflitos.
Para Dahrendorf, essas três teorias demonstram a impossibilidade de se adequar a tese funcional aos conflitos sociais. Daí surge a teoria do autor, que abandona o funcionalismo para a explicação dos conflitos.
Ralf Dahrendorf diz que sua tese é que o papel constante, o sentido e o efeito dos conflitos sociais realizam-se ao manterem e fomentarem a evolução das sociedades, nas suas partes e no seu conjunto. Ou seja, ele acredita que a “função” dos conflitos sociais é manter e fomentar o desenvolvimento das sociedades. Dahrendorf ressalta, no entanto, que os conflitos só podem ser compreendidos, na sua efetividade e importância quando referidos ao processo histórico das sociedades humanas.
O autor destaca a idéia de que os conflitos são indispensáveis, como um fator do processo da mudança social. Sendo assim, quando os conflitos são suprimidos, as mudanças são detidas ou passam a ser lentas, por outro lado, quando esses conflitos são admitidos, as mudanças se dão como um desenvolvimento gradual. Dessa maneira, pode-se dizer, que se esconde nos conflitos “uma excepcional energia criadora de sociedades”.
Dahrendorf reconhece que sua tese não é nova, já que outros pensadores, como Marx, Sorel, Hegel, Hegel, Kant, Aron, Gluckman e Mills entre outros, já reconheciam a importância dos conflitos sociais no processo evolutivo das sociedades, porém, o autor acredita que a principal corrente do pensamento sociológico (Comte, Max Weber, Parsons...) ao optar pelo aspecto da ordem, não deixou solução suficiente para os problemas do conflito e da mudança. Tal situação ressalta, portanto, a importância de retomar essa tese.
Muitos sociólogos, desde Marx e Ogburn procuraram os fatores de evolução em dados meta-sociais. Uma ou outra vez o progresso técnico apresentou-se como impulsionador na mudança social, mas este não é o único fator e nem sequer o mais importante, uma vez que, tem pelo menos a mesma importância o fato de que todas as sociedades provocam continuamente antagonismos. Estes conflitos sociais (ex: incompatibilidade de normas vigentes, o sistema de desigualdade social...), que constituem todas as relações contrárias, originadas estruturalmente, de normas e expectativas, instituições e grupos, é que impulsionam e direcionam a mudança social e o desenvolvimento da sociedade.
Dessa maneira, fica clara a relação entre conflito e mudança, e para ilustrar a situação, o autor questiona o que resulta da contradição entre governo e oposição. Ele coloca que a finalidade desta situação é manter vivo o processo político, descobrir novos caminhos e conservar a qualidade criadora das sociedades humanas. O mesmo se pode dizer dos conflitos na economia, justiça e nas demais organizações e instituições.
Dahrendorf acrescenta que a qualificação funcional tem alguns pressupostos que divergem da teoria estrutural-funcional. Para esta o sistema social é o último ponto de referência da análise, já que segundo esta idéia, os elementos do sistema têm uma função, enquanto contribuem para manter o equilíbrio do sistema já existente. Porém, a tese de que a causa final dos conflitos sociais está na manutenção do processo evolutivo (mudanças) da sociedade pressupõe que qualquer sociedade está submetida à mudança. No funcionalismo, os conflitos são fenômenos marginais da vida social, enquanto representam o centro de qualquer análise segundo a tese exposta por Dahrendorf.
Dahrendorf critica as teorias funcionalistas que tentam explicar os conflitos sociais, pois a idéia funcionalista de sociedade onde tudo se encaixa, cada coisa tem seu papel certo, a sociedade é perfeita, acaba levando a uma fantasia utópica de sociedade sem conflitos, que poderia trazer conseqüências antiliberais, favorecendo por exemplo os totalitarismos, que através da força conseguiriam contrariar a natureza humana, e abafar, ou melhor, impedir que existissem conflitos sociais.
Os homens não têm segundo Dahrendorf, certeza sobre a essência das coisas, e esta incerteza gera divergência de opiniões e soluções diante dos casos concretos, e é por isso que existem e devem existir os conflitos sociais, desde os menores até os maiores, pois os conflitos são maneiras de evoluir e corrigir o que possivelmente estava errado, diante da natureza do homem.
“O homem quer a concórdia, mas a natureza sabe melhor o que convém à sua espécie: ela quer a discórdia” (Dahrendorf) .