Bush impõe adesão de Quito ao Plano Colômbia

por José Arbex Jr.

A estratégia estadunidense, batizada de Iniciativa Andina, consiste em cercar e empurrar os guerrilheiros das Farc para dentro do Equador, onde elas teriam de enfrentar as tropas locais
 

No dia 3 de janeiro, o governo equatoriano anunciou a captura, em Quito, de Ricardo Palmera, ou Simón Trinidad (nome de guerra), um dos mais importantes integrantes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). A notícia, espetacular por si, é também um primeiro resultado da ação conjunta dos serviços de informação dos Estados Unidos, Equador e Colômbia. Mas o mais preocupante, avalia o jornalista Kintto Lucas, do quinzenário equatoriano Tintají, é o fato de que a prisão anuncia uma nova fase do Plano Colômbia, mediante o envolvimento direto do governo equatoriano no conflito. A regionalização do Plano Colômbia caminha a passos acelerados, com a integração do Equador às operações de repressão às Farc.

Não se trata de simples dedução. Coube ao ministro da Defesa da Colômbia, Jorge Alberto Uribe, declarar abertamente que a captura de Ricardo Palmera foi “resultado de uma ação exemplar de nossas forças, polícia e exército, com o apoio vital do governo e da polícia do Equador, assim como do governo estadunidense”. Marty Estell, relações-públicas da embaixada dos Estados Unidos no Equador, citou a prisão e subseqüente deportação de Palmera como “um exemplo da cooperação entre a polícia do Equador e da Colômbia, uma operação conjunta que funcionou perfeitamente”, “um sucesso na campanha contra o terrorismo regional e um exemplo do que os países podem fazer para promover a estabilidade regional”. Finalmente, os presidentes da Colômbia (Álvaro Uribe) e do Equador (Lucio Gutiérrez) também manifestaram publicamente sua satisfação.

A única voz oficial destoante foi a do ministro equatoriano do Interior, Raúl Baca, que negou a existência de qualquer operação conjunta. Segundo Baca, Palmera foi preso quase que por acaso: “A captura foi realizada pela polícia nacional como um ato absolutamente normal de controle de imigração na cidade de Quito. O cidadão colombiano (Palmera) foi conduzido à delegacia de polícia, por não portar a documentação exigida para sua permanência em Quito”. Trata-se de um detalhe importante, por refletir tensões dentro do governo e das Forças Armadas. Os setores nacionalistas do Exército equatoriano resistem à estratégia estadunidense de regionalização do Plano Colômbia. Aparentemente, a prisão de Palmera aconteceu com a colaboração da polícia equatoriana, mas sem a participação direta dos militares. O Equador enfrenta uma séria crise política e social, que ameaça produzir no país uma situação fora de qualquer controle, como aconteceu na Bolívia, em outubro passado, quando o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada foi defenestrado por uma rebelião indígena nacional, ou como aconteceu na Argentina, em dezembro de 2001.

 

Visita Indigesta

 

Não por acaso, no início de dezembro – isto é, um mês antes da prisão de Palmera –, Lucio Gutiérrez recebeu a visita de Otto Reich, o famigerado assessor do presidente George Bush para a América Latina, conhecido por seu envolvimento direto nas operações de desestabilização do governo sandinista, nos anos 80, na tentativa frustrada de golpe contra o presidente Hugo Chávez, em 1992, e nas articulações políticas contra o regime cubano. Reich fez a “visita” justamente num momento de grande fragilidade de Gutiérrez, quando pipocavam denúncias, graças a investigações realizadas pelos agentes do DEA (agência estadunidense de combate ao tráfico de drogas), de que parte de sua campanha eleitoral havia sido financiada pelos narcodólares. Outra “coincidência” apontada por Kintto Lucas: o escândalo envolvendo Gutiérrez estourou logo depois que o Congresso equatoriano anulou um acordo feito pelo governo que permitiria ao Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos instalar bases de treinamento no país.

A Casa Branca não está disposta a tolerar que a crise política equatoriana atrapalhe os seus planos de regionalização do Plano Colômbia. Ao contrário, as pressões aumentam, e foi este o sentido da “visita” de Reich. Os generais do Comando Sul exigem abertamente a participação direta de tropas do Equador no combate à guerrilha colombiana. A estratégia estadunidense, batizada de Iniciativa Andina, consiste em cercar e empurrar os guerrilheiros das Farc para dentro do Equador, onde elas teriam de enfrentar as tropas locais. Além disso, as populações indígenas e camponesas das províncias de Carchi, Sucumbios e Esmeraldas, na fronteira entre Equador e Colômbia, continuam sendo bombardeadas com o “gás verde” (fusarium oxisporum), um fungo transgênico extremamente tóxico para o ser humano, fornecido pela transnacional Monsanto. O pretexto é destruir as folhas de coca, mas na prática o que se consegue é a expulsão das populações locais. Qualquer semelhança com a prática dos Estados Unidos no Vietnã não é mera coincidência.

 

Isolar Chávez

 

Mas não é só. Em Manta, área litorânea, os Estados Unidos estão construindo ou já construíram a maior pista de pouso da América do Sul, com capacidade para receber aviões Galaxy, aqueles que podem transportar até tanques de guerra. O objetivo estratégico de Washington é criar uma situação de fato, em que as forças armadas dos países amazônidas sejam colocadas sob a orientação direta dos generais estadunidenses. Uma das razões que explicam a urgência de Reich, além da óbvia operação de ocupação militar da Amazônia, é a estratégia de isolar o governo bolivariano de Hugo Chávez. Do ponto de vista da Casa Branca, o fracasso do golpe de 2002 e a manutenção do apoio popular ao governo da Venezuela, apesar das contínuas e freqüentes ações de sabotagem das elites, acentuaram a necessidade de promover o cerco militar às fronteiras daquele país.

Apesar de todas as pressões da Casa Branca – e até mesmo com a sua ajuda –, o agravamento da crise política e institucional no Equador é inevitável. A própria eleição de Gutiérrez, que assumiu a presidência em 15 de janeiro, foi um resultado dessa crise, que teve um momento de auge dois anos antes, em 21 de janeiro de 2000, quando a Conaie (Confederação Nacional dos Povos Indígenas do Equador), apoiada por setores nacionalistas do Exército (incluindo Gutiérrez), tomou o palácio presidencial e exigiu uma série de medidas contra o programa do governo neoliberal de Jamil Mahuad, que acabou sendo deposto. Gutiérrez foi eleito graças à sua participação na rebelião. Nos comícios eleitorais, denunciava o “neocolonialismo estadunidense” (em entrevista a Caros Amigos, publicada na edição 42, de setembro de 2000, ele propunha uma “frente continental contra o imperialismo”). Assim que assumiu o poder, entretanto, adotou uma prática antagônica a tudo o que dizia representar (coisa que parece estar virando moda na América Latina). Em fevereiro de 2003, durante uma viagem a Washington, para reunir-se com Bush, Gutiérrez declarou que queria ser “o melhor aliado dos Estados Unidos”, talvez inspirando-se na famosa pretensão do argentino Carlos Menem, de manter “relações carnais” com os ocupantes da Casa Branca.

O novo governo mantém, essencialmente, a mesma política neoliberal dos antecessores, persistindo o quadro que produziu a tomada do palácio presidencial, em janeiro de 2000. A Conaie, que teve um papel fundamental na eleição de Gutiérrez, foi levada a romper formalmente as relações com o governo, passando à oposição. A desilusão com Gutiérrez, certamente, produziu uma espécie de perplexidade momentânea, ainda mais com a desilusão provocada pelo governo Lula, que também era fonte de grandes esperanças nos povos da América Latina. Em contrapartida, a Conaie, que representa dez nações indígenas equatorianas – espalhadas principalmente na região amazônica, mas também nos Andes e na costa –, tem uma grande tradição de luta e está vinculada à Via Campesina, que organiza movimentos de toda a América Latina (incluindo, por exemplo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil e os cocaleros bolivianos de Evo Morales). A tradição de luta, aliada a uma profunda consciência de tudo o que está em jogo, permite hoje o desenvolvimento da resistência.

Assim, estão dadas as condições para o agravamento da situação. É claro que a prisão de Ricardo Palmera foi um grave golpe contra as Farc, assim como a participação policial do Equador parece mesmo assinalar uma nova fase do Plano Colômbia, como diz Kintto Lucas. Mas a história ainda está muito longe de seu fim – e aqueles que cantaram a vitória cedo demais no Iraque hoje sabem muito bem disso.

José Arbex Jr. é jornalista.

 

A víbora

por Georges Bourdoukan

Fere a cabeça da víbora com o punho de teu inimigo. Disso te resultará necessariamente um bem. Se teu inimigo vencer, a víbora morrerá. Se for mordido, terás um inimigo a menos.

Os caros amigos já devem ter percebido que, nesse velho provérbio do povo do deserto, a víbora em questão é o capitalismo e o inimigo não é outro senão o coerente Bush. Isso mesmo, coerente, porque, como representante máximo de um sistema agonizante, não lhe resta outra alternativa que não a guerra de espoliação para continuar respirando. Se não ele, será outro. Seja de que partido for. No sistema capitalista, o partido político é o que menos conta. Veja-se o caso de Israel e perguntem aos palestinos se eles sentiram alguma diferença nesses 55 anos de alternância de poder entre trabalhistas e likudistas. A Palestina continua ocupada, os palestinos massacrados, os lugares santos cercados, os sítios arqueológicos em ruínas e milhares de oliveiras pulverizadas.

No capitalismo, os direitos humanos são uma quimera, a ecologia uma ficção e a arqueologia... ora, a arqueologia.

O pecado de Bush foi acreditar que a informação continuava refém da mídia oficialesca. Esqueceu a Internet, no momento principal veículo de comunicação do planeta. Queria fazer crer que a invasão do Iraque era um ato de vingança contra o terrorismo.

Nem os latidos do poodle inglês convenceram.

Bush não é energúmeno. Tem pressa. Ele e seus sicários sabem que a economia americana está à deriva, sem tempo a perder. Hoje é o Iraque, amanhã, com certeza, será a Venezuela, que os Estados Unidos pretendem transformar num posto militar avançado, a exemplo de Israel, para o domínio total da Amazônia.

E, para quem acha um exagero incluir a Amazônia, cito o general Patrick Hughes, então chefe da Defense Intelligence Agency, do governo Clinton: "Se os Estados Unidos entenderem que o Brasil anda fazendo mau uso da Amazônia, estarão prontos a tomar as providências cabíveis”.

Essa é a verdadeira face do capitalismo. Quem tem mais poder não dá a mínima para os Protocolos de Kioto sobre Mudanças Climáticas, torna letra morta o Tratado de Mísseis Antibalísticos, nega-se a cumprir as convenções de Genebra sobre o tratamento a prisioneiros de guerra e vota contra a criação do Tribunal Penal Internacional.

É preciso mais?

Georges Bourdoukan é jornalista e escritor, autor de A Incrível e Fascinante História do Capitão Mouro, de O Peregrino e Vozes do Deserto.

 

O terrorismo como legenda e caligrafia do poder global

por Luis Fernando Novoa Garzon

A doutrina do "revide antecipado" do império vale por mil teorias conspiracionistas do "terror"
 

O superimpério, ao desenhar o novo mapa do mundo, fez do terrorismo legenda providencial. Inversão do método socrático. A resposta gera e cria a pergunta. O contraterrorismo concebe o terrorismo. Abismos criados pela globalização são janelas de oportunidade para o totalitarismo. Para cada reação há uma ação correspondente. Uma doutrina do revide antecipado vale por mil teorias conspiracionistas.

Fechados os últimos acordos, tudo o mais é verticalidade e congruência. Os atentados atribuídos ao "terrorismo internacional" têm o mesmo vício de origem, pecam por excessiva coerência: a) compartilhamento dos canais financeiros do crime organizado para a movimentação do dinheiro necessário para operações de logística, infiltração e cobertura; b) simultaneidade dos ataques com o uso de sofisticados aparatos eletrônicos e de comunicação; c) simulação e/ou instrumentalização de comandos suicidas; d) oportunidade da escolha dos países a serem atacados, quando inimigos para incriminá-los, quando aliados para enquadrá-los; e) precisão na localização de alvos de forte apelo para o grande público, espetacularizando o risco do gran finalle apocalíptico.

Administrados a partir de uma rede mundial, os ataques terroristas têm caligrafia inconfundível. Seus caracteres batem com os das agências de inteligência e forças especiais, militares e paramilitares dos EUA, Reino Unido e Israel. A Al Qaeda nunca romperá com seus laços de sangue. Sua marca de origem é indelével, como se pode ver a seguir.
 

1. Indonésia, ilha de Bali, sábado, 12 de outubro de 2002

 

Oportunidade: a Indonésia é o maior país islâmico do mundo, com cerca de 200 milhões de habitantes. O país tem peso econômico e sociocultural para desequilibrar as relações de poder do Sudeste Asiático. Com a queda da ditadura (pró-EUA) de Suharto, a Indonésia foi tomada por uma onda nacionalista e fundamentalista, o que colocou em questão o alinhamento geopolítico do país.

Alvos: 183 mortos, mais de trezentos feridos. Três bombas com material explosivo C4, fabricado exclusivamente nos EUA e em Israel para uso somente de suas Forças Armadas, explodiram em uníssono. Uma, em um bar irlandês, outra, na badalada discoteca Sari, ambos lugares intensamente freqüentados por turistas ocidentais. A terceira foi para norte-americano ver, explodiu a duas quadras do consulado dos EUA na ilha.

Autoria: "Que se saiba que cada gota de sangue muçulmano será lembrada", diz a mensagem do até então desconhecido grupo al-Katibul Maut al-Alamiya ("La Brigada Internacional de la Muerte"). A incriminação já vem embutida no nome: a morte é sua insígnia. A mensagem plantada insiste que os atos foram suicidas. É proibido duvidar. Mais uma das infinitas "ramificações" da Al Qaeda. Na casa do principal suspeito, imã Samudra, não poderiam faltar vídeos e livros do grande chefe Osama. A estupidez dos que plantam é a mesma dos que colhem, ou seja, acreditam.

 

2. Quênia, cidade de Mombaça, quinta-feira, 28 de novembro de 2002

 

Oportunidade: antevéspera da convenção do Likud, partido conservador, que confirmaria Ariel Sharon na liderança de Israel. O Quênia já fazia parte do "mapa do terrorismo" depois da explosão da embaixada dos EUA em agosto de 1998.

Alvos: quinze mortos, entre eles três israelenses. Enquanto cem turistas israelenses se registravam em um hotel, pertencente a um grupo financeiro de Israel, as bombas explodiam em um setor anexo. Concomitantemente, um avião israelense com 261 passageiros que partia da cidade em direção a Tel Aviv "quase" foi atingido por um míssil não identificado.

Autoria: um comunicado bastou para resolver o "mistério". Um grupo auto-intitulado Exército da Palestina ou Governo da Palestina Universal no Exílio reivindicou a responsabilidade dos ataques. O grupo, no entanto, não é conhecido nem reivindicado por ninguém no mundo islâmico. Incubar, inocular, escafeder. A Divisão de Operações Especiais do Mossad de tão especializada se repete.

 

3. Arábia Saudita, Riad, 12 de maio de 2003

 

Oportunidade: em meio à campanha de demonização do islamismo, o país que tem os dois maiores marcos simbólicos do mundo muçulmano, Meca e Medina, não poderia passar incólume. A Arábia Saudita ainda precisa se encaixar na nova geometria de poder no Oriente Médio imposta pelos EUA após a Guerra no Iraque, o que implica o reajuste das alianças internas no regime Saud para que se preservem as "privilegiadas" alianças externas do país. Os grupos de filiação wahabita deverão ser deslocados. Prevê-se um controle mais estrito do ritmo de produção do maior provedor de petróleo do mundo. A diminuição das margens de soberania do país depende do ataque à identidade e unidade cultural-religiosa do povo árabe. Autoridades sauditas prometeram solenemente reprimir o terrorismo no próprio reino. Washington, por sua vez, garante que pressionará Riad para que "faça ainda muito mais".

Alvos: 34 mortos em três ataques simultâneos a condomínios residenciais de alto padrão, utilizados em geral por estrangeiros. Os explosivos C4 realmente são um sucesso. Nenhuma novidade para a Agência Central de Inteligência (CIA). Dias antes, o embaixador dos EUA, baseando-se em relatórios da agência, fizera um alerta sobre a "possibilidade iminente" de atentados contra edifícios residenciais em Riad. Em operações de camuflagem avançada, o aviso prévio faz parte do despiste.

Autoria: uma mensagem eletrônica da rede Al Qaeda e estamos conversados. O grupo "oficialmente" reivindicou a autoria dos atentados, promovidos por seus "mártires suicidas". Feita a "confissão", para que investigação, não é mesmo? A Revista saudita Al Malajaj, casualmente editada em Londres, esclarece tudo. Em entrevista virtual "exclusiva", o "dirigente" da Al Qaeda Abu Mohamed afirma que o grupo "planejava há muito tempo operações de envergadura no Golfo, onde armazenou grandes quantidades de armas e explosivos". Concluindo a encomenda, o dirigente-fantasma explicita que, "entre as prioridades da Al Qaeda, além dos ataques em território dos Estados Unidos, figuram as operações nos países do Golfo e nos países aliados dos Estados Unidos". É assim que George Tenet, diretor da CIA, reiterativamente presta serviços a Rumsfeld e Wolfovitz.

A eficiência dessas operações assassinas é tributária da mais legítima "racionalidade ocidental". Bin Laden transita calculadamente pelo integrismo islâmico. A pregação retrógrada do anti-Messias não pretende comover o Islã, mas aterrorizar a opinião pública dos países da OCDE. Os novos "terroristas" são mercenários profissionais organizados em rede empresarial-militar. São a ponta visível da luta intestina entre os círculos monopolistas pela governança global que mais lhes convenha.

No mundo-mercadoria/mundo-campo de batalha, Pentágono e Coca-cola dizem o que é e o que não é real. Tradição reinventada em tempo real. Verdades primordiais produzidas instantaneamente. A ideologia virou realidade. Profissionais e amantes do poder não esperam nada além daquilo que planejam. No projeto pós-hitlerista das elites globais, os "grupos terroristas" têm o papel imprescindível de confirmar a inexistência de alternativas à globalização privatista. Depuradores da imprevisibilidade, exterminadores do futuro. A modernidade ocidental, enfim, seqüestrou Cronos, o deus do tempo. O império norte-americano, cansado de sugerir o "fim da história", recebeu a incumbência para decretá-lo.


Luis Fernando Novoa Garzon é sociólogo.
E-mail:
l.novoa@uol.com.br

GUERRA FRIA: TERRORISMO 

http://www.tvcultura.com.br/aloescola/historia/guerrafria/guerra6/terrorismo.htm 

Sempre que ouvimos falar em terrorismo, lembramos logo dos atentados a bomba, dos seqüestros de avião e de outras ações violentas praticadas por extremistas. E pensamos nas vítimas, em geral pessoas inocentes, muitas vezes mulheres e crianças, que apenas estavam no lugar errado na hora errada. O método básico do terrorismo é a destruição da vida humana, em nome de certos princípios ideológicos, políticos ou religiosos.

Terrorista em ação na Irlanda do Norte

O terrorismo não surgiu em nosso século, mas seu auge aconteceu durante os anos da Guerra Fria, depois da Segunda Guerra Mundial. Não foi por acaso. A Guerra Fria pode ser descrita como um sistema de equilíbrio entre dois blocos inimigos que se baseava no terror. Afinal, o poder de destruição nuclear dos Estados Unidos e da União Soviética era tão grande que ninguém poderia iniciar uma guerra total. Seria o fim da espécie humana.

Essa mentalidade consagrou o terror como forma de relacionamento entre Estados. Nesse sentido, a chamada "cultura da Guerra Fria" foi o grande estímulo à multiplicação de grupos terroristas.


O que é terrorismo?

Formalmente, terrorismo é o uso da violência sistemática, com objetivos políticos, contra civis ou militares que não estão em operação de guerra. Existem muitas formas de terrorismo. Os terroristas religiosos praticam atentados em nome de Deus; já os mercenários recebem dinheiro por suas ações; os nacionalistas agem movidos por um ideal patriótico. Há ainda os ideólogos, que armam bombas motivados por uma determinada visão de mundo. E, muitas vezes, o que se vê é uma mistura de tudo isso com desespero e ódio.

Por outro lado, houve no século XX o crescimento do terrorismo de Estado, em que é adotada a política de eliminação física de minorias étnicas ou de adversários de um regime. Um exemplo é o regime racista da África do Sul, responsável por ações terroristas contra a maioria negra do país até o fim do apartheid, no início dos anos 90. Na América Latina, as ditaduras militares dos anos 60 e 70 promoveram o terrorismo de Estado contra seus opositores, torturando e matando milhares de pessoas. No Oriente Médio, os palestinos de cidadania israelense e os habitantes dos territórios de Gaza e Cisjordânia foram segregados e sofreram ataques das forças armadas de Israel, entre 1967 e 1993. O terrorismo de extremistas muçulmanos contra judeus de Israel, por sua vez, também aterrorizou e matou pessoas inocentes, principalmente a partir da década de 80.

Muitos historiadores e intelectuais avaliam que as bombas atômicas jogadas pelos Estados Unidos sobre o Japão, em agosto de 45, foram o maior atentado terrorista já praticado até hoje. Mais de 170 mil civis perderam a vida num ataque que não tinha como objetivo vencer a guerra, mas fazer uma demonstração de força para a União Soviética.


Violência e terrorismo

Muitas vezes ouvimos dizer que todo ato de violência é terrorismo, mas isso é força de expressão. Nem sempre um ato de violência é terrorista, mesmo quando a vítima é uma personalidade política. A tentativa de assassinato do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, em 1981, é um exemplo de violência sem conotação política. O autor dos disparos, John Hinckley Jr., agiu isoladamente, motivado por questões pessoais. Já o assassinato do premiê israelense Yitzhak Rabin por um extremista judeu, em 1995, este sim, foi um ato terrorista.

Hinckley: motivação pessoal

O atentado contra Reagan não teve o objetivo de fazer propaganda política ou ideológica, ao passo que a morte de Rabin fazia parte da estratégia política de uma organização radical. O objetivo era interromper o processo de paz no Oriente Médio. De qualquer modo, atentados contra chefes de Estado fazem parte de uma longa história de práticas terroristas mundo afora.


Terrorismo na era contemporânea

Na era contemporânea, a França conheceu o regime de terror implantado pelos jacobinos de Robespierre a partir de 1793, pouco depois da Revolução Francesa. Quase um século depois, em 1881, o czar Alexandre Segundo, da Rússia, foi assassinado pela organização terrorista "Vontade do Povo". E, no início do século XX, o estopim que deflagrou a Primeira Guerra Mundial foi o atentado contra o arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando, em 1914. Ele foi morto pelo estudante Gavrilo Prinzip, do grupo terrorista sérvio "Mão Negra".

"Até os anos 20, o terrorismo era um fenômeno no tempo e no espaço, de dimensões relativamente pequenas, transitórias e restritas. Ele começou a ganhar maior abrangência e importância com o surgimento dos regimes totalitários de Josef Stalin e Adolf Hitler.

Stalin: terror de Estado

Já no final dos anos 20, Stalin enviava aos campos de concentração centenas de milhares de opositores ao seu regime, sem contar os treze milhões de camponeses executados por resistirem à coletivização de suas terras, entre 1929 e 1932. Na Alemanha dos anos 30, Hitler iniciou a perseguição aos comunistas, judeus, ciganos e outras minorias étnicas. Até o final da Segunda Guerra, em 1945, seriam assassinados seis milhões de seres humanos pela máquina nazista. Os dois regimes de terror tinham algumas características muito semelhantes: o culto à personalidade do dirigente, no caso Stalin e Hitler, e os poderes absolutos da polícia política, no caso a KGB e a GESTAPO."


Terrorismo e poderio nuclear

O desenvolvimento da tecnologia nuclear, a partir do fim da Segunda Guerra, causou uma importante mudança na mentalidade das pessoas, do ponto de vista psicológico e cultural. A morte deixou de ser uma conseqüência natural da vida para se tornar uma questão política. A preservação da espécie humana passou a depender da decisão das superpotências de iniciar ou não um confronto nuclear fatal para o planeta. O mundo dos anos 50 não apresentava perspectivas muito animadoras. Na primeira metade do século, guerras, revoluções e conflitos localizados haviam consumido a vida de pelo menos 150 milhões de pessoas. Além disso, a tragédia atômica em Hiroshima e Nagasaki havia colocado o mundo sob a sombra permanente de um holocausto nuclear.


Guerrilha e terrorismo: vertentes distintas

No final dos anos 50, o êxito da revolução cubana abriu novos horizontes para uma juventude desiludida. A vitória de Fidel Castro, contra uma ditadura corrupta sustentada pelos Estados Unidos, representou para muitos jovens a vitória do idealismo. Militantes de todo o mundo ganharam nova disposição de luta. Muitos jovens optaram pela vida clandestina, que oferece dois caminhos: a guerrilha e o terrorismo. A guerrilha, de um modo geral, realiza ataques contra objetivos militares e alvos estratégicos. Tenta conquistar a simpatia da população para formar seu próprio exército e, eventualmente, tomar o poder. Os grupos terroristas utilizam o método inverso, intimidando pessoas inocentes para alcançar seus objetivos.

Violência política na América Latina

No Brasil, a reação civil ao golpe militar de 64 desencadeou uma luta armada que faria muitas vítimas até o início de abertura política, em 1977. Muitos oposicionistas decidiram-se pela guerra de guerrilha, inspirados na revolução cubana. Um dos líderes mais célebres da luta armada nos anos 60 foi o ex-capitão do Exército Carlos Lamarca, da Vanguarda Popular Revolucionária, morto por soldados no interior da Bahia, em 1971.

Até a Igreja sofreu atentados terroristas

Um ano especialmente conturbado foi o de 1968. Ações terroristas sacudiram o país. Grupos de extrema-direita atacaram artistas, lançaram bombas contra entidades civis e intimidaram personalidades de perfil humanista, como o arcebispo Dom Hélder Câmara, que teve sua casa metralhada em Recife, em outubro de 68.

Agentes dos órgãos de segurança e dos serviços de informação das Forças Armadas agiam à margem da lei com prisões arbitrárias, torturas e o assassinato de opositores do regime militar. Em contrapartida, os grupos clandestinos de esquerda financiavam suas atividades com dinheiro obtido em assaltos a banco e furtos de automóveis. E praticavam seqüestros de diplomatas para negociar sua libertação em troca de armas e da soltura de presos políticos.

Uma das ações mais espetaculares foi o seqüestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick, em setembro de 69. No início da década de 70, seriam seqüestrados também o cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi, e os embaixadores da Alemanha, Ehrenfried von Holleben, e da Suíça, Giovanni Bücher.

Processos semelhantes ao brasileiro aconteceram em toda a América Latina. No Chile, em 73, um golpe de Estado liderado pelo general Augusto Pinochet depôs o presidente eleito Salvador Allende, inaugurando uma sangrenta ditadura militar. Na Argentina, os militares implantaram a ditadura em 76, dando início a uma "guerra suja" contra os oposicionistas, com um saldo de 30 mil desaparecidos em sete anos.


Anos 60 e 70: desilusão

Em diversos países havia, além da repressão oficial, a tolerância dos regimes autoritários em relação às ações ilegais de grupos paramilitares. Por outro lado, nos anos 70 a atividade dos grupos terroristas atingia seu ponto máximo. Era uma época de questionamento dos valores tradicionais e do "velho modo" de fazer política, nos dois blocos. O escândalo de Watergate, em 72, e a derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, reconhecida em 75, acentuaram a decadência da ordem política internacional.

Na África, a independência havia sido conquistada em diversos países. Inúmeras guerras tribais estimularam o tráfico de armas e a formação de grupos paramilitares. Na Europa, grupos separatistas, como o IRA e a ETA, radicalizavam as formas de luta. E no Oriente Médio o fervor religioso estimulava o surgimento de grupos extremistas.


Extremismo islâmico

Apesar da violência em comum, existem diferenças entre os grupos terroristas. O fundamentalismo islâmico, por exemplo, não tinha caráter terrorista na época em que surgiu. A Irmandade Muçulmana apareceu em 1929, no Egito, com preocupações sociais e propósitos religiosos. Mas a partir dos anos 30 foi perseguida pelo rei Fuad e por seu sucessor, o rei Faruk, favoráveis à dominação britânica. A Irmandade partiu para a radicalização e o terrorismo no início dos anos 50, com a ascensão do líder nacionalista Gamal Abdel Nasser, acusado de defender interesses ocidentais.

A ação mais espetacular da Irmandade Muçulmana foi o assassinato do presidente egípcio Anuar Sadat, em 1981. Sadat foi considerado traidor por ter assinado os acordos de Camp David, em 78, que reconheciam o direito de existência do Estado de Israel.


OLP x Israel

A crise no Oriente Médio também fez surgir, em 1964, a Organização Para a Libertação da Palestina, uma frente reunindo diversos grupos. A OLP, que tinha como base a Al Fatah, facção liderada por Yasser Arafat, foi criada em decorrência de um quadro político cada vez mais conturbado. Os ânimos na região estavam acirrados desde a criação de Israel, em 1948. Com o apoio político, econômico e militar de soviéticos e americanos, Israel promoveu guerras com alguns

Arafat (dir.) e a OLP contra Israel

vizinhos árabes para expandir seu território. Centenas de milhares de palestinos foram expulsos de suas terras. Organizações terroristas judaicas, como a Irgun, a Stern e a Haganah tiveram um papel importante na intimidação da população palestina, chegando a massacrar aldeias inteiras.

O problema palestino era um distúrbio indesejável na Guerra Fria. O Oriente Médio, como quase todo o planeta, estava dividido em esferas de influência das superpotências. Israel e alguns países árabes passaram para a esfera dos Estados Unidos, enquanto outros países árabes ficaram sob influência soviética. A questão palestina não se encaixava bem nesse jogo de equilíbrio.

O isolamento dos palestinos no Ocidente e a hostilidade dos países árabes acabaram fortalecendo a OLP e a opção de grupos radicais pelo terrorismo. Mas nem todos os atos terroristas reivindicados pelos palestinos eram de autoria da OLP.


Terrorismo internacional


Terrorista seqüestrou atletas olímpicos

Um dos atentados mais violentos aconteceu em setembro de 72, durante os Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha. Nove atletas israelenses foram feitos reféns pela organização palestina "Setembro Negro". Os seqüestradores exigiam a libertação de cem palestinos presos em Israel e dos terroristas internacionais Andreas Baader e Ulrike Meinhoff, da Alemanha, e Kozo Okamoto, do Japão. Forças de segurança alemãs cercaram e mataram os sequestradores.

Os atletas também foram todos mortos, o que deixou a opinião pública estarrecida. O episódio de Munique preocupou as autoridades, porque ficou evidente o vínculo entre diversas organizações clandestinas internacionais. Esse intercâmbio seria percebido novamente em 1976, com o seqüestro de um Boeing da Air France que fazia um vôo entre Tel Aviv e Paris. O avião, com 242 passageiros e 12 tripulantes, foi levado para Entebe, em Uganda, país africano que vivia sob a ditadura de Idi Amin Dada.

Os seqüestradores diziam pertencer à Frente Popular para a Libertação da Palestina, um dos grupos mais radicais da OLP. Mantendo como reféns somente os 93 passageiros judeus, os terroristas exigiam a libertação de 53 palestinos presos em Israel. O governo israelense ordenou uma operação de resgate, enviando a Uganda uma força de elite. Em menos de 15 minutos os terroristas foram mortos e os reféns, libertados.


Terrorismo na Europa

Outra organização que se especializou em ataques terroristas nos anos 70 foi o Exército Republicano Irlandês, o IRA. Ele foi formado em 1919 por grupos da minoria católica que lutavam pela união da Irlanda do Norte à República da Irlanda.

Na década de 60, os católicos foram às ruas pacificamente, contra leis discriminatórias impostas pela maioria protestante. Aproveitando o clima de insatisfação, um grupo de militantes relançou o IRA, dessa vez com um verniz ideológico marxista. A fase pacífica do movimento terminou num domingo de janeiro de 1972, quando tropas britânicas dispararam suas armas contra os manifestantes, matando 13 pessoas. O incidente, que passou à história como "Domingo Sangrento", desencadeou uma escalada do terrorismo. Durante os anos 70, mais de duas mil pessoas morreram e milhares ficaram feridas em atentados a bomba patrocinados pelo IRA e nos choques de rua entre manifestantes e forças de segurança.

Outros grupos surgiram com fins pacíficos e também foram empurrados para o terror. É o caso da ETA, organização que luta pela autonomia do País Basco em relação à Espanha.

País Basco (área listrada): pela autonomia

ETA, no idioma basco, são as iniciais de "Pátria Basca e Liberdade". Criada em 1959 para difundir a cultura e os valores tradicionais do povo basco, a ETA foi perseguida pela ditadura de Francisco Franco e entrou para a clandestinidade e o terrorismo em 1966. O atentado mais ousado foi realizado em 73, quando a organização explodiu no centro de Madri o carro em que viajava o primeiro-ministro franquista Luís Carrero Blanco.

Na década de 70 houve também a ação de grupos terroristas sem vínculos com lutas democráticas ou de libertação nacional, como o grupo Baader-Meinhoff, na Alemanha, e as Brigadas Vermelhas, na Itália. Eram organizações formadas por intelectuais e universitários que adotaram a violência em nome de uma genérica "guerra contra a burguesia". Em setembro de 77, o Baader-Meinhoff ganhou as manchetes dos jornais com o seqüestro do industrial Hanss-Martin Schleyer, como pressão pela libertação de presos políticos.

Em março de 78, outra ação espetacular na Europa: o seqüestro do primeiro-ministro italiano Aldo Moro, uma ação audaciosa que surpreendeu o mundo. Moro acabou executado pelos terroristas, apesar dos apelos do Papa e da opinião pública internacional.

Terrorismo xiita

No final dos anos 70, o terrorismo ganhou um novo ingrediente religioso, com a ascensão dos muçulmanos xiitas no Irã, em janeiro de 79. Sob o comando do aiatolá Khomeini, os xiitas derrubaram a ditadura do xá Reza Pahlevi e implantaram um sistema que fugia à lógica dos dois blocos econômicos, liderados por Estados Unidos e União Soviética. A partir da revolução iraniana, foi implantado um sistema de governo guiado por convicções religiosas radicais e inflexíveis. Khomeini inaugurou a chamada "Jihad" em nossos dias, a Guerra Santa contra o Grande Satã, representado pelo mundo não xiita. Daí para a prática do terrorismo foi um passo. O inédito nessa história era o caráter oficial do terror, assumido claramente pelo regime dos aiatolás.

A primeira demonstração radical de Khomeini foi em novembro de 79. Com apoio do governo, estudantes iranianos invadiram a embaixada norte-americana em Teerã, fazendo 66 reféns. Eles queriam a extradição do xá Reza Pahlevi, em tratamento de saúde nos Estados Unidos. Foi o início de uma longa crise entre os dois países. Mesmo com a morte de Pahlevi em julho de 1980, vítima de câncer, os estudantes não desocuparam a embaixada.

O impasse prejudicou a campanha de reeleição do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, que acabou derrotado pelo candidato republicano Ronald Reagan. Foram 444 dias de expectativa. Em 20 de janeiro de 1981, dia da posse do novo presidente dos Estados Unidos, os iranianos finalmente libertaram os reféns norte-americanos. Até hoje são obscuras as condições sob as quais o presidente Reagan negociou o fim da crise.

Khomeini: guerra contra o "Grande Satã"

Além da vitória de Khomeini no Irã, outro elemento viria a fortalecer a causa dos xiitas: a reação à invasão do Afeganistão pelos soviéticos, em dezembro de 79. Os afegãos, em sua maioria de fé muçulmana, sentiram sua religião ameaçada pela presença do exército soviético. Vários grupos guerrilheiros proclamaram uma 'guerra santa' contra o invasor.

Com a revolução no Irã e a resistência dos rebeldes afegãos, a "Jihad" ficou conhecida no Ocidente e ganhou força junto à população muçulmana de todo o mundo. O apelo foi reforçado, em fevereiro de 89, com a sentença de morte proferida por Khomeini contra o escritor anglo-indiano Salman Rushdie, autor do livro "Versos Satânicos", considerado blasfemo pelos aiatolás do Irã. Caçado pelos xiitas, Rushdie passou a viver escondido na Inglaterra, sob proteção da Scotland Yard.


Terrorismo no Líbano

No começo dos anos 80, o Líbano tornou-se palco de inúmeros atentados. Várias facções disputavam o poder apoiadas por países vizinhos, especialmente Síria e Israel. A existência de áreas de refugiados palestinos na capital Beirute aumentava a tensão e o clima de guerra civil. Uma das organizações acusadas com mais freqüência de terrorismo era a OLP. Na tentativa de capturar ou eliminar o líder Yasser Arafat e destruir bases militares palestinas, forças israelenses invadiram o Líbano, em junho de 82. Durante vários dias, a capital libanesa transformou-se num inferno. Milhares de civis foram mortos, entre eles mulheres, velhos e crianças. Os israelenses não encontraram Arafat, mas expulsaram a OLP e deixaram o Líbano em ruínas.

Em setembro de 82, falanges cristãs libanesas, apoiadas por Israel, atacaram os campos de refugiados de Sabra e Chatila, nos arredores de Beirute. Mais de 2.500 civis palestinos e libaneses desarmados foram mortos. O massacre chocou a opinião pública internacional. Foi nesse clima extremamente tenso que se multiplicaram os grupos terroristas no Líbano nos anos 80. A ação terrorista mais famosa dessa época aconteceu em 83, quando dois atentados simultâneos mataram mais de 250 fuzileiros navais americanos e mais de 50 soldados franceses, em Beirute. Mas os xiitas de Khomeini e os militantes de grupos fanáticos, como o Hamas e o Hezbollah, não limitaram seus ataques ao Oriente Médio: em nome da Guerra Santa, eles organizaram vários atentados na Europa e nos Estados Unidos.

Fim da Guerra Fria: o terrorismo reflui

Carlos, o Chacal: prisioneiro na França

No início dos anos 90, o fim da Guerra Fria e a abertura do diálogo no Oriente Médio e na Irlanda do Norte fizeram o terrorismo refluir um pouco, abrindo mais espaço para a negociação. Um sintoma dessa trégua foi a prisão, em 94, de Carlos, o Chacal, o terrorista mais procurado do mundo.

O venezuelano Ilitch Ramirez Sanchez, nome verdadeiro do Chacal, foi preso em agosto de 94 por agentes do serviço secreto francês. O terrorista, que agia por dinheiro, é acusado da morte de 93 pessoas e de ferimentos em outras duzentas, em 20 anos de atividades. Infelizmente, a prisão de terroristas famosos e até mesmo o término da Guerra Fria não puseram um fim ao terrorismo internacional, que continua transformando a vida de pessoas inocentes num pesadelo, em diversos lugares do mundo.

No Oriente Médio, extremistas matam e ferem para tentar atrapalhar as negociações de paz entre Israel e os palestinos. Na Grã-Bretanha, grupos radicais do IRA também apavoram inocentes, procurando reacender a violência dos anos 70. E aqui e ali, fanáticos religiosos passam dos limites em nome do apocalipse. Talvez a conclusão mais importante a que podemos chegar no final do programa de hoje é a de que o terror gera o terror. Muitas vezes os governos gostam de taxar seus inimigos de terroristas, mas se esquecem de suas próprias responsabilidades. O terror existe e cresce sempre que o diálogo é impossível. E nunca o diálogo foi tão sufocado como no período da Guerra Fria.