Poder e interdependência:
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Perspectivas de análise das Relações Internacionais na Ótica de Robert O. Keohane e Joseph S. Nye
Roberto Di Sena Júnior
۩. Introdução
O presente trabalho objetiva analisar tanto os elementos constitutivos quanto conceituais do fenômeno da interdependência política internacional, a partir da leitura que deles fazem Robert O. Keohane e Joseph S. Nye. Estes autores não se destacam pela originalidade na abordagem do tema, mas sim pela profundidade com que conseguiram compreender o problema e sobre ele discorrer em diversas obras que ganharam especial notoriedade no âmbito da teoria política e das relações internacionais.
A história das relações internacionais pode ser compreendida por meio da evolução dos principais paradigmas que identificam os seus elementos constitutivos e a maneira como estes são empregados pela sociedade inter nacional. Há autores que os distinguem em quatro categorias’, quais sejam: idealismo, realismo, dependentismo e interdependentismo, atribuindo a cada uma delas características próprias e singulares.
O mais recente aporte teórico interpretativo das relações internacionais é identificado como “interdependentismo”, o qual busca compreender tanto as raízes políticas do processo de globalização quanto a forma como as suas complexas variáveis (poder, segurança, hegemonia, cooperação, assimetria, escassez, etc.) interagem entre si. Relativamente à origem desse paradigma, Odete Maria de Oliveira afirma, “As bases desse novo paradigma não são novas.
Alcançam reflexos no pensamento dos estóicos, evoluindo às formulações de Kant. O que traz de novo é o modo de ver a realidade global de nossos dias, diferente daquela que originou o desenvolvimento do paradigma realista, que se apegou ao princípio da segurança nacional, além das influências diplomáticas e das forças militares, pressupostos agora inúteis em face da proliferação dos organismos internacionais, surgimento da interdependência, dos atores não-estatais e dos processos das corporações transnacionais.
Hodiernamente os atores internacionais atuam, cada vez mais, à ilharga do poder e da fiscalização do antes onipresente Estado-nação, o qual, consoante afirmam os teóricos da interdependência, encontra-se bastante debilitado e, hoje, representa uma unidade política sem mais capacidade de atuar no cenário internacional como agente soberano. Essa idéia vai frontal mente de encontro ao pensamento realista, que vigorou inconteste até meados da década de 6O e pelo qual o Estado é visto como elemento indispensável à harmonização das relações internacionais e à estabilização do sistema político hegemônico.
Tanto Robert O. Keohane quanto Joseph S. Nye não descartam o modelo realista, mas afirmam que ele consiste, assim como o modelo interdependentista, em uma situação ideal que não encontra respaldo na realidade fática Ambos esclarecem que os elementos ao redor dos quais gravita o paradigma realista, a saber, segurança e militarização, são insuficientes para explicar os movimentos que caracterizam a sociedade internacional contemporânea, marcada pela crescente atuação de empresas transnacionais (ETN), organizações não-governamentais (ONGs) e agentes outros que se multiplicam tanto em número quanto em importância.
Em virtude dessas novas circunstâncias, o realismo político tem-se revelado insuficiente para explicar os complexos eventos que dominam a atual agenda política internacional, uma vez que seus adeptos lidam com a noção de “soma zero”, situação na qual o ganho de poder por parte de um ator implica, inexoravelmente, a diminuição ou perda de poder de outrem.
Reconhecendo a insuficiência do modelo realista, mas não o descartando totalmente, Robert O. Keohane e Joseph S. Nye buscam identificar e analisar os novos matizes da política internacional e a forma como eles interferem nos comportamentos dos Estados. Desta forma, acentuam que “para compreender o mundo atual, precisa-se compreender ambos os pontos de vista realista e idealista da política mundial. Precisa-se estar apto a pensar sobre ambos os tipos ideais ao mesmo tempo.
Nem o realismo nem a inter dependência complexa existem, ambos são ideais. Com fulcro em tal assertiva, e partindo do pressuposto de que ambas as teorias (realista e interdependentista) encontram-se intimamente relacionadas, buscar-se-á, em um primeiro momento, identificar seus principais ele mentos de convergência e divergência, dirimindo, outrossim, eventuais dúvidas que possam surgir da utilização de conceitos ainda pouco explorados pela doutrina pátria.
Superada a fase do confronto das teorias, serão investiga dos conceito e características da interdependência, para que se possa, somente então, perscrutar qual o impacto desse modelo nos elementos estudados pela política internacional, tais como os fenômenos da cooperação e da hegemonia. Em seguida serão analisadas algumas das inovações trazidas pelo paradigma da interdependência e o reflexo que este teve na compreensão hoje vigente das relações internacionais. Por fim, serão pontuadas as conclusões possíveis do trabalho ante o referencial teórico adotado.
Realismo e Interdependência: ponderações Necessárias
A teoria da interdependência não se consubstancia em doutrina diametralmente oposta ao tradicional paradigma do realismo político. Conforme registrado anteriormente, as formas teóricas puras de interdependência e realismo consistem em ideais que não encontram respaldo no mundo fático, razão pela qual se torna imprescindível a compreensão de ambas para se discernir quando um ou outro modelo deverá ser aplicado e em que proporção.
O realismo político compreende as relações internacionais como sendo determinadas por elementos de segurança e militarização Esse paradigma possui raízes remotas, podendo-se identificar suas origens já nas obras de Nicolau Maquiavel (O Príncipe)e Thomas Hobbes (Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil).
Apesar dessa tradição histórica, foi somente no último pós-guerra que o realismo firmou-se como doutrina preponderante e quase exclusiva das relações internacionais. A partir de então, e durante toda a Guerra Fria, a concepção realista predominou pratica mente incontestável e foi responsável pela formulação dos mais importantes quadros de análises e explicações dos eventos internacionais.
Seu mais notório defensor contemporâneo foi Hans J. Morgenthau (1904-1980), o qual revelou toda a crueza desse aporte teórico ao reduzir a política internacional à incessante busca por poder. Em sua célebre obra Política entre ias Naciones: La Lucha por el Poder y la Paz, publicada pela primeira vez em 1948, o prefalado autor afirma: “Como toda política, a política internacional implica uma luta pelo poder.
Não importa quais sejam os fins últimos da política internacional: o poder sempre será o objetivo imediato” Esta passagem é crucial para a compreensão da teoria realista, pois nela se vislumbra claramente o fato da seara política ser marcada pela constante luta por poder, diferentemente dos indivíduos, que podem definir seus objetivos em termos religiosos, filosóficos, econômicos ou sociais.
Em Nicolau Maquiavel, um dos citados precursores do realismo, tem- se que a arte de governar é apresentada como a arte do possível, como a arte de conquista e manutenção do poder. Há uma distinção fundamental entre o “ser” e o “dever ser”, entre os padrões morais que norteiam a conduta ordinária do indivíduo e a moral socialmente objetiva, centrada nas especificidades do mundo político. Thomas Hobbes também influenciou sobremaneira essa doutrina, pois para ele a sociedade internacional encontra-se em “esta do de natureza”, à proporção que nesta não há uma autoridade suprema que possa garantir a segurança de seus membros e a estabilidade do sistema.
Valendo-se dessa situação de “estado de natureza”, Thomas
Hobbes justifica então o recurso à força, à violência e aos ardis políticos como
formas legítimas para solucionar conflitos e
defender interesses nacionais, definidos a partir de uma política de poder e de
uma visão estratégica da segurança individual de cada país no cenário
internacional.
Consoante a sua formulação clássica, a teoria realista é identificada por quatro características principais, quais sejam:
a) concepção estatocêntrica das relações internacionais (o Estado soberano é o único e exclusivo agente político internacional, ao qual todos os demais interessados devem recorrer para fazer valer seus interesses na seara ex terna);
b) as relações internacionais são balizadas pela busca por poder e pelo em prego recorrente da força;
e) a política interna caracteriza-se pela emprego de princípios da moral comum, diferentemente da política externa, cujos principais elementos são o poder e a segurança;
d) o sistema internacional é naturalmente anárquico e conflitivo, posto que na ausência de uma força soberana detentora do monopólio da violência, impera a dominação do mais forte e o “estado de natureza”.
Hans J. Morgenthau foi o primeiro teórico a defender o realismo político no período após a Segunda Guerra Mundial. Em sua obra de referência o autor busca analisar dois conceitos centrais para a política internacional do século XX, a saber: o poder e a paz. Morgenthau foi considerado “o novo Maquiavel”, em virtude da forma explícita com que concebeu as relações políticas em termos de interesses e poder.
Em sua obra ele pondera que: “Em um mundo cuja força motriz é a aspiração das nações soberanas em termos de poder, a paz somente pode manter-se mediante dois artifícios. Um é o mecanismo auto-regulatório das forças sociais, que se manifesta através da luta pelo poder no campo internacional, ou, dito de outro modo, pelo equilíbrio de poder. O outro consiste em limitações normativas a essa luta, sob a forma de leis internacionais, moralidade internacional e opinião pública."
São bastante conhecidos os seis princípios do realismo político por ele elaborados e que, até hoje, servem de referência para aqueles que estudam teoria política e relações internacionais.
Eles podem ser assim enumerados:
a) a política obedece a leis objetivas (é sempre permeada pela busca por poder), mas não é exclusivamente empírica, devendo obedecer à ampla prova da razão e da experiência;
b) o interesse dos Estados na seara internacional é sempre definido em termos de poder;
c) o interesse-poder é uma categoria objetiva de validade universal;
d) os princípios morais não se aplicam aos atos de Estados;
e) a moral universal é diferente da moral política do Estado (não há dualidade — bem e mal —, mas apenas um único elemento a permear a política internacional, a saber, o poder); O esfera política possui autonomia das demais (o realismo político apoia-se numa concepção pluralista da natureza humana: homem político, homem religioso, homem moral, etc.).
Para os defensores desse paradigma a política internacional caracteriza-se pela possibilidade sempre presente de eclodirem conflitos entre os Estados e pelo emprego recorrente da força. Em assim sendo, cada Estado procura defender seu território e seus interesses dessas ameaças reais ou potenciais, gerando desconfiança e instabilidade na sociedade internacional. É esta lógica que cria um ambiente propício ao conflito e à guerra, já que o outro é sempre percebido como um inimigo real ou potencial capaz de pôr em risco a integridade dos demais. Por conseguinte, o conflito e a guerra, longe de serem uma anomalia sistêmica, são vistos como uma instituição própria de um sistema anárquico.
Com o decurso do tempo as principais características da política inter nacional defendidas pela escola realista — Estado como ator principal; sistema internacional anárquico; rivalidade entre Estados; uso sistemático da força como meio de solução de conflitos — passam a ser fortemente questiona das, abrindo a possibilidade de as relações internacionais serem, então, analisadas a partir de um conjunto mais complexo de novos atores e situações.
Para os realistas, os únicos atores internacionais de relevo são os Esta dos. Isso, contudo, vem mudando cada vez mais, pois é indisfarçável a importância das grandes corporações para as economias domésticas e a influência, por exemplo, das organizações intergovernamentais e não-governamentais no cenário mundial. A questão, contudo, não reside em saber quais os atores é o mais importante, mas sim em compreender como as relações estabelecidas entre eles podem atuar na criação de situações cuja percepção faz-se impossível para a tradicional concepção realista.
Corroborando esse pensamento Joseph Nye afirma: “Os Estados são os atores principais da política inter nacional contemporânea, mas eles já não mais possuem o palco apenas para si”. No mundo contemporâneo os indivíduos desvinculam-se, cada dia mais, do outrora ideal romântico de Estado-nação, projetando os seus interesses em um nível que escapa ao próprio controle e regulamentação estatais.
Mesmo admitindo-se, entretanto, ser o mundo atual formado por múltiplas combinações de relações entre diferentes atores estatais e não-estatais, permanece a máxima realista que entende o Estado como o ente principal (porém não mais o único) das relações internacionais”, até porque os demais atores, mesmo os mais poderosos, como as corporações transnacionais, continuam a dele depender quando querem fazer valer seus interesses. Nesse mesmo sentido afirma Milton Santos, “Não é que o Estado se ausente ou se torne menor. Ele apenas se omite quanto ao interesse das populações e se torna mais forte, mais ágil, mais presente, ao serviço da economia dominante. (...).
Ao contrário do que se repete impunemente, o Estado continua forte e a prova disso é que nem as empresas transnacionais, nem as instituições supra- nacionais dispõem de força normativa para impor, sozinhas, dentro de cada território, sua vontade política ou econômica. O mundo, apesar de não ser mais aquele imaginado por Tucídides quando escreveu a sua célebre obra “A Guerra do Peloponeso”, ainda possui uma lógica de hostilidade que permeia as relações entre os Estados. E estes, apesar de não mais serem os únicos atores no cenário internacional, não podem ter o seu poder subestimado, pois ainda exercem notável influência sobre os demais. Desta forma, por muito tempo ainda, o mundo será dividido em Estados-nações, tornando-se indispensável compreender quais as implicações disso para a política internacional.
Desta forma, apesar de o modelo interdependentista inovar em alguns aspectos do tradicional aporte realista, nem todos os seus elementos podem ser descartados, confirmando-se em ambos a possibilidade de conflitos entre os Estados e a influência que estes possuem na definição de uma ordem internacional, não mais hegemônica, porém integrada por múltiplos e complexos vínculos jurídicos, sociais, econômicos e militares. Como já dito por Robert O. Keohane, “nós precisamos ir além do realismo, sem descartá-lo”.
Segue a seguir quadro sinótico contendo as principais características do aporte teórico realista e as mudanças proporcionadas com o advento do ideal interdependentista.
CONCEITO E CARACTERÍSTICAS DO PARADIGMA DA INTERDEPENDÊNCIA
O mundo em que vivemos caracteriza-se pela anarquia, entendendo- se como tal a ausência de qualquer ordem jurídica superior aos atores internacionais que permita a sua punição. Quando alguém viola um preceito normativo interno, a força policial e o poder Judiciário podem coibi-lo a ajustar sua conduta. No âmbito internacional, contudo, ninguém possui o monopólio do uso da força e, por esta razão, há sempre a possibilidade dos desentendimentos resvalarem para o conflito armado.
Apesar das diferenças evidentes que a raça humana apresenta, os indivíduos ainda guardam entre si inúmeras características semelhantes e, não obstante as eventuais disparidades, as pessoas são irremediavelmente interdependentes. Com a redução das distâncias no mundo contemporâneo e o notável desenvolvimento tecnológico identificável desde a Primeira Guerra Mundial, essa interdependência vem aumentando com uma velocidade impressionante. “Qualquer lugar do mundo, atualmente, está a menos de dois dias de distância de qualquer outro, por avião a jato, e um míssil teleguiado vence qualquer distância em menos de quarenta minutos.
Conforme o termo dá a entender, interdependência implica dependência recíproca e evidencia a idéia de teia de interesses que se interpenetram e, de alguma forma, se completam. Ela é essencialmente assimétrica à medi da que os participantes não gozam do mesmo grau de desenvolvimento socioeconômico e não controlam os mesmos recursos naturais, geográficos, financeiros e militares. No entender de RobertO. Keohane e Joseph S. Nye, tem-se que, “Em linguagem comum, dependência significa um estado em que se é determinado ou significativamente afetado por forças externas. Interdependência, em sua definição mais simples, significa dependência mútua. Em política mundial, interdependência se refere a situações caracterizadas por efeitos recíprocos entre países ou entre atores em diferentes países”.
A partir dessa compreensão pode-se afirmar que onde existem efeitos de custo recíproco na relação entre dois ou mais países distintos, há interdependência, a qual, não necessariamente, será vantajosa para todos os envolvidos, uma vez que nada assegura que as relações denominadas interdependentes sejam caracterizadas pelo benefício mútuo. Diferentemente do que se possa imaginar, o modelo interdependente não propugna a existência de um mundo pautado em relações de cooperação e amizade, onde a paz se mantém naturalmente. Ao contrário, conforme acentua Joseph S. Nye, interdependência implica em mais atrito.
Com o paradigma da interdependência não se busca restringir a análise das relações internacionais a situações de benefício recíproco, pois na maior parte das vezes a interdependência é assimétrica. Essa assimetria gera uma disputa latente entre os países, cujo desfecho, contrariando o modo realista de pensar, não é determinado pelo poder militar ou pela violência empregada, mas pela própria manipulação dos fatores de interdependência.
As assimetrias, ou seja, as diferenças sensíveis entre os países nas áreas militar, econômica, industrial, comercial, etc., proporcionam um elemento de influência que, a despeito do uso da força, pode ser empregado com as mesmas finalidades (isto é, dissuadir um outro Estado a fazer algo que ele não faria na ausência desse elemento exterior) e a um custo infinitamente menor.
Por isso é que Robert O. Keohane e Joseph S. Nye propõem que “um começo útil na análise política da interdependência internacional pode ser a consideração das interdependência assimétricas como fontes de poder entre os atores”.
Deixe-se bem claro que interdependência não implica, necessariamente, em “soma positiva”, hipótese na qual só há beneficiários. Entrementes, mais complicado do que saber quem ganha, é saber como esses benefícios são distribuídos, pois até mesmo em situações de ganho recíproco pode haver conflito entre os envolvidos para saber quem se beneficia mais.
Outrossim a interdependência, longe de reduzir a possibilidade de conflito, apenas aumenta o grau de complexidade do sistema, pois os Esta dos estão mais interessados em seu ganho absoluto do que na forma como o ganho relativo de seus rivais pode ser utilizado para ameaçá-los. Alguns teóricos permanecem acreditando que interdependência implica em menos conflito, porém isto não é verdade.
O conflito permanece mesmo num mundo marcado pela interdependência, na medida em que coalizões mais complexas são estabelecidas e diferentes formas de poder são usadas. Karl Wolfgang Deutsch, autor rotulado de neo-realista, já havia anteriormente compreendido as inúmeras disparidades que marcam o relaciona mento entre as nações e as situações de conflito às quais elas podem conduzir. Ele expõe que os conflitos eclodem com maior freqüência entre nações com alto grau de interdependência e transações recíprocas, mas com interesses opostos, de modo a produzir uma co-variação em suas transações, ou seja, muitos resultados compensadores para um país são frustrantes para o outro.
O citado autor, ao propor uma solução para esta situação, orienta ser possível mitigar a possibilidade de conflitos pela redução do grau de interdependência mútua e do fluxo de transações entre os países, porquanto à medida que os contatos declinam, diminuem proporcionalmente as oportunidades de disputa. Desta forma, observa-se que a interdependência nem sempre é vantajosa para os países envolvidos, havendo autores, como o anteriormente citado, que defendem a redução do grau de interdependência entre os Estados com o escopo de diminuir a possibilidade de atrito entre os mesmos.
Refletindo sobre o perpétuo conflito existente entre os paradigmas das relações internacionais, Joseph S. Nye afirma ser impossível filiar-se incondicionalmente a qualquer um deles, porquanto a mistura de continuidade e mudança que caracteriza a história da civilização humana torna impossível a adoção de explicações simples e herméticas. Percebe-se, desta maneira, que “com o aprofundamento da interdependência econômica e o surgimento de interesses econômicos na agenda política internacional, as teorias reducionistas revelam-se menos adequadas para descrever o processo político”.
As principais modificações decorrentes do novo aporte teórico que busca explicar as relações internacionais podem ser assim enumeradas:
a) os Estados não são os únicos e mais importantes atores da cena internacional: atores transnacionais que atuam além das fronteiras geográficas dos países adquirem notável importância;
b) a força não é mais o instrumento político de maior importância: a manipulação econômica e o uso das organizações internacionais passam a ter significativa preponderância sobre o antigo mecanismo da violência;
c) a segurança deixa de ser o objetivo principal da política internacional, o qual passa a ser projetado em termos de bem-estar social e desenvolvimento sustentável.
Além destas características, outras mais podem ser identificadas, quais sejam:
a) Existência de Múltiplos Canais de Comunicação e Influência
Sobre essa característica da interdependência política internacional tem-se que, “Múltiplos canais de dependência mútua possibilitam à teoria da interdependência privilegiar as instituições internacionais como elementos importantes em termos de barganha política. São institutos que ajudam na formação de programas de trabalho, incitam e criam as condições favoráveis, além de servir como um locus para o encadeamento de coalizões entre países fracos.
Essa característica reforça a idéia anteriormente exposta de que, apesar de Estado não ter sucumbido totalmente, ele hoje divide espaço no cenário internacional com outros atores que, a cada dia, ganham maior notoriedade e importância. É o que acontece, por exemplo, com as OIs, as ETNs e as ONGs, cujo aparecimento possibilitou que posicionamentos antes ignora dos fossem levados em consideração nas deliberações dos grandes Estados.
A existência desses novos atores também fortaleceu a atuação dos pequenos Estados, principalmente no âmbito das organizações internacionais, onde, via de regra, existe uma assembléia-geral na qual todos os membros possuem apenas um voto, quer sejam microestados, quer sejam super-potências. Desta forma a ênfase realista na balança de poder, apesar de ainda ser indispensável, não é mais suficiente para explicar a complexa gama de fenômenos internacionais, especialmente à luz das mudanças sociais que têm corroído a soberania estatal.
A existência de múltiplos canais de comunicação e influência também reforça a idéia de que as relações internacionais não mais se resumem a questões de segurança e militarização. As relações econômicas, financeiras, sociais e culturais também desempenham papel de relevo no cenário internacional contemporâneo, favorecendo um maior intercâmbio entre os povos e, por conseguinte, um estreitamento dos vínculos entre os países.
O papel da tecnologia na mudança da natureza das relações internacionais também tem sido notável. Hoje, mais do que nunca, conhecimento é poder. E este mesmo conhecimento, antes restrito à esfera estatal e atual mente disseminado por toda parte, possibilita que a mesma tecnologia utilizada pelos Estados seja empregada por agentes não-estatais, quer sejam terroristas, quer sejam corporações internacionais. O conhecimento favorece a dispersão do poder e permite que este saia da área de influência exclusiva do Estado e penetre em todos os estratos sociais, com as vantagens e desvantagens que disso podem advir.
b) Ausência de Hierarquia Temática
Num sistema político anárquico o principal objetivo da política internacional gira em torno da segurança militar. Hoje, contudo, justamente com a mudança das ameaças, mudam-se também os objetivos e a política volta-se mais às questões sociais e econômicas do que propriamente às militares (ainda que estas não sejam completamente olvidadas).
A agenda internacional modificou-se sensivelmente, tornando-se mais complexa e abarcando uma variedade mais ampla de objetivos. Os assuntos de natureza financeira, econômica, energética, ambiental, alimentar, etc., ganharam força em detrimento da política militar, tão privilegiada pelo paradigma realista. Sobre tal característica pondera-se no sentido de que, “Numa situação de interdependência, em que não existe hierarquia de assuntos, o uso da força e do poder econômico global não assegura antecipada mente o sucesso em outras áreas temáticas, como previram os realistas. Esta dos de maior poder econômico-militar até podem usar sua influência como instrumento de barganha e pressão, mas o êxito não fica garantido.
A diferença entre política interna (baixa política) e
política externa (alta política) torna-se
mais tênue e imperceptível, porquanto os grupos representantes de interesses
locais, cada dia mais, projetam internacionalmente suas pretensões, envolvendo,
freqüentemente, os governos de diversos países. Problemas domésticos e
internacionais cruzam-se mutuamente, envolvendo tanto atores governamentais
quanto não-governamentais, sem que haja uma graduação apriori da importância das
questões.
Para os realistas a possibilidade da guerra e do emprego da
força é que distingue as searas políticas interna e internacional. Kenneth
Waltz, autor rotulado como neo-realista, diverge um pouco da concepção realista
clássica ao ponderar que, “A ameaça da violência e o recorrente uso da força não
são elementos que diferenciam a política interna da internacional, razão pela
qual
não podemos identificar tal elemento como critério distintivo. A diferença entre
políticas nacional e internacional reside não no uso da força, mas sim na
diferente forma de organização utiliza para fazer algo a respeito de seu uso
Para a teoria da interdependência a agenda internacional, isto é, o conjunto de
questões relevantes para a política exterior nas quais se envolvem os Estados,
tem-se tornado mais ampla e mais diversificada, não mais estando subordinada
única e exclusivamente aos temas de segurança militar.
A tentativa de Kenneth Waltz, portanto de esclarecer que a força não mais serve para distinguir política interna e internacional revela-se obsoleta, no momento em que própria natureza da distinção interna/internacional per de sentido no meio de tantas variáveis e transações que não se encaixam perfeitamente em nenhum desses modelos estáticos.
c) Mitigação no Uso da Força
Não faz muito tempo que o mecanismo mais empregado na política internacional era a força militar ou a ameaça de seu uso. É claro que o poderio militar ainda desempenha seu papel na política internacional, porém o seu alto custo tem levado os Estados a serem mais cautelosos em sua utilização. Quando falamos em armas nucleares, então, apesar de sua produção ter-se multiplicado desde a Segunda Guerra Mundial, ainda não surgiu nenhuma situação em que a devastação dela proveniente justificasse o seu uso. A força não está obsoleta, mas o seu elevado custo tem dificultado o seu uso com a mesma freqüência que no passado.
Tucídedes afirmou: “o forte faz o que quer e o fraco sofre o que deve”, no que foi reproduzido por todos os autores realistas supervenientes. Na tradicional concepção realista, em virtude de alguns Estados poderem usar a força a qualquer momento, todos os demais devem estar preparados para fazer o mesmo ou aceitarem viver à mercê do jugo militar de seu vizinho mais poderoso. Entre nações soberanas, o estado de natureza é um estado de guerra e isto é dito não no sentido de que a guerra ocorra constantemente, mas no sentido de que ela está sempre na proeminência de eclodir.
Mesmo para os autores realistas o emprego freqüente da força para manter a posição hegemônica de um Estado traz custos demasiadamente altos, razão pela qual estes buscam garantir a sua supremacia não apenas no campo militar (lançando mão, agora, da ameaça), mas também no econômico, no qual a relação custo/benefício é bem mais atraente. O estabelecimento dessas novas relações econômicas, todavia deixa os Estados mais vulneráveis às influências uns dos outros, principalmente quando eles deixam de ser os únicos interessados na condução da política externa nacional e, quiçá, os atores menos influentes no cenário que se projeta para além de suas fronteiras.
Sobre as desvantagens do uso da força discorreram Robert O. Keohane e Joseph S. Nye no seguinte sentido, “O emprego da força tornou-se muito custoso para os principais Estados por quatro razões: risco de uma reação nuclear em cadeia; a resistência dos povos dos países pobres e fracos; incerteza do resultado e possível efeito negativo para a persecução das metas econômicas; a opinião interna contrária constitui custo humano que implica o emprego da força.
COOPERAÇÃO E HEGEMONIA: O que Mudou com a Interdependência?
Muitas e sensíveis foram as mudanças provocadas com o advento do paradigma da interdependência.
Ele tenta, a partir de uma seleção mais complexa de variáveis, compreender e explicar as relações internacionais contemporâneas, cujas características são distintas das verificadas outrora, muito embora ainda preserve algumas delas. No mundo atual, apesar do poder militar ainda desempenhar um importante papel, ele não serve mais para, exclusivamente, explicar as relações que se descortinam entre Estados, OIs, ONGs e ETNs.
O mundo tornou-se mais complexo e a redução das variáveis que interagem no cenário internacional à mera potência militar já não se justifica. Muitos exemplos corroboram essa posição, tais como:
a) a situação dos israelenses e palestinos no Oriente Médio, até hoje tensa, não obstante o poder militar dos judeus e o apoio que estes recebem dos norte-americanos;
b) o exemplo de Cuba, a pequena ilha do Caribe que desafia a supremacia militar e econômica dos EUA;
c) o recente golpe de Estado no Haiti (1991-1994), que desafiou a ordem normativa internacional e o poder da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização das Nações Unidas (ONU); e
d) as guerras no Kosovo e na ex-Iugoslávia, que demonstraram as ineficiência da atuação militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Vários outros exemplos poderiam ser invocados para corroborar a tese interdependentista de que o poder militar perdeu destaque no cenário inter nacional, o qual tem sido trasladado para a seara econômica, sob os auspícios da Organização para Cooperação de Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da recém-criada Organização Mundial do Comércio (OMC) As recentes manobras militares na Europa Oriental e na Rússia serviram para comprovar a pouca eficácia do emprego da força e o seu elevado custo, levando os estrategistas a refletirem sobre meios mais eficazes de atuação. A hegemonia internacional, antes firmada em bases exclusivamente militares, modificou-se para privilegiar outros elementos, não evidenciados pela teoria realista.
Tendo em vista o quadro traçado, poder-se-ia indagar se não existe mais nenhum país hegemônico no mundo e que, mais do que nunca, os Estados estariam vivendo em estado de natureza? Essa pergunta encontra sua justificativa na concepção realista de que para o mundo funcionar em perfeita ordem é indispensável a existência de um país hegemônico, responsável não só pela instituição de um regime político internacional, mas também pela manutenção e controle do mesmo por intermédio da ameaça militar.
Os realistas afirmam ser a história das relações internacionais marcada pela sucessão de Estados hegemônicos, na ausência dos quais o sistema internacional entraria em colapso, haja vista a carência de normas reguladoras e de uma força centrípeta que impusesse aos demais Estados, por meio da ameaça militar, o cumprimento do Direito Internacional e de suas normas consuetudinárias.
Dentre os Estados hegemônicos que podem ser identifica dos ao longo da história recente pode-se identificar a Espanha (na era dos descobrimentos e das grandes navegações), a Inglaterra (durante a Revolução Industrial e a fase que imediatamente a seguiu), e mais recentemente os EUA (cuja supremacia militar, tecnológica e comercial é inquestionável).
Para os realistas, no momento histórico em que se vive
atualmente, os EUA desempenhariam o papel de potência hegemônica figura que, na
concepção desses teóricos, é indispensável à existência de cooperação na seara
internacional. A hegemonia seria uma característica não apenas conjuntural,
porém estrutural do sistema internacional, cuja corrosão contribuiria,
conseqüentemente, para a ruína de toda a malha de inter-relações que se
desenvolver,
necessariamente, sob o manto de proteção do Estado hegemônico.
As teorias tradicionais falham ao explicar as mudanças dos regimes internacionais, razão pela qual se propõe empregar uma nova perspectiva de análise que privilegie a noção de interdependência. O realismo concebe o mundo como sendo determinado pela estabilidade que um país hegemônico, com o uso da força armada, proporciona. A noção clássica de hegemonia pressupõe que o Estado hegemônico não apenas centraliza e dirige as relações internacionais, mas também orienta, impõe e implementa diretrizes como objetivo de manter a sua condição Ocorre que essa teoria, históricamente, não encontra suporte empírico, despertando a atenção de estudiosos da área que passaram a buscar novos elementos que explicassem as complexas relações que se descortinavam na seara internacional.
A teoria realista afirma ser necessário existir um país hegemônico no plano internacional para fazer valer o regime então vigente. Os interdependentistas, por sua vez, defendem que o sistema pode manter-se sozinho, à ilharga de qualquer país hegemônico que lhe assuma o controle. O papel do país hegemônico seria mais importante na construção inicial do regime do que em sua manutenção, pois após estabelecer-se um padrão a ser obedecido pelos atores internacionais em suas relações recíprocas, modificá-lo seria demasiado custoso, razão pela qual haveria a natural tendência de se preservá-lo.
Fala-se, portanto, em criação e manutenção de regimes, porém o que se pode entender por tal? Para Raimundo Batista dos Santos Junior, “regimes são instâncias que instituem padrões de comportamento entre atores internacionais, para facilitar as negociações, através da redução de incertezas e do acesso a informações” A sua importância não reside no fato de representarem um locus essencial à cooperação internacional ou ditar regras aos governos, mas sim porque tornam possíveis acordos mutuamente vantajosos para as partes envolvidas. Neste mesmo sentido Joseph S. Nye afirma que a interdependência freqüentemente ocorre dentro de um arcabouço de regras, normas e instituições que recebe o nome de regime.
Como visto, os regimes representam a forma como os atores atuam no plano internacional, imprimindo uma singular característica de segurança e previsibilidade a todo o sistema e aos que dele participam. Para os realistas, ele seria imposto e controlado por um único país, o Estado hegemônico. Quando o domínio deste perdesse consistência, a sua substituição seria não apenas inexorável, como imprescindível, porquanto o uso da força ou a ame aça de seu uso seria uma condição inafastável da política internacional.
Para os interdependentistas tal situação não ocorre. Eles
vislumbram a existência de regimes, sim, mas sua existência não estaria
condicionada à criação e ao controle por um Estado
hegemônico. Em função disso, também compreendem ser perfeitamente possível a
cooperação na ausência de hegemonia, tanto que Robert O. Keohane, em obra
intitulada After Hegemony: cooperation and Discordin the World Political
Economy, afirma: “Muito embora a hegemonia possa facilitar a cooperação, ela não
é nem necessária, nem uma condição suficiente para a existência desta. Nós
veremos que a hegemonia é menos importante para a continuação da cooperação,uma
vez iniciada, do que para a sua criação.
Existe um sistema hegemônico quando um Estado é suficientemente poderoso para manter a eficácia das normas essenciais que governam as relações entre os atores na cena internacional e, ademais, quando ele pode exercer esse poder nos momentos em que lhe aprouver. Sobre o assunto Samuel Pinheiro Guimarães pondera: “Por Estado hegemônico se pode entender aquele Estado que, em função de sua extraordinária superioridade de poder econômico, político e militar em relação aos demais Estados, está em condições de organizar o sistema internacional, em seus diversos aspectos, de tal forma que seus interesses, de toda ordem, sejam assegurados e mantidos, se necessário pela força, sem Potência ou coalizão de Potências que possa impedi-lo de agir.
Continua afirmando o autor, “Um dos aspectos da condição de hegemonia é que o Estado é hegemônico na própria medida em que tem condições de abdicar de algumas vantagens que sua hegemonia lhe confere a curto prazo, em benefício do objetivo maior de garantir o conjunto de seus interesses a longo prazo.
A teoria da estabilidade hegemônica propugna ser a ordem política mundial determinada por um único país, o qual seria responsável tanto pela criação quanto pela imposição das regras disciplinadoras das relações inter nacionais. A principal falha deste modelo teórico reside no fato de que, consoante a teoria exposta, para o regime subsistir intacto e a ordem imposta prevalecer no mundo, a hegemonia do país que o criou deve manter-se indefinidamente.
A noção de estabilidade hegemônica é utilizada especialmente pelos realistas políticos, os quais enumeram elementos indispensáveis à busca de tal posição no cenário internacional, a saber: a) abundância de produtos primários (matéria-prima); b) abundantes fontes de capital; e) controle dos mercados interno e externo; d) produção de bens de alto valor agregado e preponderância militar. Hoje, todavia, a noção de hegemonia encontra-se bastante debilitada, pois o simples fato de um Estado possuir os elementos indicados não lhe assegura posição de controle sobre os demais.
Esta situação leva alguns analistas a afirmarem que inexiste, hodiernamente, um Estado claramente hegemônico, sendo preferível falar em estruturas hegemônicas, cujo conceito é mais flexível e inclui vínculos de interesse e de direito, organizações internacionais, multiplicidade de atores públicos e privados, possibilidade de incorporação de novos participantes e a elaboração permanente de normas de conduta. Busca-se sempre um elemento para justificar a assimetria verificada na seara internacional, quer sob o manto do defasado conceito de hegemonia, ou da noção mais complexa de estrutura hegemônica.
Robert O. Keohane, discorrendo sobre o declínio da concepção
de poder hegemônico na contemporaneidade, manifesta-se no seguinte sentido, “Eu
defendo que uma versão determinista da teoria da estabilidade hegemônica,
apoiada nos conceitos realistas de interesse e poder, é deveras incorreta. (...)
Cooperação não exige, necessariamente, a existência de um líder
hegemônico após o estabelecimento de um regime. Cooperação pós-hegemônica também
é possível.
Hoje o que permanece existindo é a assimetria, antes sempre verificada. A noção de hegemonia perdeu a credibilidade à proporção que o poder militar perdeu a eficácia. No mundo interdependente em que se vive atualmente, mais importante do que possuir ogivas nucleares é participar ativamente do comércio internacional, estabelecer coalizões no seio dos organismos internacionais e controlar os fluxos (oferta-demanda) de capital.
A hegemonia, nos moldes concebidos pela teoria realista, não encontra respaldo na realidade dos fatos, tornando bem mais complexas as pretensões de atuação na cena internacional. A maior complexidade do sistema, todavia, não impede a existência de cooperação entre os atores internacionais, pois, conforme se acentuou anteriormente, os regimes não se extinguem com a hegemonia dos Estados que os criaram, porquanto o elevado custo de sua substituição favorece a manutenção dos modelos passados e viabiliza a cooperação pós-hegemônica.
SOBRE O PODER, A GUERRA E O DIREITO INTERNACIONAL: Em que Direção Caminha a Humanidade?
O crescente papel das organizações internacionais, a multiplicidade de interesses nacionais, o conflito de pretensões entre grupos internos (em especial em países democráticos e pluralistas), a coalizão de países menos poderosos, a falibilidade no emprego da força e da ameaça nuclear, a instabilidade econômica mundial e o fluxo de capitais entre nações são exemplos de fenômenos que a teoria realista não consegue abarcar. Vislumbrar com clareza esses elementos é sumamente importante, mas em que medida é mais vantajoso conceber as relações internacionais como uma complexa malha de inter-relações e não mais como uma simples balança de poder?
O mundo contemporâneo adquiriu notável complexidade, tornando obsoletas as antigas e tradicionais teorias realistas que buscavam, com base em elementos como a força e a guerra, explicar as relações internacionais. Hoje os elementos determinantes da sociedade internacional são outros e identificá-los é importante para se poder vislumbrar quais os rumos a serem trilhados pela sociedade internacional e o que se pode dela esperar. E, apesar de o modelo interdependentista não descartar a possibilidade de conflito, o maior número de variáveis com o qual ele trabalha facilita a formulação de análises e aufere-lhe uma maior margem de acerto. “O mundo tornou-se grande e complexo demais para ser dominado por um único Estado”.
A mudança teórica, portanto, reflete uma mudança observada na realidade dos acontecimentos, que tem levado, cada dia mais em conta, o poder normativo do Direito Internacional e a atuação das inúmeras OIs e ONGs existentes. O Direito Internacional, apesar de não possuir um poder coercitivo que lhe garanta o cumprimento, vem sendo cada dia mais obedecido pelos agentes internacionais como pressuposto indispensável à existência de um mundo menos conflituoso e mais harmônico.
O sentimento de solidariedade não é apenas um discurso retórico, mas uma necessidade que precisa ser implementada pelos Estados, enquanto elemento necessário ao desenvolvimento dos povos e à otimização dos potenciais humanos.
Apesar das falhas apresentadas pela atuação das OIs, muitos podem ser os avanços identificados a partir de sua disseminação, em 1945, com a criação das Nações Unidas. Alguns autores mais céticos afirmam que essa Organização é mais uma instância de consolidação do poder hegemônico dos EUA sobre os demais países do globo. Os que se opõem a tal forma de pensar afirmam ser este um dos esforços mais bem-sucedidos para ordenar a sociedade internacional.
Aparando as arestas de ambas os lados, pode-se afirmar que as OIs, apesar de não terem obstado conflitos como as guerras da Coréia, do Vietnã, da Iugoslávia, do Kosovo, os massacre em Ruanda, Timor Leste e Albânia, ajudaram a remediar estas situações e a impedir que os Estados recorressem com mais freqüência às armas. Isso porque a existência de um foro permanente em que os representantes dos Estados podem interagir, negociar, discutir e tentar remediar suas diferenças atua positivamente na criação de uma gama de múltiplos canais que reforçam o cumprimento do Direito Internacional. É fato notório que as relações internacionais não podem mais ser reduzi das à simples disputa por poder e pela ameaça constante de uma guerra nuclear de proporções ainda desconhecidas.
Nenhum país, hoje, pode atuar militarmente sem levar em consideração a opinião dos demais. Nenhum Estado é tão soberano ao ponto de ignorar totalmente as pretensões dos demais. Os EUA, apesar de se destacarem no cenário internacional por sua supremacia militar, econômica e política, te riam enormes prejuízos se atuassem, todo o tempo, à ilharga dos demais países, contrariando-lhes todas as pretensões. Isto porque, não obstante o destacado poderio norte-americano, o “Gigante do Norte” depende dos de mais países para, por exemplo, vender suas mercadorias, investir capitais excedentes, etc.
Ademais, uma intervenção militar unilateral dos EUA, se não encontrar respaldo junto aos demais países (especialmente as potências de médio porte, por exemplo, Grã-Bretanha, França, Itália, Espanha, Alemanha, Japão, Canadá, Austrália, etc.), dificilmente lograria êxito. Tanto que os EUA buscam em organizações internacionais, a exemplo da ONU e da Otan, a legitimação necessária as suas atividades militares, como foi o caso do ataque à ex-Iugoslávia. Comercialmente também os EUA encontram-se extremamente vinculados às políticas de outros países e OIs, como a OMC. Em virtude de tais circunstâncias pode-se dizer que, “O cenário internacional poderia ser melhor descrito como apresentando uma unipolaridade militar (hegemonia) americana; uma multipolaridade econômica competitiva (ausência de hegemonia), composta pela chamada “tríade”: Estados Unidos, Japão e União Européia, e um condomínio político exercido pelos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas É claro que o risco de um confronto armado entre as nações sempre existe e o modelo interdependentista não descarta isso, muito embora seja pouco provável que haja uma guerra entre as atuais grandes potências.
Os custos de um evento dessa natureza certamente trariam prejuízos maiores do que os eventuais benefícios ou bens que se buscasse tutelar com uma conduta mais belicosa. A existência de múltiplas áreas de confluência de interesses entre os Estados, principalmente na seara econômica e financeira, dificulta e reduz sobremaneira a possibilidade de um conflito armado.
A noção de interdependência e intergovernabilidade destaca a importância das OIs, enquanto locus ideal no qual se aglutinam tanto as aspirações nacionais quanto supranacionais dos envolvidos. Essas organizações trabalham em diversas perspectivas, tais como a defesa dos direitos humanos, a promoção do bem-estar social, a restrição à proliferação de armas nucleares, a defesa do livre comércio, a tentativa de codificação e uniformização do Direito Internacional, etc. Mas elas também funcionam como instâncias nas quais as coalizões entre os pequenos países torna-se possível, possibilitando que, desta forma, seus pleitos gozem de maior credibilidade e efetividade. Neste sentido, afirma Raimundo Batista dos Santos Junior, “As organizações internacionais, ao reduzirem as discrepâncias entre áreas de assuntos, podem evitar a formação de hierarquia no interior do conjunto das relações exteriores. Neste caso, agem como um eficaz instrumento de negociação entre Estados porque, a partir delas, os países mais fracos na cadeia de relações internacionais podem somar novas opções de barganha com países ricos e poderosos.
Essas instituições apresentam inúmeras falhas, sendo que uma das mais significativas consiste na ausência de mecanismos coercitivos desvinculados da vontade de seus membros. As organizações intergovernamentais existem em função dos Estados e funcionam com o financiamento destes, o que depõe contra a sua imparcialidade e autonomia porém o simples fato de existir um foro onde todos os países encontram-se formalmente equipara dos representa um tremendo avanço na história das relações internacionais.
E já que os países desenvolvidos não controlam os dispositivos for mais de votação nos mais importantes organismos internacionais, existe margem de manobra para os demais Estados criarem mecanismos apropria dos para limitar o poder de barganha e pressão das maiores potências, que não encontram apoio para uma ação unilateral em primeira instância. Neste mesmo sentido assinalam Robert O. Keohane e Joseph S. Nye.
“Os organismos internacionais também permitem que os países pequenos e fracos levem a cabo estratégias de vinculação de questões. (...) Para tanto, a interdependência complexa produz padrões políticos diferentes da concepção realista de mundo Obviamente existem sempre os mais céticos que descartam qualquer vantagem das OIs, cuja existência serviria apenas para consolidar a dependência dos Estados periféricos e legitimar o poder dos mais fortes por meio de mecanismos jurídicos meramente formais. Apesar de se reconhecer a natureza periférica desse tipo de instituição não se pode olvidar a sua importância na promoção de políticas intergovernamentais que trabalham na consolidação de um novo regime internacional, no qual o respeito ao Direito Internacional é o elemento central.
Muitos apontam a eclosão de novas guerras como uma demonstração clara da ineficácia das OIs.
Todavia, conforme já acentuamos, um mundo mais interdependente (no qual a proliferação de organizações intergovernamentais e não-governamentais é característica marcante) não implica, necessariamente, em menos conflito. É equivocado pensar que a dependência recíproca ameniza as disparidades, quando é justamente o contrário que ocorre: os Estados, manipulando suas necessidades e interdependências, buscam encontrar nesse elemento uma forma de geração d poder, no sentido de lhes favorecer a determinação da vontade dos demais Estados. Interessante destacar o que, a este respeito, dispõe Joseph S. Nye, “Algumas pessoas acham que interdependência significa paz e cooperação, mas infelizmente não é assim tão simples.
O conflito continua mesmo num mundo de interdependência. Em virtude das coalizões serem mais complexas e diferentes formas de poder serem usadas, os conflitos são parecidos como disputas de xadrez jogadas em diversos tabuleiros ao mesmo tempo.
No atual estágio de desenvolvimento da política mundial, o comportamento dos Estados não se encontra moldado unicamente por fatores estruturais — por exemplo, a distribuição de poder — nem por fatores domésticos e de interesses. Tanto a estrutura quanto os interesses continuam influenciando a ação dos atores, mas estas duas categorias não explicam os meandros que dão a forma de uma complexa reciprocidade “teia” às relações internacionais.
Se o poder fosse o único elemento a atuar na seara internacional, o que teria impedido os EUA de resgatarem os tripulantes do avião que forçosa- mente teve que pousar na China após colidir com uma aeronave daquele país? É inquestionável a supremacia militar dos EUA frente à China, porém não é menos verdade que se ambos os países entrassem em guerra, os recursos militares chineses seriam capazes de infligir enormes prejuízos aos norte-americanos. Desta forma, muito embora uma derrota fosse inevitável, os custos suportados pelos EUA, compreendidos tanto em termos militares quanto humanos, seriam demasiadamente altos, podendo suscitar, inclusive, a manifestação contrária de sua população civil, que poderia não estar disposta a arcar com as manobras militares do governo.
Também se poderia invocar como exemplo a crise financeira mexicana de 1996 (para não mencionar a crise russa de 1997), que repercutiu negativamente em economias de países tanto da América Latina quanto da Ásia, mas que, ao mesmo tempo, suscitou a ajuda em bloco de vários Estados, em especial dos EUA, aos quais interessava a manutenção da estabilidade de seu vizinho, onde muitos empresários norte-americanos possuem investimentos.
A multiplicidade de fatores que atualmente interfere nas relações internacionais é surpreendente e seria demasiado simplista reduzi-las unicamente à força militar e à ameaça de guerra. Vivemos num mundo anárquico, sim, porém o caminho seguido por este mundo confuso e globalizado não será compreendido se forem omitidas as variáveis que atuam ao largo dos tradicionais mecanismos da política internacional.
A interdependência proporciona um viés interpretativo das relações internacionais bem mais complexo, mas não necessariamente mais estável (como o afirmavam os realistas). O número de variáveis que agora devem ser levadas em consideração na elaboração de estratégias políticas internas e externas cresceu espantosamente, mas ao mesmo tempo em que os países constroem (voluntária e/ou involuntariamente) interesses reciprocamente relacionados e interdependentes, a possibilidade de o sistema, como um todo, sucumbir, torna-se mais remota.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não obstante as mudanças tecnológicas e sociais observadas ao longo dos séculos, alguns aspectos da política internacional permanecem idênticos aos da época em que Tucídides escreveu “A Guerra do Peloponeso”. Afirma-se isso em virtude de ainda ser perceptível uma “lógica de hostilidade”, um dilema sobre segurança nacional, soberania e territorialidade que ainda permeia as relações entre os Estados. As alianças militares, as balanças de poder e as escolhas entre guerra e paz parecem não ter sofrido qualquer alteração ao longo da História.
Para os adeptos do paradigma realista, doutrina que
tradicionalmente dominou o pensamento político internacional, o problema central
da política reside na guerra e no uso da força pelos Estados, os únicos atores
no plano internacional. Já os interdependentistas vislumbram uma
sociedade atuando ao largo dos Estados e, por conseguinte, interferindo em suas
ações. Os principais fundamentos da interdependência política internacional
podem ser assim identificados:
a) os Estados estão perdendo a sua posição dominante nas relações internacionais para atores e forças não-estatais, como as corporações multinacionais;
b) não mais existe uma hierarquia entre questões internacionais, como os assuntos militares e estratégicos (há no topo, e as questões econômicas e de bem-estar (low politics) mais abaixo;
c) o poder militar está perdendo sua importância nas relações internacionais.
Muito embora a política internacional possa ser definida como uma política exercida na ausência de uma soberania absoluta, os Estados ainda ocupam papel de destaque. De fato, será difícil traçar um mundo no qual o Estado não mais possa ser apontado como o representante de uma totalidade e no qual conceitos como Estado-nação, soberania e interesse nacional sejam apenas lembranças de um longínquo e conturbado passado.
Desta forma, permanece válida a assertiva de que os Estados, por muito tempo ainda, se defrontarão com problemas relativos à segurança e à militarização. Por esta razão pode-se afirmar que a lógica do conflito internacional descrita em Tucídides pode ser aplicada, em parte, à realidade hodierna. Há outros elementos, contudo, que interferem nesse sistema, tais como o Direito Internacional e as organizações internacionais, cuja atuação, apesar de imperfeita, produz sérias mudanças na antiga concepção estatocêntrica de relações internacionais.
A dificuldade da comunidade internacional em identificar objetivos comuns e estabelecer interesses universais, não mais fulcrados em elementos de auto-interesse estatal, torna pouco provável a extinção dos conflitos no cenário internacional. A falta de coesão, homogeneidade e harmonia da sociedade internacional não permite que se descarte irrefletidamente as concepções políticas realistas, porém o advento de novas e complexas variáveis também impede que sejam adotados posicionamentos limitados, cômodos e insuficientes.
Os adeptos do paradigma da interdependência nunca refutaram peremptoriamente o conteúdo teórico legado pelos pensadores realistas que lhes antecederam, mas buscaram, sim, estabelecer novos parâmetros de análise levando em consideração as complexas mudanças identificadas na sociedade internacional contemporânea. Certamente, “a política mundial contemporânea não é uma tela desprovida de costuras, mas sim um tapete confeccionado com diversas relações. Em um mundo assim, um só modelo não pode explicar todas as situações” Muitas situações cairão em algum lugar situado entre os dois extremos: as proposições realistas serão necessárias e até mesmo precisas, mas, com freqüência, a interdependência proporcionará um melhor retrato da realidade.
Tanto a vantagem quanto a fraqueza deste novo paradigma decorre justamente da complexidade sistêmica por ele adotada. A vantagem de em pregar diversas variáveis em suas construções teóricas aumenta sobremaneira a sua possibilidade de acerto; por outro lado, a possibilidade de cair-se no discurso fácil e vazio de que “tudo é interdependente”, sem nada explicar com isso, é um risco sempre presente. O indispensável é ter bom senso na aplicação de ambas as teorias e na extração de seus elementos de comprova da validade. Robert O. Keohane e Joseph S. Nye tanto perceberam essa necessidade que afirmaram: “Necessitamos tanto da velha sabedoria, quanto das novas perspectivas. Também necessitamos saber como e quando combiná-las”. O modelo interdependentista não ignora a figura do Estado e as questões relativas à soberania e à hegemonia tão-somente lhes atribui uma nova hierarquia no plano das relações internacionais.
Sob vários aspectos, a perspectiva sistêmica adotada pelos
interdependentistas serve para explicar melhor o modo como está ocorrendo a
mundialização e qual a importância dos novos atores internacionais neste
processo. Muitas críticas já foram feitas a este modelo teórico porém a
tentativa de explicar fatos tão complexos e mutantes como os que ocorrem nas
relações internacionais esbarra sempre na convicção de que a realidade é bem
mais complexa do que os modelos teóricos que tentam explicá-la, por mais
sofisticados que estes sejam.